O sul de Londres ganhou mais cores no início do mês passado graças à série Rainbow Aphorisms”, do artista australiano David McDiarmid, mais precisamente na estação de metrô de Brixton. A parceria foi feita entre a Art on the Underground, responsável por trazer arte para o metrô londrino, o Studio Voltaire e o Estate of David McDiarmid, e a série aparecerá intermitentemente em vários locais em Brixton e Clapham.

David McDiarmid nasceu em 1952 foi um artista australiano, designer e ativista, reconhecido por seu engajamento artístico proeminente embasado, principalmente, nas questões relacionadas à identidade e à história queer. David faleceu em 1995, em decorrência da AIDS, e a série “Rainbow Aphorisms” foi produzida a partir de 1993 até a morte do artista. A série de múltiplos impressos – os aforismos, ou sentenças breves que enunciam um pensamento – é uma resposta às próprias experiências de McDiarmid, e também uma resposta à experiência da comunidade gay na crise da AIDS, e as múltiplas formas de devastações em que se manifestam – políticas, emocionais, intelectuais e médicas.

Com “Rainbow Aphorisms”, o artista ficou fascinado pelo poder do aforismo para conter todo um mundo conceitual e cultural. As mensagens, chapadas em um fundo de arco-íris, em referência à emblemática bandeira gay, criada por Gilbert Baker em 1978 para a parada gay de São Francisco, com o intuito de representar as diversidades humanas em todos os seus aspectos.

As mensagens expressivas de McDiarmid são usadas para evocar o mundo codificado de subculturas masculinas gays em grandes cidades ocidentais. Mesclando o impacto visual com a suavidade da diversidade de cores, a mensagem subliminar é espirituosa e abusa de ironias, traz melancolia e até certo tom de desabafo sobre a realidade dura encontrada na comunidade gay e, especialmente, da atmosfera ainda pesada e preconceituosa em cima da AIDS.

“Eu queria me expressar e queria responder ao que estava acontecendo, e queria alcançar um público gay masculino. Eu queria expressar emoções muito complexas e não sabia como fazer… Eu estava em um pequeno dilema. Pensei: ‘bem, como posso passar por essas mensagens complexas’. Não pensei que fosse simplesmente uma questão de dizer que ser gay é bom.” – disse David McDiarmid, em 1992.

Estação de metrô Brixton, no sul de Londres

Dentre as mensagens, algumas são provocativas a respeito da obrigatoriedade de reprodução: “A árvore genealógica pára aqui querida”; outras mais apelativas “Não se esqueça de lembrar”. Enquanto isso, entre as propagandas nas plataformas da estação de Southwark, uma série de cartazes multicoloridos afirma: “Eu quero um futuro que faz jus ao meu passado”.

Além das estações de metrô, “Rainbow Aphorisms” aparece nas fachadas do espaço de arte de Clapham, Studio Voltaire e o pub LGBTQ+ Two Brewers na Clapham High Street.

Fachada da Two Brewers

O lançamento do projeto aconteceu no dia 1° de Novembro na Two Brewers, com presença da artista drag Sum Ting Wong junto com Amy Lamé, nomeada como primeira “Czar da Noite” de Londres. Lamé fez um discurso emocionante em apoio ao projeto e destacando a importância de lugares LGBT na capital. Laura Harford, gerente do programa de participação do Studio Voltaire, também lembrou a todos sobre como os aforismos se mantêm absolutamente apropriados e de fato necessários em nosso clima atual.

Os cartazes de David McDiarmid lembram algumas das idéias que caracterizam as obras feministas de Barbara Kruger e Jenny Holzer. É mais um exemplo de como a arte pode se tornar uma poderosa arma política, através de simples, porém fortes textos, mas que também são brilhantemente visuais, utilizando a beleza das cores do arco-íris, mas também declarando o manifesto que simboliza o movimento. “Rainbow Aphorisms” aborda a tragédia de uma doença que continua preocupante, mas abre mão do sentimentalismo e emprega um tom corajoso e sereno.