A exposição “Francisco Brennand – Mestre dos Sonhos” está acontecendo na CAIXA Cultural Rio de Janeiro e reúne 31 obras de diferentes fases da carreira do renomado artista pernambucano. Com curadoria de Rose Lima, a mostra está aberta para visitação de 14 de janeiro a 11 de março, de terça a domingo, das 10h às 21h, com entrada gratuita.

A primeira coisa que encanta em Brennand é sua singularidade. Ele, há mais de 45 anos em retiro artístico, é extremamente dedicado e entregue à arte, e deu origem a uma com aspecto ancestral, que remete a totens e símbolos místicos, constituindo, assim, um estilo próprio e peculiar. Seu trabalho, uma monumental instalação “work in progress”, está em andamento desde 1971, ano em que o artista reformou a antiga fábrica de tijolos e telhas da sua família, localizada na propriedade do antigo Engenho Santos Cosme e Damião, na Várzea, em Recife.

A fábrica, anteriormente em ruínas e chamada “Cerâmica São João”, passou a se chamar “Oficina Cerâmica Francisco Brennand” e a abrigar o ateliê do artista. Os galpões do espaço foram transformados em núcleos de um santuário das artes, ocupando cerca de 15 mil metros quadrados e com mais de 2.500 peças expostas, além de um jardim, uma capela, um Templo do Sacrifício que remete ao massacre das civilizações pré-colombianas, galerias com cerâmica e pintura, lagos, fontes e totens. A Oficina é uma espécie de palácio e casa onde suas obras podem viver espalhadas e ao ar livre, e a impressão é de que, a qualquer momento, uma delas vai andar, falar ou voar.

O trabalho de Brennand forma um conjunto de obras com uma identidade artística evidente e que faz alusão ao sagrado e ao mitológico. Suas peças ocupam um enorme espaço, contando com pátios ao ar livre, grandes muralhas, murais com diversas inscrições e citações, totens e, dentre outros, galpões com milhares de obras acumuladas, como esculturas, painéis, desenhos e pinturas. Apesar das diferenças de técnicas ou materiais utilizados, todas as peças são ligadas por um mesmo tema: o mistério da origem da vida. Como nos informa o release da mostra, acerca das influências do artista, “De habilidades múltiplas e uma potência cultural impressionante, Brennand tem inspirações variadas que vão da mitologia greco-romana e oriental à história europeia; de pássaros e animais imaginários às mais genuínas flora e fauna brasileiras; temas bíblicos à sexualidade”, e tudo isso permeado por signos da tradição popular do Nordeste.

No site oficial que trata do artista e de seu ateliê de grandes proporções, há uma passagem responsável por transmitir a singularidade da criação do senhor pernambucano:

“Lugar único no mundo, a Oficina Brennand constitui-se num conjunto arquitetônico monumental de grande originalidade, em constante processo de mutação, onde a obra se associa à arquitetura para dar forma a um universo abissal, dionisíaco, subterrâneo, obscuro, sexual e religioso. A presença do artista num trabalho contínuo de criação confere à Oficina um caráter inusitado, identificando-a como uma instituição intrinsecamente viva e com uma dinâmica que torna imprevisíveis os rumos da arquitetura e da obra”.

Brennand tem a preocupação de manter um certo mistério no local, algo que ele sentia com os irmãos ao brincarem na fábrica quando crianças, época em que o espaço era menos iluminado e os perturbava com seus longos corredores e fornos que pareciam grutas. Quando o pernambucano começou a transformar a antiga olaria, ele queria manter o mistério, e assim este permaneceu.

Brennand redefiniu o uso da cerâmica, mas sua relação com esse material nem sempre foi tão boa. Durante a exposição, nos deparamos com passagens do diário do artista, que confessa que, apesar de no Recife toda a sua família ser tradicionalmente dedicada à indústria da cerâmica, ele alimentava abertamente uma enorme lista de preconceitos contra essa forma de arte.

Tais preconceitos foram quebrados ao Brennand passar um período na Europa e entrar em contato com uma exposição de cerâmicas feitas por Picasso e com uma peça, do mesmo material, criada por Gauguin.

“Para falar a verdade, eu tinha preconceito em relação à cerâmica. Considerava-a arte decorativa, utilitária, menor. Tinha um soberano desprezo por ela. Ele só foi derrubado depois, na Europa, quando tive contato com as cerâmicas de Picasso, Léger Matisse e, sobretudo, Miró”, escreveu Brennand em um dos seus diários.

