Recentemente, Bernardo Bertolucci causou um misto de revolta e curiosidade ao reacender a polêmica em torno da famosa “cena da manteiga” de seu longa Último tango em Paris (1972). O aclamado diretor afirmou que, realmente, Maria Schneider não sabia do uso da manteiga na cena de estupro do filme. Anos antes, a atriz, que faleceu em 2011, afirmou que “se sentiu violentada”, já que não teria sido consultada sobre a “novidade” e se sentiu vítima de um arranjo do diretor e do ator Marlon Brando.

E esse não seria o único caso de abuso envolvendo a sétima arte: as atrizes de Azul é a cor mais quente (2013), Adele Exarchopoulos e Lea Seydoux relataram que o diretor do longa, Abdellatif Kechiche teria ido longe demais e as explorado durante as filmagens. Charlotte Gainsbourg foi outra que ressaltou, durante os dias de gravação de Ninfomaníaca, a obsessão de Lars Von Trier por sexo, o que teria feito com que ela se sentisse “miserável”.

Saindo um pouco da questão do abuso de mulheres no cinema e partindo para a exploração de animais e “performance artística”, em 2008, o artista Habacuc, da Nicarágua, teria permitido, durante uma apresentação, que um cão morresse de fome. Levando em consideração essas e outras polêmicas envolvendo diversas formas de arte, aproveito para questionar você, leitor deste post: existe limite para a arte?

Será?

A pergunta parece uma charada daquelas em que se entra numa espécie de dilema moral: ao imprimir um limite à arte, há de se tolher a liberdade criativa dos artistas e limar a possibilidade de questionamento que determinada manifestação pode trazer, mesmo aquelas que, aparentemente, causam danos à integridade de outrem – sejam elas pessoas ou animais. Para tentar ir além na elaboração de uma resposta, alguns contextos históricos e análises fazem-se necessárias.

Tudo é arte
Com o fim do artesanato e atribuição de “conceito” ao trabalho, o que ocorreu no começo do século XX, iniciou-se o processo de abertura do campo da arte. A arte moderna foi o movimento de vanguarda que ousou aprofundar conceitos, inicialmente na pintura, ao girar a figura, ao exagerar nos traços e cores e ao transformar assuntos como miséria, solidão e desespero em poesia visual.

A subjetividade tomava conta da arte para sempre, fazendo com que ela se tornasse pouco a pouco mais incompreensível, até que as readymades duchampianas dos anos 60 fizessem os queixos cairem de vez. Em uma visão resumida e bem geral, a arte não era mais apenas um medium como pintura, escultura ou qualquer outra forma de representação: houve uma ampliação ilimitada da definição de arte, para o bem ou para o mal.

Duchamp tinha o sonho de ver o artista liberto do que costumava chamar “domínio da mão”. Para ele, um artista não necessariamente precisava saber desenhar, pintar, esculpir ou fazer qualquer outra coisa; o artista apenas deveria ser livre para fazer o que quisesse.

Essa era uma discussão válida, é verdade. Mas o que Duchamp não imaginava é que na ânsia de fazer arte, ela seria destruída ou, pior, prostituída. Se tudo é arte, nada o é, afinal. Entramos de cabeça na era da interpretação e, é claro, sempre haverá a intenção do artista, que pode querer que as reações do público façam parte da obra, ou, até mesmo, não esperar reação nenhuma dele. Mas vale a pena destruir vidas em nome de uma manifestação artística marcante?

Estariam os artistas citados acima apenas revelando o que há de mais humano no homem, sem hipocrisia nenhuma ou apenas agindo com perversidade para chocar e polemizar? Como estabelecer esse limite, que é separado, aparentemente, por uma linha bem tênue?

Aposto que cada um tem uma resposta pessoal para estas perguntas, mas, sem dúvidas, o principal sobre essas questões é que, se elas não forem feitas o conceito de arte aqui não terá valido de nada. Como reflexão, deixo as aspas do próprio Habacuc, quando perguntado se o cão Natividad estaria morto:

“O importante para mim é constatar a hipocrisia alheia: um animal torna-se o centro das atenções quando o ponho num local onde todos esperam ver arte, mas deixa de o ser quando está na rua. O cão está mais vivo do que nunca, porque continua a dar o que falar”.


Por Thais Isel