A Silvia Cintra Galeria de Arte + Box 4, situada na Rua das Acácias 104, quase vizinha do Shopping da Gávea, recebe mais uma exposição. O mesmo espaço que abrigou há pouco a mostra de Omar Salomão “Você vê os pássaros? Sempre quis que você visse os pássaros daqui”, finalizada no dia 18 deste mês, já abordada nesta coluna, foi remontado para servir de palco para outra exposição de nome poético, a “É preciso ver no escuro”, de Laercio Redondo. Ela pode ser visitada de 23 de novembro a 22 de dezembro, de segunda à sexta das 10 às 19 horas, e sábado de 12 às 18 horas.

“É preciso ver no escuro” é uma daquelas mostras que têm mais a fazer pensar do que a mostrar. A sala de paredes brancas não está cheia de obras e de textos com explicações, muito pelo contrário, as poucas peças sem muita cor dão aspecto minimalista ao trabalho do artista. No mundo da arte, os chamados “espaços brancos” são bem apreciados e não estão ligados ao caráter físico da obra, e sim ao ideológico, se fazendo presentes naquelas que não são explícitas, assim abrindo lugar para que o observador tire suas próprias conclusões e crie seus significados. Elas geram certo incômodo justamente pela expectativa do visitante em se deparar com um grande material acompanhado de plaquinhas explicativas, o que não acontece nessa exposição. Quem não pegar na entrada da galeria o release com uma introdução ao trabalho apresentado talvez fique perdido, pois esse pequeno texto ajuda para que o visitante entenda a extensão do que o artista pretende passar.

Laercio nasceu em 1967, no Paraná, e divide seu tempo entre o Rio de Janeiro e a Suécia, onde fez sua pós-graduação na Konstfack, University College of Art, Crafts and Design, em Estocolmo. Ele se dedica a pesquisa da memória coletiva e seus apagamentos na sociedade, e seu trabalho é frequentemente motivado pela interpretação de eventos específicos relacionados com a cidade, a arquitetura e representações históricas. O assunto escolhido por Redondo para essa exposição é justamente esse de sua pesquisa, “a memória coletiva e seus apagamentos”, um tema com muitos caminhos a serem explorados. Laercio o faz através de quatro diferentes leituras a partir de fragmentos de seu arquivo pessoal, uma coleção desenvolvida por ele nos últimos 17 anos. O mais curioso é que seu trabalho se assemelha a uma curadoria, sua criação está nas ligações que ele faz entre objetos já existentes, encontrados, escolhidos e parcialmente desvendados pelo artista. Os objetos foram coletados por ele “em diferentes ocasiões, nas quais esses materiais, destinados ao descarte, se encontravam legados à deterioração ou ao desaparecimento por completo”, como nos informa o release.

A exposição conta com fotografias, cartas, textos e de um filme projetado na parede em que aparecem apenas frases de um texto do filósofo Pedro Duarte, uma de cada vez. O artista explora os significados dos objetos que selecionou, os quais são uma carta escrita em alemão, datada de 1942, que boiava no mar em um porto grego, encontrada por ele em 2006; uma série de fotos de um casal que se fotografa mutuamente durante as férias; retratos de uma filha que jamais chega a retornar para casa dos pais durante a Segunda Guerra Mundial; e um fragmento de um filme de Super 8 de um baile de debutantes em 1974. O artista parece apreciar a análise microhistórica, aquela que valoriza os pequenos universos particulares, os detalhes da vida de componentes de diversas sociedades como forma de entender um contexto maior. Uma carta ou uma foto de alguém desconhecido em um tempo distante pode parecer banal para alguns, mas cada objeto conta uma história, pertenceu a alguém, faz parte de um contexto e é um retrato dele.

A série de 8 fotos intitulada “Discurso Amoroso” traz um homem e uma mulher fotografados nos mesmos ambientes, mas cada um de uma vez, o que nos faz pensar que, por não aparecerem juntos na mesma foto, eles fotografam um ao outro. O casal parece beber em um chifre de animal, explorar uma cachoeira e fazer uma fogueira para comer salsichas ao ar livre. São retratos de momentos de lazer, aqueles pequenos programas que fazemos com quem amamos e que, pelo mero fato de estarmos na companhia da pessoa amada, já se tornam únicos e especiais. Um certo incomodo vem com a curiosidade despertada por aqueles personagens: as perguntas de “quem são eles?”, “de quando é isso?”, “onde se passa?” e “o que realmente faziam no momento de cada foto?” são acompanhadas de “por que estou vendo essas fotos?”, “o que aconteceu com seus donos para que elas caíssem na posse do artista?’’. A falta de informação, através plaquinhas, datas ou explicações na mostra chega a ser inquietante. Mas, outra vez, provavelmente trata-se da intenção dos “espaços brancos”.

