Conta-se, para crianças que questionam como foram feitas, a seguinte história: mamãe e papai se amam muito. Desse amor, geralmente tão grande que não havia mais espaço, o papai plantou uma sementinha na barriga da mamãe. Assim, nascemos.

Nessa história bem tradicional, o homem e a mulher que a protagonizam se tornam pais. A mulher, nesse caso, arca com uma responsabilidade ainda maior, pois é pressionada pela sociedade a criar e educar aquele ser humano até a vida adulta. Então, no segundo domingo do mês de maio, comemora-se o dia das mães.

O dia nada mais é do que um dia no ano onde se presenteiam as mães por tudo que elas fazem, uma data comemorativa, simbolicamente marcada por um presente. Essa discussão contemporânea, sobre o valor financeiro de uma data comercial, de nada importa perto do significado cultural dessa data. O amor, em sua representação abstrata, não deveria ser diário?

Mas, essa pauta cabe em outra discussão. A verdade é que existe a ilusão de que o título materno só é próprio de quem concebe. Na verdade, até mesmo o dicionário diz que mãe é, também, quem cria ou se responsabiliza. E, como o audiovisual tem a necessidade de criar uma identificação com o público, muitos programas já quebram com o paradigma materno.

Não há a menor necessidade da figura paterna presente para que uma mulher se configure como mãe. Assim são as mães de “The Fosters”, Stef (Teri Polo) e Lena (Sherri Shaum), que possuem tantos filhos biológicos como adotivos. Stef é a mãe biológica de Brandon (David Lambert), que sempre viu Lena como sua mãe também. Além dele, o casal tem mais quatro filhos, adotivos.

Erroneamente, ainda se utiliza o termo “mãe solteira”. Solteira, nesse caso, é um adjetivo, mas, a proporção de “solteiro” como complemento da palavra “pai” é bem menor. Por que não, somente, mães? Como a incrível Lorelai Gilmore (Lauren Graham), do clássico “Gilmore Girls”. Ela criou Rory (Alexis Bladel) sozinha, quando descobriu sua gravidez na adolescência e não recebeu nenhum suporte familiar. Lorelai é uma referência materna dentro das séries de tv.

A mesma questão vale para Sarah Manning (Tatiana Maslany), de “Orphan Black”. Ainda que não seja um exemplo social de mãe, quando o assunto é Kira (Skyler Wexler), Sarah é capaz de fazer de tudo para protegê-la. Sarah e Helena são os únicos clones capazes de conceber filhos, mas isso não diminui em nada o papel de Alisson, mãe adotiva de duas crianças. Também vale para como Siobhan Sadler (Maria Doyle Kennedy), a “Sra. “S”, mãe adotiva de Sarah e Felix (Jordan Gavaris). Se é hora de proteger seus filhos, as mulheres de “Orphan Black” sabem o que estão fazendo.

Em “Once Upon a Time”, também temos uma situação parecida. Henry (Jared Gilmore) é o filho adotivo de Regina Mills (Lana Parrilla) e biológico de Emma (Jennifer Morrison). Embora no começo da série as duas tenham tido suas rivalidades, uma vez que eram inimigas, elas perceberam que precisavam se unir, não só por Henry, mas por toda a história da série. Henry, por mais que conheça e conviva com Emma, nunca deixou de se referir a Regina como sua mãe. E, como em todas as séries, as protagonistas não medem esforços para proteger o rapaz.

Shelby (Idina Menzel), de “Glee”, não é sempre utilizada como referência, mas também cabe no assunto. Há anos, ela colocou Rachel (Lea Michele) para adoção, que foi adotada e criada por dois homens. Shelby não fez parte da vida de Rachel, e foi doloroso para a protagonista aceitar que sua mãe adotaria, mais tarde, Beth, a filha de Quinn (Dianna Agron) e Puck (Mark Sailling). Mas, o principal é entender que Shelby foi mãe no momento em que quis ser, e não há nada de errado nisso.

Em “Private Practice” e “Grey’s Anatomy”, ambas criações de “Shonda Rhimes”, a autora fez questão de tocar no tema da adoção. Alisson (Kate Walsh), sempre teve o desejo de ser mãe, mas não conseguia de nenhum método, e acabou por adotar Henry, filho de uma paciente no hospital, formando sua família ao lado de Jake (Benjamin Bratt).

Meredith Grey (Ellen Pompeo) adotou a pequena Zola após a mesma chegar com Karev (Justin Chambers) ao hospital. Zola, que nasceu na África e estava no hospital para um tratamento, também encantou Derek (Patrick Dempsey). Além dela, Meredith também tem outros dois filhos.

Em “Friends”, a adoção também é um tema recorrente, quando Chandler (Matthew Perry) e Monica (Courtney Cox) descobrem que não podem ter filhos e procuram por outros métodos. Eles aguardam ansiosamente pela hora do nascimento de seu filho e, no hospital, descobrem que, na verdade, são dois. Um dos finais mais bonitos para uma série tão marcante.

Já emDownton Abbey, a filha do meio dos Crowley, Edith, interpretada pela atriz Laura Carmichael quebra com o padrão social da época. Na Inglaterra aristocrata de 1920, as mulheres não podiam fugir da regra de se casar e construir família. Edith quebra esse paradigma quando tem uma filha, mas não é casada, o que também mexe diretamente com o ponto de ter relações sexuais antes do casamento. Assim, a jovem precisa esconder sua filha de sua família, para não gerar um escândalo. Mas, para um final feliz, ela decide não só revelar a verdade para todos, como também criar sua filha sozinha. Uma verdadeira quebra de tabus.

Entre tantos outros personagens, fica claro que o conceito é bem abrangente, mas no final é resumido a um só. Não há mais espaço para argumentos que definam como mãe somente aquelas que concebem, ou que possuem uma relação heterossexual. No fim, é aquele velho clichê, porém impossível de ser questionado: não importa a situação, uma mãe é capaz de fazer de tudo por seu filho.