La La Land atinge uma veia. Sabe aquela que dá para sentir com os dedos no pescoço? Porque há um pouco de nós nos personagens interpretados por Ryan Gosling e Emma Stone (ótima escolha, aliás.). Emma é uma atriz com um quê de girl next door. Ela é bonita, mas não tanto. Ryan é impassível na maioria dos seus papéis e mesmo assim adorável. Ele não fala muito, o texto dele é sempre um subtexto. Que caiu na forma exata do pianista aficionado por jazz, porém não muito disposto a olhar para o futuro.

La La Land é sobre comprometer quem somos. É nostálgico e ao mesmo tempo não poderia ser mais HOJE. Vivemos tempos estranhos. Temos tudo, mas não temos nada. Temos democracia, mas representantes duvidosos. Há uma ausência generalizada, há uma ausência de ídolos e figuras verdadeiramente carismáticas, uma ausência de propósito. Não vivemos revoluções culturais gritantes. Nossas revoluções são lençóis freáticos que passam despercebidos entre nossos aplicativos e selfies. Há um desejo. Do quê? Não sabemos. Do mundo? Mas ele não cabe na boca.O filme resgata o sonho sem se doar muito a ele. Arrisco dizer que ele era necessário. Ele surge com uma cara de atemporal em um contexto histórico assustador e incerto, até mesmo para as celebridades mais bem pagas de Hollywood; Donald Trump é presidente por lá e nem mesmo Meryl Streep escapa desse cenário. A fotografia é precisa, a direção inteligente. E o Damien Chazelle acerta aqui com sensibilidade o que errou em Whiplash: quando a música entra ela ENTRA, ela é As Time Goes By em Casablanca.

Nós vemos e revisitamos sapateado (sem exageros), jazz, duetos, uma química lúdica, um romance bonito, mas delicado – sem as partes gráficas. Nós cantamos, rimos e choramos. Choramos mais do que rimos, no entanto. Mas a beleza sempre salva o dia. A cena mais bonita e doída em linguagem é a do jantar, em que todo artista sabe onde pulsa e se vê no espelho. Fazer, viver o sonho, mas que sonho é esse? O quanto nos comprometemos para chegar lá? Lá não é LA. Lá é o Rio de Janeiro, São Paulo, Aracaju ou Recife. Em todo lugar nos fazemos essa pergunta: “será que é isso mesmo?” Tudo bem fazer o que você gosta sem ser exatamente o que você gosta. Ou tudo bem fazer o que você gosta sem ser exatamente o que você gosta?

Bom, La La Land já é um clássico. Clássico contemporâneo, como deve ser. Um final feliz não cabe mais em nós, somos outros. E mesmo com a aurora em rosa e roxo e as estrelas e as cores, flutuamos e flutuamos, mas sempre pousamos no chão. O chão é um boleto, testes infinitos e um amor mais ou menos. Mas tudo bem. Talvez na próxima fase possamos desenhar outras resoluções, talvez a nova revolução resida em um improvável “felizes para sempre”. Veja La La Land. Nele cabe todo mundo, até quem não gosta de jazz.