Na instalação com projetor, são passadas frases do texto “extravio de imagens”, do filósofo Pedro Duarte. As frases aparecem uma a uma, são brancas no fundo preto e projetadas na parede ao lado do frame de um filme, feito por câmera Super-8 (formato cinematográfico lançado nos anos 60), de um baile de debutantes de 1974. Uma mulher com um longo vestido branco está no centro da foto, na frente de um carro vermelho, à noite, e no canto direito da foto está um homem de terno. O aspecto da moça é, de certa forma, fantasmagórico, e o caráter das frases de Duarte ajudam nesse efeito.

A parte inicial do texto nos situa quanto à intenção de Laércio:

“O destino natural das coisas é este: o desaparecimento, a morte. O acaso, porém, salva ali uma, lá outra. // Nestas coisas reside um pequeno mundo diante do grande. Não são edifícios erguidos da arquitetura humana. São destroços, restos, vestígios. // São pedaços deixados nesta terra pelos movimentos que homens e mulheres fizeram em suas vidas: um baile, um exílio, um amor, uma carta. // Pedaços que acabariam no lixo, ou que vieram do lixo. Os despojos da história que contam uma outra história. // O passado que podia passar, mas retorna em fragmentos: um frame de um filme de super 8 achado numa mudança ou o retrato perdido num velho baú, fotografias encontradas na lixeira do prédio ou correspondências boiando no mar avistadas do porto. Tudo prestes a afundar mas que aparece num único instante na superfície, desafiando o olhar a captar minúcias.”

As palavras de Duarte, em diálogo com a exposição, trazem diversas reflexões sobre os vestígios do passado no presente. Uma delas é acerca dos acasos da vida, a forma como esta se desenrola e na qual até mesmo frações de segundo podem fazer toda a diferença. Um segundo e outro é o que determina um objeto de afundar sem ser visto ou ser resgatado e dado um novo significado; uma vida de ser completamente apagada da história ou de ser prolongada na memória produzida por um desconhecido (“O passado que poderia passar, mas retorna em fragmentos”). Esses “despojos da história que contam uma outra história” remetem ao modo como o percurso que esses objetos passaram, o modo como foram descartados e as marcas do tempo contam algo a mais do que seu contexto de criação, de como surgiu. Outra frase belíssima e carregada de significado é “São pedaços deixados nesta terra pelos movimentos que homens e mulheres fizeram em suas vidas: um baile, um exílio, um amor, uma carta”. Isso nos mostra que tudo o que fazemos são movimentos: coisas como o jeito que amamos, o que escrevemos, os lugares que visitamos. Tudo isso se inicia e acaba conosco, mas pode não ser completamente apagado, porque deixamos esses “pedaços”, nossos vestígios, nossas marcas.

Laercio discute os apagamentos, mas talvez haja um outra maneira de não sermos realmente apagados, algo mais subjetivo e que não guarda relação com o material que deixamos para trás. É claro que nunca saberíamos sobre o casal da série de fotos ou a mulher do baile de 1974 se não tivéssemos visto seus vestígios, mas será que uma existência só é válida se ela for lembrada? Podemos nos encerrar em si. Estamos constantemente deixando pequenas inscrições por onde passamos, mesmo que não as vejamos. Os prédios pelos quais passamos, lugares onde soubemos o que significa o amor pela primeira vez ou por onde costumávamos rir com nossos amigos; eles sempre carregarão a energia de cada momento passado ali. Essa ideia do “pequeno mundo diante do grande” escrita pelo filósofo talvez seja isso: as pequenas coisas vividas por cada indivíduo, essas esferas individuais que correm e se movimentam pelo grande plano, talvez sem afetá-lo, mas de certa forma com certeza o afetando.

Nesta exposição sútil, Laercio nos faz pensar que também seremos, um dia, uma foto de um tempo distante de alguém que não existe mais. Nossas vidas podem parecer minúsculas diante da vastidão do universo e da experiência humana, mas no contexto microhistórico somos um retrato do nosso tempo, somos as fontes de pesquisa para entender nossa realidade. Somos os futuros passados, as fotos preto e branco, mas em cor, as roupas que serão um dia olhadas com estranheza, assim como olhamos para fotos e roupas das décadas passadas. O mais importante da visita à “É preciso ver no escuro” não é diretamente o que vemos, mas com o que sairemos na cabeça.