Um marido que estupra a esposa por ter certeza de que a certidão de casamento é um alvará de consentimento. O tio prestes a abusar da sobrinha. Um namorado machista e possessivo. Estupro coletivo. Você pode pensar que situações de violência contra a mulher estão longe do seu cotidiano, mas será mesmo? Essas são apenas algumas das cenas que compõem o espetáculo Inimigo Oculto, da Companhia Ciclus, escrito por Roberta Simoni e Rodrigo França – que também dirige a peça junto com Andrea Bordadagua. É impossível sair das apresentações sem sentir e refletir sobre as nuances e variações das violências nossas de todos os dias: machismo, sexismo, racismo e tantos outros “ismos”. As apresentações acontecerão de 10 de março a 30 de abril de sexta a domingo em duas sessões: às 19h e 20h, em um apartamento no Bairro Peixoto, em Copacabana, Zona Sul Carioca.

Durante a pesquisa, feita coletivamente, todos os atores perceberam já ter passado por algum caso de violência doméstica, direta ou indiretamente. O elenco é composto por Bianca Lima, Gi Durães, Joana Couto, Julyana Moreira, Marcela Fróes, Mery Delmond, Vanessa Ferreira, Andreyuri, Bruno Guimarães, Bruno Urco, Helder Sátiro, Luciano Segne, Marcio Panno e Tyago Caetano. O palco é um apartamento onde o público (de no máximo, dez espectadores por apresentação) é conduzido entre os cômodos e assiste cenas compostas por fragmentos de várias histórias que dispensam narração, pois todas são contadas através dos silêncios, diálogos e ações que traduzem de forma real as diversas tipificações de violência à mulher: simbólica, psicológica, física, sexual e moral, sofridas em diversos papéis, como o de filha, esposa, namorada, sobrinha.

A peça coloca o público como voyeur, na medida em que o espectador se percebe em um cenário do cotidiano, onde as ações são cometidas pela maioria das famílias. “Possibilitamos que as pessoas vejam o quanto naturalizamos diversas violências, transmitindo um olhar diferenciado sobre as relações abusivas. A montagem teve sua concepção sob o conceito de provocar empatia e dessa forma, desejamos que o público reflita a partir da experiência cênica e de sua própria vida”, Rodrigo França.

A violência doméstica acontece em todos os níveis socioeconômicos, por isso Inimigo Oculto irá percorrer todas as regiões do Estado do Rio. “A cada dois meses, o espetáculo estará em um bairro ou município diferente, a partir de convites de amigos ou do próprio público”, afirma Rodrigo. Embora a violência sofrida pelas mulheres seja o mote do espetáculo, as cenas são compostas de muita sutileza, mas nem por isso menos angustiantes, pois a interferência realista é maior do que a ficcional. O cenário ‘doméstico’, inclusive, foi escolhido intencionalmente como palco dessa encenação para aproximar o público da realidade, causar empatia imediata e provocar sentimentos, no mínimo, desconfortáveis.

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