A Galeria Cassia Bomeny recebe, do dia 12 de dezembro a 31 de janeiro, a exposição individual de Daniel Feingold. A mostra conta com 27 obras nas quais há tanto uma continuidade à pesquisa, realizada há tempos pelo artista, quanto novos estudos sobre estrutura desconstruída. São trabalhos deste ano, e que dão um panorama da produção mais recente do artista com 30 anos de trajetória. A exposição pode ser visitada de segunda a sexta, de 10 às 19h, e sábado de 10 às 15h.

As obras de Feingold são apresentadas em duas técnicas, sendo dez pinturas em esmalte sintético sobre tela, que apresentam sua pesquisa sobre trama e estrutura, e dezessete pinturas em bastão oleoso sobre papel, onde a estrutura desconstruída dá lugar a um novo espaço de investigação, numa potente expansão de sua pesquisa construtiva, como nos informa o site da Galeria. As obras do pintor contam com diversas camadas sobrepostas, formando uma experimentação sobre as relações de espaço entre linhas e planos. São uma trama de incontáveis retas estendidas de um lado ao outro da superfície, resultado da ação cuidadosa de Feingold, que despeja o esmalte com precisão. O pintor lotou seu atêlie de latas de esmalte industrial, usado em suas obras não através de um pincel, mas sendo derramado verticalmente sobre telas de terbrim. O processo empregado consiste em deixar o material escoar pelo próprio bico dos frascos, ou através de canaletas, para que os caminhos percorridos pelo esmalte possam ser melhor controlados, em uma tentativa do artista de conduzir aquilo que é incerto.Seus quadros hipnotizam pela perfeição dos traços e pela beleza da interação das cores, que parecem ter sido cuidadosamente escolhidas para criar uma sensação de prazer estético. Tons de azul, cinza, preto, branco e amarelo formam um sistema de retas cuidadosamente conectadas. Dois quadros com as mesmas cores e padrões são postos lado a lado, cada um em sua própria exatidão, mas, quando colocados quase grudados, suas linhas não se complementam pois estão dispostas em posições distintas, criando, assim, uma assimetria, uma sequência interrompida. Na obra “Noturano #01”, um conjunto de 9 quadros feitos com bastão oleoso sobre papel, justapostos em 3 fileiras horizontais, cada qual com 3 quadros, continua a exploração acerca das formas. Dessa vez, elas são representadas por uma cor preta imponente, que configura linhas desencontradas em diferentes planos e com o aspecto de fragmentação da imagem. Há duas figuras mais concretas, sendo elas um retângulo com linhas horizontais e verticais em seu interior e uma silhueta similar a uma ampulheta. O efeito do preto sólido em contato com traços mais leves ou mais apagados dão a sensação de profundidade, como se a arte existisse em diversas dimensões, e em mais de um plano. Nossos olhos são confundidos pela técnica elaborada do pintor.Na arte, a trajetória dos artistas pode nos contar muito acerca de suas técnicas e temas, pois as obras, de algum modo, espelham o interior daquele que as produz, refletindo suas escolhas e descobertas. O texto que acompanha a exposição, escrito pelo crítico Frederico Morais, conta um pouco da história do pintor e de suas influências ao decorrer da vida. Feingold era filho de um ourives, o que revela que o cuidado estético e o trabalho de artesão já permeava sua família através da criação a partir do ouro e da prata. Ele foi surfista na juventude e tornou-se construtor de pranchas, inicialmente cuidando apenas da forma, mas depois da totalidade do processo de produção, o que representa outra manifestação do trabalho artesanal na vida do pintor, e seu contato com o estudo da forma de um modo mais prático. Ele se formou em arquitetura na FAUSS e integrou equipes em escritórios de arquitetos, mas nunca elaborou projetos próprios. Daniel também frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Rio de Janeiro, estudou filosofia e morou em Nova York, onde fez mestrado no Pratt Institute. Na cidade que nunca dorme, Feingold estudou sobre a abstração na arte americana pré-pop art. De volta ao Rio, o artista montou seu ateliê no bairro das Laranjeiras.

