No ano em que “House of Cards” estreou, em 2013, o Brasil foi para as ruas reclamar pelo direito de ir e vir (inviabilizado pelos altos preços do transporte público). O Movimento Passe Livre (MPL) foi repreendido pela grande mídia. Mas, a internet mostrou seu poder de registro. Sem poder negar os fatos, a imprensa financiada por conglomerados econômicos construiu uma perigosa narrativa ao propagar a ideia de que a política é sinônimo de corrupção. Quando assistimos ao episódio “The Waldo Moment”, de “Black Mirror”, vemos como a sociedade do espetáculo prefere se alienar. Diante das últimas eleições, em 2016, percebemos um número expressivo de eleitores que compraram a ideia. No entanto, já dizia Aristóteles: “O homem é um animal político”. Negar essa máxima é fingir que não dependemos uns dos outros. Essas relações podem ser organizadas por interesses pessoais. Mas, devem visar o bem coletivo. Em tal arte, ninguém pode superar o casal Claire e Frank Underwood. Juntos, eles vencem. O que move essa união?

Ashleigh: Algumas pessoas acham que o seu casamento pode ser mais calculado do que você diz. Que, talvez, ele precisasse do dinheiro da sua família.

Claire: Não. Isso não é verdade.

Ashleigh: Seu pai colaborou bastante com a campanha dele…

Claire: Sim, porque ele acreditava em Francis.

Ashleigh: Ele teria vencido a campanha sem a ajuda financeira do seu pai?

Claire: Não sei. Com certeza ajudou, mas, eu gosto de pensar que foram as ideias de Francis e sua liderança que convenceram os eleitores. Não os comerciais de tv.

(…)

Ashleigh: É difícil ser esposa de político?

Claire: É emocionante. Tem seus desafios.

Ashleigh: Sempre em segundo plano… Trocando as suas metas pelas dele…

Claire: Eu não vejo dessa maneira. Nós somos duas pessoas independentes que decidiram juntar suas vidas. Eu o apoio. Ele me apoia.

Ashleigh: O que nos traz de volta à parceria política.

Claire: Meu marido é político. E eu trabalho com política. Mas, nossa parceria vai muito além disso.

É o que Claire fala em frente às câmeras. Atrás delas, em um dos diálogos mais inesquecíveis da série, Claire diz a Frank ter percebido que não são duas pessoas iguais: “Eu odeio o fato de que precisei pedir sua ajuda. Odeio essa sensação. Não sou eu.” Todo o esforço dela foi para dar a ele o poder de decisão. Ser primeira-dama não é suficiente. Mas, só há uma cadeira de presidente…

A intérprete de Claire, Robin Wright, afirmou em entrevista: “A única coisa que percebi, imediatamente, de minhas conversas com David Fincher (diretor e produtor), foi o paralelo com Lady Macbeth. Foi o suficiente para mim”. Na peça de Shakespeare, é o apoio estrategista de Lady Macbeth que levará a coroa à cabeça de Macbeth. No entanto, após o assassinato do rei e a vitória do marido, ela é tomada por uma enlouquecedora culpa. Não há água que lave o sangue de suas mãos. Ela se mata. Em direção oposta, o delírio de Macbeth pelo poder é imenso e, ao saber do suicídio, ele diz: “Deveria ter morrido mais tarde. Haveria, então, um lugar para tal palavra (…) A vida nada mais é, do que uma sombra que passa, um pobre ator que se pavoneia e se agita uma hora em cena e, depois, nada mais se ouve dele. É uma história contada por um idiota, cheia de fúria e tumulto, que não significa nada.”

Naquela Escócia, a desigualdade de gêneros era ainda maior. Nem passou pela cabeça da rainha exercer o papel de estadista. Tanto Claire, quanto sua intérprete, porém, não entendem o lugar social da mulher daquela maneira. Em 2016, a atriz afirmou que “a personagem Claire era mais popular do que Frank, em alguns períodos da série. Queria aproveitar esta realidade e lhes disse: ‘ou vocês nos paguem o mesmo ou torno esta situação pública’. E pagaram”. Sem negociar, Wright receberia cerca de 420 mil dólares por episódio – 80 mil a menos do que Kevin Spacey (Frank Underwood).

Para o filósofo Rancière, sempre houve recusa em considerar algumas categorias de pessoas como seres políticos, com direito a participar do debate, e a política nasce quando quem não é ouvido, consegue organizar um discurso que amplia o número de participantes.

Al Awad: Eu acho que sua intenção é me humilhar.

Claire: Você recebeu roupas apropriadas, te oferecemos comida. Como estamos te humilhando?

Al Awad: Estou sentado diante de uma mulher.

Claire: Não há razão para manter a fachada. Você e seu irmão não são fundamentalistas nem sírios. Você é iraquiano, passou de burocrata a fundamentalista. Mas, é um homem instruído e não se importa com o islã ou o califado. Você só os está usando para radicalizar soldados.

Al Awad: Assim como vocês usam a democracia e a liberdade.

Claire: Agora nós estamos nos entendendo.

Sobre outra negociação diplomática, Frank e Claire de desentendem:

Frank: Eu nunca deveria ter te feito Embaixadora.

Claire: Eu nunca deveria ter te feito Presidente.

Frank ama Claire mais do que tubarões amam sangue, divide com ela o seu cigarro, mas não permitirá que se torne perigosa. Sim, o Amor é político.

Claire: Cansei de tentar ganhar o coração das pessoas.

Frank: Vamos atacar o coração das pessoas.

A quinta temporada da série produzida pela Netflix estreia em maio de 2017 e estamos ansiosos para ver o que acontecerá com a dupla que cria o terror em vez de se submeter a ele.

Por Carmen Filgueiras