Você provavelmente já viu pessoas andando com camisetas e moletons com alguns pequenos rasgos. Hoje é fácil achar essas peças em diversas cores em grandes lojas de departamentos. Mas de onde surgiu essa exótica ideia de usar peças de algodão oversized e com furos e rasgos? Em 2015, o rapper americano Kanye West lançou, na Semana de Moda de Nova York, sua primeira coleção de roupas a “Yeezy”, inspiradas no steetstyle do mundo do hip-hop.

Já no Brasil, a cultura de rua do hip-hop entrou nas passarelas no ano seguinte. O desfile mais comentado da São Paulo Fashion Week de 2016 foi o da grife Laboratório Fantasma, dos rappers Evandro Fióti e Emicida. As peças passavam longe das tradicionais camisetas com logos de cantores ou bonés de aba reta que já são vendidas na loja on-line da Lab há anos. Tecidos mais sofisticados e modelos muito bem elaborados discutiram gênero, raça e preconceito: temas bem correntes nas músicas dos dois irmãos e da maioria dos rappers do Brasil. A própria apresentação das peças foi um manifesto: os modelos que desfilavam vinham de todas as cores, formatos e opções sexuais.

Apesar de inovarem, promoverem discussões e lançarem tendências, o que Emicida ou Kanye fizeram não é exatamente novo. A moda e o hip-hop se misturam desde os anos de 1980. Este estilo musical que surgiu em Nova York nos anos 70 sempre foi bastante visual, o vestuário da cultura rapper sempre foi muito bem definido: calças largas e baixas, camisetas ou moletons oversized e tênis.

Nos anos 80, a identificação visual dos rappers se consolidou ainda mais. Surgia no mundo do rap a cultura “bling ring”. Suas marcas registradas eram as grossas correntes douradas e a obsessão por logos. Apesar de considerada muitas vezes fútil, esta moda tinha um nobre intuito: mostrar para outros jovens negros que eles também poderiam chegar “no topo do mundo”, mesmo que as mídias tradicionais não mostrassem seu sucesso. Mas nem sempre as marcas gostaram da ideia de ter rappers usando suas peças. Na maior parte das vezes, por puro preconceito.

É possível dizer que a relação um pouco mais positiva entre a cultura do hip-hop e a moda começou em 1986. Neste ano, o grupo Run D.M.C. lançou seu hit “My Adidas”, a partir deste momento algumas marcas, principalmente de sportswear e do que viria a ser chamado streetwear notaram que o rap poderia ser uma boa propaganda. Além da Adidas, marcas tradicionais como Tommy Hilfiger ou Versace aceitaram que o rap seria uma tendência que veio para ficar e, além de convidarem alguns rappers para a primeira fila de seus desfiles (como a Versace em 1996, quando Tupac e sua namorada estavam na primeira fileira), as marcas promoveram campanhas publicitárias pensando em atingir o público que ouvia aos rappers que gostavam de vestir as marcas.

Se primeiro as marcas detestavam que os rappers usassem suas peças e depois aceitaram que eles as usassem, hoje são os próprios rappers que pautam e inspiram a moda. Além de Kanye West há que se mencionar Pharell Williams, que sempre se mostrou bem antenado com a moda e já fez nada menos que 20 collabs. Desde óculos Louis Vuitton até tênis Adidas, Pharell sempre inova em seus looks e estrelou neste ano a campanha da nova it-bag da Chanel.

Outro rapper que mostra que a relação entre moda e hip-hop nunca esteve tão estreita é o A$AP Rocky, autor “Fashion Killa” – rap que menciona 20 marcas de luxo –, garoto propaganda da Dior e amigo pessoal de estilistas como Jeremy Scott.

Aqui no Brasil, a rapper Karol Konka é a it-girl do momento, e lançou em abril deste ano uma linha de bolsas em colaboração com a grife Soleah.

Ao que parece o rap não será uma moda passageira. Chegou para ficar pelas próximas décadas, trazendo o streetwear, o empoderamento e o seu estilo único. Quem quiser entender um pouco mais desta história, vale muito a pena assistir o documentário “Fresh Dressed”. Que conta justamente como a moda entrou no rap e o rap entrou na moda.