O texto de Frederico Morais explica, também, alguns princípios que regem a arte de Feingold e que discutem a arte na tradição ocidental. Morais comenta que, nesse segmento, a pintura é por princípio um objeto portátil e vendável, negado por uma visão que descarta sua materialidade em benefício somente da imagem. Nessa tradição, a superfície surge, segundo ele, como uma encenação, cujas regras são ditadas por uma elite cultural e socialmente privilegiada. Para elucidar esse pensamento, o crítico se apoia nas reflexões do historiador de arte frânces Jean Clair, através da ideia de que a pintura é negada enquanto objeto por esse olhar cultural que negligencia sua materialidade, considerando apenas a imagem fenomênica que ela propõe nos limites de uma representação em duas dimensões. Tais visões apresentadas são resultado dos ideias do chamado Concretismo, movimento artístico que preconiza a integração entre as técnicas artesanais e a produção industrial, e o uso de formas geométricas e cores primárias, rompendo com o passado tradicional. Essa quebra trazia uma associação a elementos da nova dinâmica de produção e novo estilo de vida que incorporava avanços técnicos e tecnológicos modernos, como, por exemplo, as máquinas, engenharia, eletrônica, evolução fabril, dentre outros, e são tomados como matéria-prima materiais industrializados.

Pode-se notar, a partir disso, que as técnicas de Feingold bebem nos ideais do Concretismo, esse estilo de arte dentro do movimento abstracionista moderno e no qual a pintura é pensada como construção e não como representação, aproximando-se, assim, da arquitetura em termos de materiais e objetivos. Essa opção de Daniel por não usar as ferramentas tradicionais, como óleo, acrílica e pincéis em suas pinturas, e sim o esmalte sintético sobre um tecido mais encorpado e resistente, o terbrim, não é, portanto, uma coincidência. Como disse o artista em entrevista para o site do jornal “O Globo”, “De 1999 em diante, há uma espécie de golpe: entra a tinta sintética, rústica, e sai o óleo, que te joga para dentro da tela, que cria uma pintura introspectiva. O esmalte sintético lança a tela para fora, é outro movimento”. Os princípios do concretismo, refletido no Brasil como construtivismo, afastam a arte de conotações líricas ou simbólicas, reduzindo a significação do quadro a ele próprio e a nada mais, e defendendo que a obra de arte não representa a realidade, mas evidencia estruturas, planos e conjuntos relacionados, que falam por si mesmos.Os quadros do artista não terminam nos limites da superfície plana, e sim transbordam para as laterais do tecido quebrando as expectativas do observador mais atento. É uma forma de aproveitar o espaço disponível para a pintura além do convencional, e nos dá a sensação de uma expansão do campo de vista, como se a obra fosse muito maior, mas estivesse aprisionada em regras pré-determinadas, como as de espaço ideal e formato. Devido a esse escoamento para as laterais, a disposição dos diferentes quadros na galeria influencia nossa percepção sobre eles. Frestas, pausas, descontinuidades e continuidades, simetrias e assimetrias. Uma das pinturas exemplifica o efeito que Feingold produz com sua linhas e com a organização dos quadros: dependendo do ponto de observação da obra Yahweh #22, nossa percepção sobre seus desenhos muda, formando assim novos caminhos da cor branca na superfície preta. As bordas também pintadas ajudam na criação dessa ilusão, pois conectam as duas telas quando vistas de lado.

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O depoimento feito em 1975 por Mark Tobey, pintor norte-americano, acerca de uma experiência sua em um mosteiro zen no Japão, elucida um pouco a questão que talvez permeie as obras de Feingold. “Foi-me dado para meditação um desenho ‘sumi’, no qual se via um amplo círculo traçado com um pincel grosso. O que era aquilo? Todos os dias eu ficava observando-o. Era a anulação do meu ego? Era um verso em que podia perder o meu eu? Talvez não percebesse o seu lado estético. Escapavam-me os belos traços do pincel, que ao olho de um especialista oriental revelariam muito sobre o caráter de quem o havia pintado. Contudo, depois de minha permanência naquele lugar notei que possuía novos olhos”, relatou Tobey. Ao lermos essa reflexão do pintor norte-americano, parece que a busca constante de simbologia na arte, de significados em cada obra, tira nossa atenção da técnica empregada no que estamos vendo, e desvia nosso pesamento para coisas que vão além da estrutura, do concreto. Tobey parece querer mostrar que a obra muitas vezes carrega o que precisamos saber, se olharmos para ela como coisa em si, completa, em vez de como ponte para algo exterior.

Com seus quadros e sua técnica precisa e calculada, Feingold nos mostra uma nova forma de olhar a arte, configurando desta forma um importante papel no cenário artístico contemporâneo. Suas pinturas contam como mais uma peça para o quebra-cabeça que é a totalidade da produção cultural e seus diversos estilos de representação.