Conta-se que a atriz Whoopi Goldberg, ao ver a tenente Uhura no seriado “Star Trek”, teria gritado para sua mãe “Eu acabei de ver uma mulher negra na televisão, e ela não é nenhuma empregada!”. A personagem de Nichelle Nichols (foto abaixo) é até hoje um símbolo de vanguarda por sua conquista: uma mulher, negra, e protagonista de um programa de amplo alcance.

Desde Uhura, a televisão mudou. Depois de uma era de “homens difíceis”, marcada por tipos como Don Draper e Tony Soprano, chegaremos a era das grandes protagonistas femininas? Enquanto nossa luta continua, conversamos com algumas mulheres sobre as personagens femininas que as inspiram, e o que ainda precisa ser mudado.

 Representação hoje e sempre

Foto: Divulgação/Claudia Abreu como Heloísa, Lucy Lawless como Xena

Embora a discussão sobre machismo tenha se intensificado nos últimos anos, fortes modelos femininos podem ser encontrados nas décadas passadas – como é o caso da já citada Uhura.

Dentro da televisão brasileira, um exemplo é Heloísa, personagem de Claudia Abreu em “Anos Rebeldes”, lembrada pela crítica de cinema Julie Nunes. Na trama, Heloísa é filha de um dos financiadores do golpe militar no Brasil. Ao se engajar com a luta política, a jovem abre mão dos valores tradicionais de sua família. “É uma personagem com uma construção e desenvolvimento que comovem, graças ao carisma da atriz. Acho que ela se tornou um marco para mim do que é poder ser o que se é e ainda carregar alguma leveza, mesmo que nem sempre seja fácil.”, afirma Julie.

Ao fim dos anos 90, em meio a revolução que a televisão norte americana sofria, um destaque foi a guerreira Xena, da série homônima. A fisioterapeuta Magali Araújo explica porque a heroína de Lucy Lawless lhe marcou: “Ela possui o melhor dos dois gêneros. A doçura e sensibilidade feminina, e a força masculina.”

Emprego e família 

Foto: Divulgação/Lisa Cuddy, diretora do hospital em “House M.D.”; Alicia Florrick, a protagonista de “The Good Wife”

Embora também estejam no mercado de trabalho, as mulheres ainda precisam lidar com o preconceito e seus efeitos práticos: salários e oportunidades desiguais, estresse, além de assédio moral e sexual.

No seriado “House M.D”, o médico protagonista não perde uma oportunidade de criar problemas para sua chefe, Lisa Cuddy. Sua força em enfrentar um ambiente dominado por homens foi o que cativou a designer Isabela de Oliveira. “Ela comanda o hospital, sendo constantemente cobrada dos superiores e dos próprios empregados, faz o que quer sendo cobrada pela  própria mãe, e se vira muito bem”, explica Isabela. “Cuddy sabe que passa por isso porque é mulher, e não se incomoda, mas encara o problema de frente.” diz.

Outro problema (infelizmente) exclusivo das mulheres é a jornada dupla: não são poucas as que, além do trabalho formal, precisam organizar a vida dentro de casa. Nesse processo, não é difícil que abram mão de seus próprios desejos e identidade.

Um exemplo é a advogada Alicia Florrick, de “The Good Wife”, escolhida pela diplomata Larissa Lima. “Alicia começa a série na posição de mulher vulnerável, que dedicou a vida inteiramente à família e é obrigada a retomar a carreira no susto, quando o marido é preso num escândalo sexual.”, conta.

Durante as 7 temporadas, da série, a protagonista deixa o papel de vítima para se tornar exatamente o tipo de pessoa poderosa e implacável que tanto a fez sofrer no começo da narrativa. “Ao longo dessa trajetória, ela encarna todo o repertório de falhas que as mulheres temem, de um extremo ao outro do espectro de expectativas que se pode ter de nós. E consegue ser sempre incrível em cada uma dessas encarnações, fazendo você torcer por ela em todas as suas fases, mesmo as mais polêmicas.”, afirma Larissa.

Exemplos na infância 

Foto: Divulgação/Sam, de “Três Espiãs Demais” e Florzinha, de “As Meninas Superpoderosas”

Felizmente, também podem ser encontrados modelos para as meninas e jovens. A estudante de Psicologia Fernanda Brunet, quando criança, sempre preferiu aquelas que demonstravam inteligência, sagacidade e boa bagagem cultural. “As personagens que mais traduziam as minhas ânsias infantis intelectualizadas eram Sam ( de “Três Espiãs Demais”) e Florzinha ( de “As Meninas Super Poderosas”)”, conta Fernanda.

Líderes natas, as duas personagens ocupavam uma posição de estrategistas em suas equipes. “Sempre me envolvi muito com o mundo da animação, e é possível perceber que a influência que os desenhos exercem sobre as crianças é gigantesca. Que identidade queremos que seja abraçada pela infância vigente? Eu escolhi a das ruivas inteligentes”, explica. Brincadeiras a parte, os dois desenhos valorizam muito a amizade entre suas protagonistas, o que é sempre um bom exemplo para as mulheres mais novas.

Representação para todas

Foto: Divulgação/Viola Davis como Annalise Keating, protagonista de “How to Get Away With Murder”

Tão importante quando representar mulheres, é representar mulheres de todos os tipos. Como mulher negra, Isabela de Oliveira sente que a situação tem melhorado, mas ainda não chegou no ideal. “Ainda não está perfeito. Quero ver protagonistas negras nessas comédias românticas que vão pro cinema, que contracenem com George Clooney e Patrick Dempsey em papéis comuns, para que não se crie um estigma de que temos grandes atrizes negras, mas que só servem para atuações pontuais.” afirma.

“Eu já vejo isso começando com a Viola Davis em “HTGAWM”, mas ainda falta. por exemplo, desenhos animados com protagonistas negras(os).  Quero que sejamos abordados por essas mídias da forma como tanto pregamos: iguais.” explica.

A professora de português Carolina Barra percebe um problema semelhante na representação de mulheres LGBT.  “Por mais que tenhamos algumas personagens femininas fortes e empoderadas, o número é ainda incrivelmente menor comparado ao número de personagens masculinos. Quando pensamos em mulheres lésbicas, esse número diminui drasticamente. Não só porque são poucas, mas também porque várias acabam morrendo, como a Lexa em “The 100”, ou a Shay em “Chicago Fire”.”

Para Carolina, lésbica e mulher cisgênero, a personagem Nomi, de “Sense 8” (na foto em destaque), é um exemplo para todos.

“Nomi resiste, viva, empoderada e quebrando várias tabus por ser, além de lésbica, uma mulher transgênero. Não teve o menor apoio da família, mas mesmo assim não desistiu de ser quem  é. Achou na comunidade LGBT uma dose de preconceito também, mostrando a todos nós que também temos intolerância no nosso mundo e que precisamos rever nossos conceitos. Nomi encontra, finalmente, um lar em sua namorada Amanita e seu relacionamento é um grande exemplo de como o sentimento verdadeiro passa por cima dos preconceitos e das dificuldades da vida.”, afirma.

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