Um crítica reflexiva

Com a produção executiva de David Marshall Grant, Sarah Condon e Andrew Haigh, estrelada por  Jonathan Groff , Frankie J. Alvarez e Murray Bartlett, a série “Looking” estreou, no canal HBO, no dia 19 de janeiro de 2014. Ela não conseguiu se manter na grade e acabou sendo cancelada após sua segunda temporada, ganhando um especial, um telefilme, esse ano, para dar um final a história dos protagonistas.

Quando anunciada os críticos, sem conhecer a obra, começaram a chamar a produção de “Sex And The City dos Gays” ou “a versão de Girls para Boys”, mas quando lançada todos se calaram, viram que nada tinha haver essas comparações e que “Looking” era um projeto original, que nem mesmo se igualava diretamente a outras produções LGBTS como “Queer As Folk” e “The L World”. Mas seu diferencial também não foi suficiente para segurá-la no ar.

Então onde estaria os problemas da série, caso não fossem internos? Ao meu sincero ver, mais como espectador e não como crítico, todo o problema se resumia na falta da maturidade e honestidade dos personagens apresentados. O título dessa matéria exemplifica bem nossa coluna de hoje, a série só consegue ser verdadeiramente madura e honesta em seu telefilme, lançado no Frameline Film Festival, no dia 02 de junho, que só foi exibido na HBO no dia 23 de julho de 2016.

Para aqueles que não acompanharam a série, “Looking”, que não teve tradução no Brasil como em Portugal (“Procurando”), centrava na história de três amigos de longos anos. Patrick Murray (Jonathan Groff), um designer de jogos para videogames, de 29 anos, que tenta voltar a namorar após descobrir que seu ex está noivo. Dom (Murray Bartlett), um garçom, que aos 40, sonha em ser Chef, ter seu restaurante, mas começa a enfrentar uma “crise da meia-idade”. E Augustín (Frankie J. Alvarez), um assistente de artista, que aos 31 anos se sente frustrado com o próprio trabalho, sonha em realizar uma grande obra para ser reconhecido e está cogitando a ideia de assumir um relacionamento mais sério com seu namorado.

Nesse exato contexto seguimos pelas duas temporadas, cada uma trazendo situações cotidianas e diferentes para o desenvolvimento da trama que, a sua maneira, vai ganhando significado, mas não força. A tradução literal do título, em português, que seria “Olhando” na verdade segue o tom de “A Procura”: A procura da minha felicidade, a procura do meu amor próprio, a procuro do autoconhecimento, a procura de amores sinceros, a procura de experiências únicas, a procura de uma vida melhor, a procura da resolução dos problemas e assim vai, a procura de outras diversas coisas.

Assim como os personagens, nós, os espectadores, também estamos a procura de tudo isso e poderíamos facilmente identificarmos com eles, não é mesmo? Errado. As produções da HBO são muito conhecidas e ricas por criarem personagens cheios de camadas que são desfeitas ao longo do tempo, então a medida que a série vai caminhando vamos sendo introduzidos, de maneira verdadeira ao universo, e assim nos apegamos aos personagens. Porém, nesse caso, as camadas foram tantas, que os personagens morreram sufocados, nos sufocaram, e os poucos momentos palpáveis foram tão pequenos que nos deixamos se perder, na esperança de receber um momento genuinamente honesto oriundo das personas que nós acompanhávamos.

Nesse pontos, os honestos e palpáveis, normalmente vinham do segundo elenco, mas não eram suficientes para segurarem uma trajetória que não era deles. O humor ácido de Doris (Lauren Weedman) servia como um tapa na cara para que os três acordassem e tomassem as rédeas de suas vidas, o respeito e a compaixão de Richie (Raúl Castillo) davam verdade ao insosso, e por vezes irritante, protagonista de Groff, enquanto a frieza do britânico Kevin (Russell Tovey) compreendia uma espécie “paralisia moral” ambientada de diversas maneiras ao longo dos 18 episódios.

“Mas com o cancelamento não houve tempo de de tirar essas camadas!” – Errado de novo. Com o telefilme, cerca de 1h30m, o que seria equivalente à três episódios, os personagens enfim foram genuínos, honestos e de fato havia a identificação do público, independe de ser gay ou não, para com eles. Um ano após sair de São Francisco para morar em Denver, Patrick volta para o casamento de Augustín e na premissa de se encontrar como pessoa ele dá um fim a dramas antigos e um novo passo à procura de sua verdadeira felicidade.

Mesmo atual a série era completamente oitentista, pela simples premissa que os personagens “nasceram” na década. A ambientação, a coloração e até a própria trilha dava esse tom de época para a produção, que embora rica, não pegou o público mais novo, um dos principais responsáveis pela propagação das séries pelos meios de comunicação. Em paralelo a isso, de forma super positiva, as cenas de sexo eram realistas e bem feitas, foram mostradas na medida certa, não fortalecendo o erotismo homo afetivo, uma que o trabalho ali era expor a complexidade psicológica e não a “intensidade” sexual/física.

Com o final verdadeiramente maduro, pela primeira vez foi prazeroso assistir “Looking”, afinal o que muitos, como eu, buscaram o tempo todo vendo a série, foi de fato apresentado. Talvez se os produtores e roteiristas tivessem percebido esse buraco dentro dos personagens tão ricos, muitas vezes, fortemente empoderados e libertários, possivelmente, a produção ainda estaria no ar. Incertezas, questionamentos e vontades todos nós temos e obviamente os personagens também teriam. Porém, criar um escudo para eles não foi a melhor maneira de convencer aos assíduos espectadores, que buscam novidades e honestidade nos personagens, a se apegarem ao trio de protagonistas.