Não sei se são os olhos azuis, o sorriso largo ou a voz rouca, mas, com certeza, Chico Buarque canta e encanta muitos corações por todo o mundo. Com suas inesquecíveis canções realistas, muitas vezes românticas e atemporais, o cantor faz história e escreve um enorme legado, sendo um dos mais importantes nomes da música nacional.

Nascido em 19 de junho de 1944 no Rio de Janeiro, Chico Buarque de Hollanda iniciou sua carreira em 1965, com suas composições de tirar o fôlego. Marcado pela censura da ditadura militar, teve diversas músicas censuradas e alteradas pelos governantes. Apesar disso, foi resistente e continuou escrevendo suas poesias.

Mas quais são as histórias por trás das mais conhecidas canções de Chico Buarque?

1- Geni e Zepelim

Composta para o musical “Ópera do malandro”, a música conta a história de uma travesti vista com maus olhos pela sociedade. Um de seus maiores sucessos, o refrão “Joga pedra na Geni” ganhou o público e causou burburinho quando alguns vândalos começaram a jogar areia em prostitutas, na época do auge da canção, por puro equívoco de interpretação da letra.

Uma das melhores interpretações da música foi feita pela atriz Letícia Sabatella, que colocou toda sua emoção e sua linda voz para cantar a canção no espetáculo “Alma Boa De Lugar Nenhum”.

2 – Apesar de Você 

Uma marco da ditadura militar. Chegou a ser considerada pelo próprio Chico Buarque sua única música de protesto. Com um ambiente assustador, marcado pela censura e pelo o lema ameaçador “Brasil! Ame ou morra.”, a música foi uma resposta do cantor a todo o cenário brasileiro da época. Nela Chico dribla os governantes ao retratar uma briga entre namorados, mas acabou sendo vetada semanas depois de seu lançamento, pois ganhou as graças do público.

3 – Atrás da porta

Composta em parceria com Francis Hime, foi a primeira canção que Chico fez na frente das pessoas. Segundo ele, prefere a solidão, pois tem vergonha de fazer diante dos outros. Mas foi em uma reunião entre amigos que os primeiros acordes surgiram. Francis ao piano começou a cantarolar e Chico o acompanhou, fazendo surgir a primeira parte da música que não foi terminada nem nos meses seguintes.

Interpretada de forma impecável por Elis Regina, a canção também foi censurada por apenas uma palavra, e  os versos “E me agarrei nos teus cabelos/ Nos teus pelos” tiveram que ser substituídos por “E me agarrei nos teus cabelos/ No teu peito”. Chico recebeu uma versão da cantora e não teve como adiar a produção do final da música.

4- Olhos nos Olhos

Retratando uma desilusão amorosa de um eu-lírico feminino, a canção “Olhos nos olhos” emociona diversos corações pelo mundo. Mas não foi nesse contexto que a música surgiu. Após sair de uma visita a um amigo que estava doente, Chico, inquieto para tocar seu violão fez a letra na mesma noite. Ou seja, a música nada tem a ver com a situação de tristeza que o compositor estava vivendo.

Para ele, a música era a cara de Maria Bethânia que, por sua vez, ficou apaixonada e estática ao ouvir a letra que ela transformou em sucesso logo depois.

5 – Futuros Amantes

Nessa canção é difícil de explicar como surgiu. Por isso, deixarei que o próprio Chico Buarque conte como relatou em seu DVD Romance:

“Eu estava mexendo no violão, comecei a fazer a melodia, e a primeira coisa que apareceu foi exatamente cidade submersa, isolada de tudo… Porque cantarolando parecia cidade submersa, parecia que a música queria dizer isso. E eu tinha que ir atrás depois, tinha que explicar essa cidade submersa, tinha que criar uma história. Aí eu coloquei esses escafandristas e esse amor adiado, esse amor que fica pra sempre, né? Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d’água e vai ser usado por outras pessoas. Amor que não foi utilizado. Porque não foi correspondido, ele ficou ímpar, pairando ali, esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor.” – Chico Buarque

6- Cálice

Composta também por Gilberto Gil, foi uma das canções mais censuradas pela ditadura militar brasileira. Certa vez, no show Phono 73 em São Paulo, sabendo que a música havia sido proibida, os dois cantores decidiram cantá-la apenas no instrumental e com palavras desconexas. Logo que começaram, Chico teve seu microfone desligado e em seguida Gil. Ambos foram procurando outros meios de se expressar, até que se renderam e o show seguiu com o que podia, cataram a música “Baioque”.

A música surgiu de maneira bem informal, enquanto ambos bebiam uma “bebida amarga”, literalmente. Relacionaram, então, as duas palavras “Cálice” e “Cale-se”, a primeira relacionando com a data, sábado de aleluia, e a segunda com a ditadura militar. Cada um compôs duas estrofes da canção que atravessa gerações.

No vídeo abaixo você pode conferir o show de Phone 73, onde Chico estava ao lado do músico Gilberto Gil.

Poderíamos levar horas cantarolando e conversando sobre o mestre Chico Buarque. Suas músicas sempre emocionam e conquistam corações com sua maneira romântica de declamar seus versos sensíveis. É muito fácil encontrar outras músicas de Chico nas plataformas digitais, lá você pode se deliciar com suas canções atemporais.


Por Carolina Gomes