O Centro Cultural Banco do Brasil, localizado na Rua Primeiro de Março 66, no centro do Rio, proporciona ótimos programas culturais. O prédio conta com uma belíssima estrutura neoclássica, incluindo colunas, uma cúpula de vidro, escadarias de mármore e um elevador que por si só já é história. O ambiente é arejado e tem uma energia ímpar e convidativa, e no último dia 12 os interessados ganharam mais um motivo para prestar uma visita ao local com a inauguração de um salão de chá da Cafeteria Colombo no segundo piso.

O  CCBB traz, mais uma vez, um artista que é um deleite para o público. A exposição “O Corpo É A Casa”, do austríaco Erwin Wurm, que começou no dia 11 de outubro e permanecerá até 8 de janeiro de 2018, carrega cerca de 40 obras e tem curadoria de Marcello Dantas. Wurm utiliza mídias variadas, como esculturas, performances e fotografias para questionar formas tradicionais presentes no cotidiano. O humor está entrelaçado em sua obra, cujas camadas, ao serem descobertas, revelam uma crítica voraz à sociedade de consumo e à sociedade contemporânea em geral. Para o artista, a interação do espectador com a obra também é de grande importância.

Segundo Erwin, desprovido de sua função original, qualquer objeto pode ser tomado como arte. Essa é uma das questões principais que permeiam a exposição “O Corpo É A Casa”, na qual o artista nos prova que qualquer coisa pode ser uma escultura, indo de objetos até seres humanos, estes últimos explorados nas One Minute Sculptures. Para ele, tomamos decisões esculturais cotidianamente com nossos corpos, os esculpimos e adicionamos ou retiramos deles.

Nos olhos de Wurm, a casa, o carro, os móveis, a roupa, são todos uma espécie de pele que nos protege, e em suas obras esses objetos que nos circundam ganham vida ao receberem características antes apenas humanas: uma salsicha divertida, uma casa gorda, um carro inchado. As coisas passam a incorporar adjetivos orgânicos. Isto parece evidenciar quão próxima é a nossa relação com os objetos que adquirimos através da reflexão sobre se deixamos o que temos nos definir, podemos, da mesma forma, definir o que temos passando características humanas para o que adquirimos. É uma crítica à sociedade contemporânea, aos seus hábitos de consumo e à sua relação com os bens materiais.

Uma das grandes referências de Wurm é Marcel Duchamp (1887-1968), artista conhecido mundialmente por apresentar um urinol invertido como obra de arte, originando diversos debates sobre o que é arte. Duchamp é o criador do conceito “ready made”, inspiração de Wurm e que consiste em pegar um elemento do cotiano e levá-lo para o campo das artes.

Assim como Erwin fez com o carro, a casa e os móveis, e Duchamp com o urinol, Andy Warhol foi outro artista que trouxe objetos do cotidiano, como latas de sopa, para o campo da arte, criticando, assim, as obras pretensiosas e elitizadas e nos fazendo questionar, também, o que é arte. Ele queria que houvesse uma arte disponível e acessível para todas as classes sociais, em contraste com a arte moderna, restrita apenas aos conhecedores desse campo. Isso fez parte do movimento conhecido como Pop Art, originado nos anos 50 nos Estados Unidos e Inglaterra, após o final da Segunda Guerra.

Nessa época, o governo norte-americano começou a tomar medidas para aumentar o poder aquisitivo da população e, com isso, movimentar as indústrias para que elas se reestruturassem. Tal ação acarretou um consumo exagerado, que gerou uma cultura baseada na industrialização e no consumismo, e houve a formação da cultura de massa. O Pop Art, cujo nome faz referência justamente a ideia de ser popular, massificado, surgiu nesse contexto para criticar a sociedade consumista que estava sendo formada. Eram usados elementos da própria estética popular, como figuras, logomarcas e imagens de celebridades, para criticar essa prática de tudo ser televisionado, comercializado e exportado. A facilidade de reproduzir imagens tornava as coisas em “Pops”, e a repetição nas obras de Warhol, como no famoso quadro de Marilyn Monroe, em que seu rosto aparece reproduzido em diversos quadrados, é uma referência a essa larga divulgação.

