Os dentes trincavam tão fortemente que o jovem achava que não resistiria mais meia hora. Sentia o frio circundá-lo com tanta vontade que questionava o divino e as graças que dele poderiam provir mesmo após sua morte.

Não tinha mais esperança, notava a cada tentativa de passo que dava, mas só titubeava como um alcoólatra. Nem mesmo em uma data tão próspera para a caridade, o ser humano mostrava humanidade, mantendo-se em seu egoísmo perpétuo, enclausurado em sua própria quentura e abrigo familiar.

Quem ligaria para um pobre esfomeado e abandonado que ele era?

Seus olhos escuros procuravam abrigo, ainda que fosse dentro de uma lata de lixo. A tempestade de neve não teria fim naquela noite, quiçá na próxima: já estaria morto antes de chegar a qualquer lugar que abrigassem pessoas como ele.

Tentou, dez minutos antes, abrigar-se em uma morada apinhada e com luzes a piscar, risos altos e cheiro de comida para muitos alimentar. Cerraram a porta com todo estupor de quem nunca recebia visitas enquanto tinha parentes e amigos a brindar pela bondade no Natal.

Escorou-se numa parede qualquer, os dentes trincando com tanta vontade que, em breve, quebrariam. Foi agachando-se de cócoras, aquele parecia um lugar agradável para finalmente morrer, ela tinha uma estranha quentura de quem acolhe a alma dos vivos e as encaminha aos mortos.

Baforou uma última lufada de ar, vendo felicidade numa pequena nuvem se formar. Por um momento, desejou que um espírito de Natal o acolhesse, comentasse seu passado, presente e revelasse seu futuro.

Aquilo era esperança de moribundo!

— Senhor? — chamou alguém, não reconhecia a quem. Será que suas alucinações começavam a surgir? — Senhor, senhor.

Os olhos escuros, nublados pela morte, encararam a menina com seus cabelos longuíssimos e rosto preocupado. Não recitaram poemas e nem trataram de prosar, ainda que a beleza dela pudesse inspirar os mais simplórios e doutos poetas, encararam-se apenas por tanto tempo que a mulher passou a se preocupar.

— Você precisa se levantar, senhor — disse-lhe em tom de ordem. — Não consigo levantá-lo sem ajuda.

— Por que eu me levantaria?

Acinzentados como o céu, os olhos dela se arregalaram em palpitante dúvida. Dúbia de suas ações ou fala, percebeu que não poderia ser direta, isso já não adiantaria a um homem sem esperança que cerrava seus olhos, ainda que aquela data em particular tratasse de humanidade, compaixão e apego.

Mas que apego aquele homem teria se a humanidade era absolutamente humana e a compaixão lhe faltasse em todos os tempos? Suspirando longamente, como se a morte pudesse esperar, a moça buscou dentro da bolsa que carregava algo que simbolizasse o sentimento que, naquele dia especial, não poderia faltar.

Fuxicou até encontrar, preocupada em como faria funcionar. Ah, recordou-se! Pequenos fósforos, pequenos fósforos! Ela finalmente encontrou… Os últimos suspiros a alertaram de ter pressa.

Acendeu a pequena vela, colocando-a em um apoio para que nada se queimasse, pois era isso que tinha ido fazer em tamanha tempestade. Os olhos enclausurados do homem não poderiam ver aquele pequeno gesto, quiçá a luz que iluminava a rua já apagada.

— Senhor, senhor, abra os olhos, por favor!

Ele não tinha vontade, aquilo era perda de tempo. Tempo que outrora era precioso enquanto procurava abrigo, agora não passava de desalento, dor e só esperava… Esperava que findasse para sua existência.

Olhando a barba por fazer do homem, as vestes rasgadas em todos os cantos, o cabelo desalinhado e todo o semblante mal amado, notou quanto o mundo era cruel. Acariciou cuidadosamente a tez da face masculina, nem sequer enrugada, surpreendendo-a ao notar que não passava de um jovem, um homem absolutamente jovem para alguém que estava prestes a perecer.

— Abra os olhos e veja a luz, por favor — pediu.

Ainda que o sono lhe alcançasse, desejou apalpar a luz no final do túnel, desejoso que aquele rumo se findasse. Abriu. Os olhos escuros tornaram-se claros enquanto via o sorriso de uma jovem doce.

Ela era a esperança. A personificação do que já havia perdido, no entanto, no fundo, agradecia por aquela benção sempre revivida. Se todo pobre moribundo pudesse ter aquele sorriso, sabia que cada um deles agradeceria pela esperança ser a última a morrer.

Morreu antes, com certeza, quando lhe fecharam a porta, ao andar que nem um alcoólatra. Ao desistir daquele emprego dos sonhos por conta de uma mulher que não o amava, ao persegui-la por desejar um pouco do que tinha idealizado. Morreu quando desistiu de tudo, quando desistiu de si.

Morreu aos poucos e, no seu último suspiro, viveu como nenhum outro.

— Bem-vindo, você veio da Esperança.


Por Camille Pezzino

Sobre a autora: Nascida no Rio de Janeiro, Camille Pezzino, desde pequena, vê o mundo como um quebra-cabeça e deseja montá-lo. Aos 24 anos, não mudou de ideia e começou a utilizar a escrita como uma forma de tentar ajudá-la nessa tarefa, seja com textos literários ou críticos, que publica no site Caneta Tinteiro.