A terceira edição da “Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centros Cultural São Paulo” chega ao fim com a estréia de “A Mulher que Digita”, espetáculo escrito por Carla Kinzo, com direção de Isabel Teixeira.

Na montagem, as atrizes Andrea Tedesco e Sabrina Greve sobem ao palco para contar a história de duas mulheres, uma que tenta terminar um texto a curto prazo, e outra que é contratada para ajudá-la, digitando, sendo a primeira pessoa que ouve a narrativa sendo formulada. Aos poucos, a urgência dessa história é revelada, bem como o enfrentamento entre elas.

Para a autora Carla Kinzo, “A Mulher que Digita” é um texto que tenta falar sobre um mundo cada vez mais violento e opressor, dentro do qual as palavras parecem ter perdido a força de ação. “Cabe a essas duas mulheres escutar o que grita esse mundo do lado de fora, do qual parecem apartadas, e responder a isso – seja pelo verbo, seja pela ação”, conta ela.

“A Mulher que Digita” começou a ganhar contornos em 2014, quando Carla Kinzo participou do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council. “Inicialmente o texto era uma cena curta; aos poucos ele foi se reconfigurando para o formato como está”, explica a autora, que completa: “Ficção também pode ser uma arma”.

DRAMATURGIA EXPANDIDA

Já a diretora Isabel Teixeira conta que o texto de Carla Kinzo rege tudo na montagem. “O texto é o norte de todos da equipe, que é ativa na tomada de várias decisões. Optei por uma direção porosa, onde a criação do espetáculo a partir de um escrito inédito, sem antecedência ou referência, faz com que eu faça novas descobertas a cada passo.”

O embate entre as personagens de Sabrina Greve (a escritora) e Andrea Tedesco (a funcionária que digita) tem como pivô um acontecimento externo e questiona a capacidade de afetação da sociedade atual. “A peça fala de distâncias sociais e traz reflexões sobre que lugar da sociedade essas mulheres estão nesse momento; se elas possuem voz dentro desse sistema fechado. É um texto muito político, que aborda o aqui e agora, uma verdadeira dramaturgia expandida da atualidade”, diz Isabel Teixeira.

CRONÔMETRO

Um cronômetro que marca 1h11 minutos a partir do momento que a platéia começa a entrar no teatro e já começa uma contagem decrescente para o fim da peça é o grande chamariz do cenário de “A Mulher que Digita”. Com uma área do chão branco e uma porta de ferro, a cenografia traz poucos elementos, como uma máquina de escrever e uma mesa.

“A ideia da cenografia é acentuar a dualidade entre as personagens, que orbitam entre generosidade e piedade, por isso o contraste entre o preto e o branco”, explica Lucas Brandão, codiretor da montagem.

ENCERRAMENTO DA MOSTRA

“A Mulher que Digita” é a terceira e última peça da “III Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo”. Além do texto de Carla Kinzo, essa terceira edição também teve a montagem de “Boi Ronceiro – Uma Fábula de Horro” (autoria de Ricardo Inhan) e “ANTIdeus” (assinado por Carlos Canhameiro).

Kil Abreu, curador de teatro do Centro Cultural São Paulo, conta que a repercussão pública do projeto tem sido muito grande, já que as apresentações têm acontecido com boas plateias. O reconhecimento institucional também veio com a indicação do Centro Cultural São Paulo ao Prêmio Shell de Teatro, na categoria inovação, pelo estímulo à experimentação de novas formas cênicas, dramatúrgicas e de produção.

A repercussão também não foi só para o Centro Cultural São Paulo. Na primeira edição Silvia Gomez ganhou o Prêmio APCA de autora e foi indicada ao Prêmio Shell na mesma categoria com o espetáculo “Mantenha Fora do Alcance do Bebê”. Vinicius Calderoni, autor de “Os Arqueólogos”, um dos textos selecionados para a segunda edição do evento, também ganhou o Prêmio APCA de melhor autor e foi indicado ao Prêmio Shell.

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