Wurm segue a mesma linha de Warhol ao pretender que seu trabalho seja o mais acessível possível por representar elementos comuns a todos e de uma forma que, mesmo que algum sentido não seja tirado da obra, ela continuará sendo divertida e curiosa de olhar. “Ele vai revelando as camadas de seus trabalhos aos olhares mais atentos, sem perder o contato inicial com aqueles que navegam de forma mais superficial”, escreveu Marcello Dantas, curador da exposição, sobre Wurm. O humor é o ingrediente especial de Erwin, algo que, segundo o artista, faz as pessoas olharem para suas criações com mais cuidado. É, também, o que torna a arte mais acessível por transfigurar objetos conhecidos universalmente. Salsichas e pepinos – ícones da culinária austríaca –, são refeitos em bronze e colocados em pedestais, simbolizando a apreciação constante do banal. As salsichas também podem ser uma representação do ser humano moderno, uma mistura industrial remexida e artificial, um produto com pouco valor alimentar, significando, talvez, pessoas com pouco valor.

A crítica é maior do que se apresenta à primeira vista. Klimt tem seu aclamado quadro “O Beijo”, e Wurm também tem seu Beijo, a escultura o “Grande Beijo” – mas composto por duas salsichas com braços e pernas entrelaçados.

Outro segmento da exposição, as One Minute Sculptures são como uma previsão de um comportamento que surgiria anos depois da obra (década de 90), com a era da interatividade, das redes sociais e das selfies. A experiência consiste em posar com objetos do dia a dia, formando esculturas temporárias, o que redefine a ideia da escultura como um ato dinâmico, em vez de um objeto estático, e possibilita que o visitante se transforme em uma obra, questionando a própria ideia do que é uma escultura. As One Minute Sculptures inspiraram o clipe “Can’t Stop”, da famosa banda americana Red Hot Chili Peppers, no qual os integrantes da banda posam por alguns segundos com bananas, garrafas, canetas, baldes e outros objetos, até que deixam tudo cair no chão e montam-se de novo, com outros elementos.

Em uma das salas destinadas às obras de Erwin no CCBB, há diversos mini-palcos brancos, cada um com alguns itens, como bolas de tênis, um pufe, uma cadeira ou uma casinha de cachorro, nos quais desenhos servem como instruções de uma coreografia para que os visitantes se tornem as mais aleatórias e sem nexo esculturas humanas idealizadas pelo artista. A ideia é que todas as esculturas têm um fim iminente, já que, em algum momento, as pessoas que as compõe cederão para a gravidade ou se cansarão de manter suas poses, e a escultura colapsará. Tudo o que vai restar é um vídeo ou fotografia do que existiu. Com a série de esculturas de um minuto, Wurm antecipou a autopromoção feita nas redes sociais e as selfies, e já indicava que o culto à personalidade estava latente desde a década de 90 e seria cada vez mais efêmera. “Naquela época, Wurm já pensava que a tendência do espectador seria a de se tornar protagonista. Ele quer ser a obra”, conta Marcello Dantas ao site “Uai”. Um dos textos da exposição compara a ideia de Erwin com a frase de Andy Warhol “No futuro, todo mundo será famoso por 15 minutos”, mostrando que, para Erwin, 1 minuto de fama é mais do que suficiente.

A exposição continua no térreo do CCBB, onde há um armário cheio de adereços para que os visitantes se produzam novamente como esculturas, e onde outras obras do artista estão espalhadas pelo salão. A mais chamativa é, com certeza, uma casa enorme e inflada, a “Casa Gorda” (2003), com dimensões gigantescas e quase 2 toneladas de peso. A estrutura é aberta e pode ser visitada, mas não só isso: dentro dela, um vídeo chamado “Am I a house?” é exibido. No vídeo vemos a casa se transformar em uma casa falante, sua porta vira uma espécie de boca e ela começa a levantar diversas questões filosóficas e a questionar sua própria constituição enquanto casa ou obra de arte. A casa se pergunta qual a função de uma casa, se ela mesma é uma obra de arte ou uma casa ou os dois, e diz que o que faz dela uma obra de arte é ser gorda: “Talvez seja arte ser gorda, então todas as pessoas acima do peso são arte? Quem poderá responder isso? ”. São cerca de 9 minutos de reflexões, tempo que nem todos estão dispostos a investir – a maior parte das pessoas parece entrar, escutar e observar por alguns segundos ou poucos minutos e sair.

Wurm é um prato cheio para todos os gostos: seja para se divertir, refletir ou apenas observar, todos os visitantes sairão bem servidos e satisfeitos.