Conhecido não só pelo seu estilo irreverente, mas também por uma longa carreira de sucesso no mundo do samba, Ivo Meirelles se prepara para lançar um novo projeto com o Funk’n’Lata – grupo que estourou nos anos 1990, trazendo uma mistura entre samba, funk e rap com instrumentos utilizados nos desfiles. Previsto para chegar às lojas no segundo semestre de 2018, o disco marca a volta de Ivo ao grupo quase 20 anos após o lançamento de “O Coro Tá Comendo“. Num bate-papo super descontraído, o cantor falou um pouco do início de sua carreira, os anos à frente da Estação Primeira de Mangueira, a ida para São Paulo e, claro, o novo trabalho.

Giulia C. Oliveira: Você começou sua carreira na Mangueira, é pai do Funk’n’Lata, além de ter criado a Bateria Surdo Um. De onde veio essa veia artística?

Ivo Meirelles: Nasci e cresci no Morro da mangueira. A quadra da Escola era o quintal de casa. Ouvia aquele samba todos os dias… Essa veia artística veio dali.

G.C.O.: Em tantos carnavais presente na Estação Primeira, qual foi o desfile mais memorável para você e por quê?

I.M.: Sem dúvidas foi o desfile do carnaval de 2011. Tínhamos um carnaval sem patrocínio, a escola estava pendurada numa dívida de 7 milhões, o samba enredo que escolhi teve uma repercussão negativa absurda… E fomos lá e fizemos um desfile magnífico, na minha opinião, o melhor daquele ano. Ficamos apenas com o terceiro lugar, mas pra mim aquele desfile foi o campeão.

G.C.O.: A Bateria Surdo Um marcou a avenida com as “paradinhas”, principalmente as mais longas. Como surgiu a ideia de fazê-las? Você imaginava o impacto que isso causaria nos desfiles?

I.M.: Sim, imaginava! Eu tenho acompanhado desfiles desde a década de 1970. Muita coisa vem mudando, para pior, no meu entender. Estão valorizando coisas erradas. Só se olha para beleza plástica (alegorias e fantasias) e o quesito humano que mais evoluiu foi a comissão de frente. Eu gosto de bateria, eu entendo muito é de bateria… Então, a cada ano eu imaginava algo para que os caras se sentissem os donos do desfile, os protagonistas… Acho que consegui!

G.C.O.: Nesse ano, o Funk’n’Lata completa 23 anos de existência e em breve sairá um disco dedicado a esse projeto. Conta para a gente como foi a elaboração desse novo projeto e o que podemos esperar dele?

I.M.: O que podem esperar é um resultado percussivo que só essa galera lá da mangueira consegue. Vejo muitas bandas tocando com instrumentos de bateria de escola de samba, mas essas bandas fazem a mesma levada pra todas as musicas…O FnL não! Cada faixa tem uma levada diferente de caixas, de surdos, de tamborins… É um disco rico de levadas percussivos.

G.C.O.: Na semana passada, inclusive, rolou a gravação do clipe de “Frevo Mulher”, que se consagrou na voz do Zé Ramalho, na Feira de São Cristóvão, no Rio. Como foi essa experiência?

I.M.: Foi divertido! Fomos para feira para fazer algazarra, para brincar mesmo rsrsrs. Acho que o clipe vai ficar bacana, divertido.

G.C.O.: Há muitos artistas na cena atual do funk e do samba que se destacam, como a Anitta e o Melanina Carioca. Você acredita que hoje o espaço para novos talentos seja muito maior do que na época em que o Funk’n’Lata estourou?

I.M.: Os tempos são outros. Hoje, tá tudo voltado para internet. A dificuldade de se estourar uma música é enorme. Naquele tempo e hoje, as circunstâncias são parecidas, mas o diferencial é que hoje, se você não tem grana pra investir nas redes ou se você não tiver um amigo com 1M de seguidores para te ajudar na divulgação, você tá fadado a ficar no meio do caminho. 

G.C.O.: Já há alguns anos que você vive em São Paulo e possui diversos shows fixos por lá. Conta pra gente a diferença entre o público paulista e o carioca. Essa diferença é marcante ou ambos são ecléticos – considerando que, agora, o sertanejo e o funk também estão com tudo?

I.M.: Sertanejo e funk estão com tudo faz tempo! A minha ida para São Paulo se deu pelo fato de, no Rio de Janeiro, não ter mais casas que comportem meu tipo de som. São Paulo é enorme e recebe um turismo comercial do Brasil inteiro. E, por isso, pessoas que gostam de todos os ritmos musicais… Em São Paulo, todo músico consegue trabalhar. O Rio ficou segmentado. 

G.C.O.: E o que você espera para o futuro? Há algum projeto já à vista, paralelo ao novo disco? 

I.M.: Sim, mas vamos falar disso mais na frente, para não misturar as estações. 

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