O ceramista mantém diários há mais de 50 anos e, ano passado, foi lançada uma edição de luxo com parte de seus textos, totalizando quase 3 mil páginas e dividida em 4 volumes. Após esse espanto e encantamento inicial, dado em seu primeiro período no continente europeu (1948-1951), Brennand retornou ao Brasil.

Em 1952, ele decidiu se dedicar a aprender mais profundamente as técnicas da cerâmica, iniciando um estágio em uma fábrica de louça esmaltada, na cidade de Deruta, na Itália. Durante esse estágio, o artista começou a fazer experiências com o uso de esmaltes cerâmicos e queimas sucessivas, um processo em que a mesma peça cerâmica é queimada diversas vezes em temperaturas variadas. A cada entrada da peça no forno é aplicada uma camada diferente de esmalte, o que confere à sua superfície uma grande variedade de texturas e cores. Tais técnicas foram exploradas e aprimoradas por Brennand com o passar dos anos, e se tornaram uma característica diferencial em sua produção artística, como explica o texto “Um artista chamado Francisco Brennand”, de Camila da Costa Lima. Algo que o pernambucano disse acerca da cerâmica, em 2005, nos ajuda a entender seu modo de trabalho e o ar de mistério e magia que percorre suas obras e a Oficina:

“Aproximar a cerâmica do feitiço não é uma associação ocasional, e sim uma realidade, embora uma realidade que me escapa, sobre a qual não tenho nenhum poder. […] Quando faço cerâmica, não tenho pátria; minha pátria é o abismo pelo qual vou resvalando sem saber o que encontrarei no fundo”.

Além do papel da Oficina para sua carreira, ainda podemos conhecer, na exposição, mais do arquivo pessoal do artista através de fotos com os amigos, pais e com a esposa, e a mostra ainda conta com conteúdo audiovisual retirado do documentário “Francisco Brennand” (2012), dirigido pela sobrinha-neta do artista, Mariana Brennand Fontes. Nos vídeos estão registradas mais histórias e pensamentos compartilhados pelo próprio pernambucano. O agora-senhor-de-90 anos foi admirado por Jorge Amado e amigo de Ariano Suassuna, famoso dramaturgo e romancista brasileiro, escritor de “O Auto da Compadecida”. Brennand e Suassuna se conheceram na escola, época em que o artista fazia ilustrações para os poemas do amigo, que foram publicados nos jornais do colégio e, posteriormente, em importantes periódicos. Brennand chegou a fazer, mais tarde, figurinos para as peças de teatro de Suassuna. Na década de 1970, os dois parceiros ainda participaram juntos do Movimento Armorial, cujo objetivo era criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro e combater o domínio da cultural estadunidense no país.

O ambiente da exposição é cuidadosamente pensado pela curadoria de Rose Lima. As cores primárias que cobrem as paredes, como o vermelho e o azul, são fortes, marcantes e nos remetem ao cenário da Oficina. As obras escolhidas, entre elas diversas pinturas, expressam o desejo do artista de ser lembrado também como pintor, ofício que ele ama e pratica desde antes da cerâmica ocupar tal lugar em sua carreira, e linguagem na qual ele tem preferido focar ultimamente. Entre os quadros trazidos, há 6 telas com autorretratos de diversas fases do artista e que demonstram as transformações em sua técnica. A variedade de técnicas utilizadas elucida ainda mais a genialidade de Brennand, que sabe se expressar através dos diversos tipos de arte e materializa nela suas ideias e seu jeito de enxergar o mundo. Peixes, pelicanos, mulheres, um ovo, um santo: o artista retrata diversos elementos que, para ele, participam do mistério da origem da vida. O nascimento está presente na reprodução do corpo, como o pintado e moldado em “Amarradas 1”; da mulher, geradora da vida; e também do ovo, que representa a vida em si. O ovo é o símbolo da imortalidade. As coisas são eternas porque se reproduzem”, afirma o artista.

Aos 90 anos, Brennand é um exemplo de dedicação e entrega à arte. Ele continua criando e cultivando seu templo, um local único. Em entrevista para o site do jornal “O Globo”, o artista mostrou humildade e ainda pareceu encaixar sua obra em um plano maior, em que tudo e todas as criações estariam conectados:

Não penso que o que fiz vai ficar para a eternidade, até porque alguém pode estar construindo, em algum lugar, uma coisa parecida ou mais importante. E assim estes ciclos se completam”.

A exposição “Brennand – Mestre dos Sonhos” é uma oportunidade incrível de conhecer de perto um pouco da história e do legado desse artista notável homenageado em vida.

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