Quando entrei na faculdade em 2007 deparei-me com um professor grandão, careca e de sorriso largo. Eu, pequena que só, fui recebida com uma mão enorme e simpática de “Prazer, eu sou o André”. André não sabe, mas ele refinou meu gosto pela Literatura. E foi ele também quem me fez ver que Gabriel García Márquez ia muito além de “Cien años de Soledad” (Cem anos de solidão).

Memória de Minhas Putas tristes chamou-me atenção pelo título. Sim, julguei o livro pela capa (e ainda bem que julguei!). A situação, lembro-me até hoje: uma lista em nossas mãos com muitas obras que nunca tínhamos ouvido falar. Era uma avaliação em grupo e nós, “a galera do Rio” (estudei em Niterói), fechamos os olhos e bem… lá íamos ler o que posteriormente entrou no meu top five.

Se eu precisasse definir o enredo com uma única palavra, essa seria “amor”. Palavra talvez até brega, ultrapassada e que vem perdendo seu significado ao longo dos anos.  Mas é amor e não tem outra definição.

O livro é narrado em primeira-pessoa. E essa “pessoa” (pois não sabemos seu nome) acabara de completar noventa anos. Como um presente (e uma aventura), decide dar-se uma noite de amor com uma adolescente virgem. E para isso conta com a ajuda de Rosa Cabarcas, dona de um bordel clandestino.

Nosso personagem é um jornalista que mantém uma coluna semanal em um jornal colombiano. Nunca deitou com uma mulher sem pagar, mas foi pela bela (e adormecida) Delgadina que ele soube o que é de verdade estar amando.

Delgadina é uma figura interessante. Jovem, bonita e inocente, trabalha de dia em uma fábrica pregando botões em camisas. Considera ser um trabalho tão exaustivo, que quando chega para seu turno no bordel de Rosa, acaba adormecendo. E foi com essa figura completamente entorpecida, que nosso cavaleiro sem nome nos faz relembrar o que é realmente o amor. Ela não tem falas ou reações. Delgadina dorme! E nós leitores é quem sonhamos os doces sonhos e deletérios junto com nosso personagem principal.

Obra ambientada na Colômbia, Gabriel García Márquez retrata a si mesmo. E como um grito ensurdecedor, vem dizer com esta composição que não, não está morto (o livro foi escrito em 2005.).

É um livro repleto de frases de efeito e que eleva a velhice como a fase mais importante da vida de uma pessoa.

Apesar da mesma de temática de Lolita (um clássico russo de Vladimir Nabokov), Memória de Minhas Putas Tristes poetiza com o olhar inocente do moço de 90 anos que foi pego de surpresa pelo amor. E a moça, o alvo da paixão não o corresponde (mas não o rechaça). Delgadina “é”!

“Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco. ”. (p.74)

Para você, que assim como eu, acredita que o amor salva, essa é a dica do dia. Foi um livro que me transformou como pessoa e como leitora. É um livro que me faz suspirar só de ouvir o nome.

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