A temporada de outono dos animes (primavera no hemisfério sul) chegou com muitas novidades. Entre as principais, está Inuyashiki. A obra promete trazer uma reflexão sobre a sociedade contemporânea, o envelhecimento e as relações interpessoais. Estreou em outubro e já está sendo muito bem recebido pela crítica. Se ainda não conhece, a análise abaixo vai apresentar alguns dos pontos mais interessantes do anime.

Sinopse

Ichiro Inuyashiki realmente não tem sorte. Embora tenha apenas 58 anos de idade, ao olhar dos outros é descrito como um velho patético, ele é constantemente ignorado e desrespeitado por sua família mesmo depois de tudo o que ele fez para apoiá-los. Além disto, seu médico revelou que ele tem câncer e parece que ele tem pouco tempo restante neste mundo. Mas quando parece que as coisas não poderiam piorar, uma luz ofuscante no céu noturno atinge a terra onde Ichiro está. Mais tarde ele desperta e percebe que algo em si está diferente.

Os primeiros 10 minutos do anime já deixam o público chocado. A forma como Inuyashiki é tratado pela família e pela sociedade impactam. E é para fazer isso mesmo. Em uma sociedade em que o respeito às pessoas mais velhas vai se perdendo aos poucos e o envelhecimento remoto causado pelos estresses do mundo contemporâneo vai se intensificando, Inuyashiki apresenta uma história que está muito além da ficção, está na realidade do nosso dia a dia.

Ao pensar no enredo da história, já podemos perceber que há algo de novo. O primeiro que é possível perceber na história, é a igualdade de força entre o protagonista e o antagonista. Não há uma necessidade de buscar uma nova técnica para derrotar o adversário ou até ter que ficar mais forte a todo custo. Os personagens são aquilo que são. Nenhum deles têm um poder superior. A única diferença é como aplicam o seu poder. Outro ponto interessante é que um senhor é ganha habilidades especiais sem precisar ficar musculoso, como nos clichês habituais. Ele permanece do jeito que é.

Em Inuyashiki, os personagens têm a oportunidade de brincar de Deus. São apresentados duas formas de usar as mesmas habilidades, a velha briga entre o bem e o mal. De um lado, há um senhor que é rejeitado pela família, vive uma vida sem sentido, descobre que tem um câncer terminal e que tinha tudo para se revoltar contra o mundo. Mas não. Ele se mantém sensível para com os outros. De outro lado, um jovem, filho de pais divorciados, que vive no subúrbio da cidade, que vê na oportunidade de ter nas suas habilidades a chance de “mostrar que está vivo”. Para isso, acaba matando pessoas pelo puro e simples prazer. Suas realidades diferentes, nenhuma positiva, que leva ambos a partirem para escolhas totalmente diferente. É uma forma de dizer ao espectador que na vida nós temos apenas dois caminhos: o bem e o mal. E o percurso que vai percorrer depende muito de qual escolha fará.

Dentro do enredo, Inuyashiki, que vive o dilema de se considerar um herói ou não, começa a ajudar pessoas em perigo. Diferentemente de outras histórias de heróis, os problemas que o senhor enfrenta não são monstros que querem dominar o mundo, e sim, situações da nossa realidade. Incêndios, assassinatos, roubos, violência urbana, estupradores, máfias. Para compor esse cenário sombrio, nada melhor que uma cidade escura, triste, que não parece viver. Boa parte da história do anime se passa à noite. No período noturno, Inuyashiki sai para salvar as pessoas, e ninguém percebe. E sabe por quê? Porque simplesmente ninguém se importa com ele. Os filhos ignoram sua existência e nunca admitem perante aos outros que aquele senhor de 58 anos com aparência de 80 é seu pai. A ausência do personagem não é significativa para a família. É aí que o autor nós dá outro tapa na cara. Quantas pessoas mais velhas vivem em situação de total abandono por seus familiares? É para se pensar.

A juventude também é um ponto interessante dentro da história. Enquanto os personagens mais velhos estão em busca do conforto das pessoas que amam para viverem o resto da vida deles de forma feliz, os jovens seguem um caminho diferente. Eles se afastam das pessoas, agridem o próximo, não demonstram compaixão, e aparentam ter horror à velhice. Claro, há sempre exceções. E no anime esse grupo é muito bem trabalhado.

O maior ponto negativo da obra é falta de uma trilha sonora para ajudar no desenvolvimento das cenas. Em alguns momentos, a história fica fria demais. Além disso, para quem não está acostumado, as constantes mudanças de cenas em 3D para 2D pode acabar incomodando um pouco. De resto, briga para ser um dos melhores animes de 2017. Vale ressaltar que Inuyashiki é produzido pelo estúdio Mappa e a história é baseada no mangá original escrito por Hyroya Oku, autor de Gantz.