Como contraponto ao chamado “cinema de estúdio”, o termo “cinema independente” surgiu nos Estados Unidos, a fim de expressar certas liberdades estilísticas dentro de um determinado contexto histórico, apresentando-se como oposição ao cinema que dominava o mercado – o considerado mainstream. Emerge então um cinema de caráter experimental caracterizado pela liberdade autoral e visionária dos diretores e motivado pela frustração com a falta de oportunidades e com um sistema que priorizava produções compostas de certa uniformidade de conteúdo e estilo.

Tudo começa com a precursora do new american cinema, Maya Deren nos anos 1960, que conectou as vanguardas modernas europeias à new wave norte-americana que surgiu após a segunda guerra mundial. Com tecnologias mais baratas e acessíveis, de caráter experimental, o filme Meshes of an Afternoon (1943), rompe com conceitos clássicos de montagem, ritmo e som, elevando o espectador a um efeito de transe que possibilitava que o cinema fosse uma experiência sensorial.

Se, na França, Goddard e Truffaut acoplaram a crítica à cinematografia na nouvelle vague, nos Estados Unidos, John Cassavetes faz uso de toda sua experiência como ator, incorporando-a em duas produções como diretor. Com seu primeiro filme, de baixíssimo orçamento, Shadows (1959), o diretor destaca sua obra como primeiro filme-símbolo do cinema independente americano.

Esse cinema passa a ser dividido em duas vertentes: uma das vertentes, chamada de Filmes B ou exploitation movies, apresenta duas fases, tendo a primeira ocorrida entre o final dos anos 1950 até a década de 1960, caracterizada por filmes independentes com temas tabu, exibidos por contra própria da parte de modestos diretores e produtores em feiras, parques e cinemas desvinculados dos principais estúdios. A segunda fase começa na década de 1960 e tem suas produções caracterizadas pela subversão às regras que regiam as condutas das produções anteriores. Sem imposições do bom gosto ou controle da censura, filmes indômitos e chocantes proliferam-se, como é o caso das obras dos cineastas Edward Wood e George Romero.

A outra vertente desse cinema é a dos chamados Filmes Cult, caracterizados por serem criações mais intelectualizadas, exibidas em casas de arte das metrópoles culturais do país. Nesse contexto destacam-se diretores como Cassavetes e Scorsese.

Blue Velvet (Veludo Azul) – David Lynch, 1986

O cinema independente contemporâneo conta com nomes como David Lynch (Veludo azul, 1986), Abel Ferrara (O Rei de Nova York, 1990), Quentin Tarantino (Cães de aluguel, 1992), Jim Jarmusch (Stranger than Paradise, 1984), entre outros, que bebem diretamente da fonte de seus antecessores no cinema independente.

Com a criação do Sundance Festival para dar visibilidade a filmes independentes, idealizado por Robert Redford, esse cinema cresceu cada vez mais. Isso passa a gerar discussões em torno do assunto de categorização do que seria uma produção independente, uma vez que a linha entre esses filmes e os hollywoodianos torna-se cada vez mais tênue; já que essas produções, voltadas para nichos específicos de espectadores, contudo, tem grande potencial lucrativo. Isso faz com que a característica que permanece até os dias atuais desse cinema independente, unicamente, é a liberdade criativa dos autores para com suas obras.

Por Letícia Vilela

*Referência Bibliográfica: FERRAZ, Rogério; PIEDADE, Lúcio; SUPPIA, Alfredo. O cinema independente americano. In: BATISTA, Mauro; MASCARELLO, Fernando (orgs.). Cinema mundial contemporâneo. Campinas: Papirus, 2008.