Para voar na poesia do rock
 
Foto: Daniel Seabra

Foto: Daniel Seabra

Foi em 2013, a primeira vez que ouvi falar na banda Canto Cego. Durante a gravação de um curta, onde assinei a Direção de Arte, que conheci a, aparentemente tímida, vocalista Roberta Dittz. De lá para cá, acompanhava pelo YouTube os lançamentos dos singles e, como o que é bom é para ser compartilhado, resolvi fazer um MixTape especial para falar da banda, do seu primeiro disco e trazer uma entrevista exclusiva para vocês!

O processo criativo do quarteto formado pela Roberta Dittz (Vocal), Ruth Rosa (Bateria), Rodrigo Solidade (Guitarra) e Magrão (Baixo), começou na favela da Maré, no Rio de Janeiro, em 2010, que não só influenciou o nome da banda, como suas canções poéticas embaladas por um rock’n’roll de primeira.
 
Na época da formação, a comunidade da Maré estava tampada por tapumes para que, quem passasse pela linha vermelha, não a viessem. Com a inconformidade dos moradores e a vontade da banda em falar sobre as desigualdades e os conflitos pessoais e sociais, veio a ideia do nome, para representar o “Canto Cego” espalhado por todo o país.
 
Mesmo tendo as dificuldades que toda banda sofre por não fazer parte do que chega aos ouvidos do “grande público”, eles foram vencedores do Festival da Nova Música Brasileira (2012) e do Planeta Rock (2014). Ao lado de bandas consagradas, subiram nos palcos mais famosos do circuito carioca como o Circo Voador, o Teatro Rival e o Teatro Imperador. Além disso, eles foram convidados à se apresentarem no Festival de Montreux, na Suíça, realizando uma pequena turnê por lá.
 
O debut, “Valente”, está fresquinho e disponível em plataformas digitais como Spotify, iTunes, Deezer, Napster e Google Play, além do Soundcloud. O projeto que começou a ser feito em janeiro de 2014, com a gravação do single “Nuvem Negra”, teve mais cincos músicas gravadas em outubro do mesmo ano para aquilo que seria o EP. Um ano depois, para ser mais exato, a ideia do EP foi deixada de lado, gravaram mais seis faixas e resolveram meter o pé na porta com um álbum de qualidade e financiado com os próprios cachês e dinheiro pessoal dos integrantes.
Arte: Carol Santos

Arte: Carol Santos

Com a maior parte gravada no estúdio Toca do Bandido, tendo a produção de Felipe Rodarte e engenharia e mixagem de som de Pedro Garcia, é nos entregue uma produção madura, contemporânea, poética e “paulêra”. Com 12 músicas, nove foram escritas pela Dittz, uma composta por Marcelo Yuka, “Eu Não Sei Dizer”, e outra do músico com a banda, “O Dono da Ordem”. Porém, um marco inevitável da obra é a maravilhosa regravação de “Zé do Caroço”, um samba mega clássico e popular de Leci Brandão, que ganhou uma rockupagem f*d@!

E se você pensa que foi só um chutinho na porta, se enganou. No dia 18 de agosto eles subiram mais uma vez ao palco do Imperator para fazer o show de lançamento do disco, que não só contou como as músicas presentes nele, como outros singles já lançados pela banda. Durante a apresentação, Simone Mazzer subiu ao palco soltando a voz com “Imaginário” e “As Rosas Não Falam”, de saudoso Cartola. A música “Vão” ganhou um solo de cítara tocado por Sam Shankara e Ayama Prado e Rachel Araújo, junto com suas alfaias, deram um tom certeiro para “A Fúria” e uma versão de “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho.

Não me satisfazendo, resolvi fazer uma pequena e exclusiva entrevista com a Canto Cego para nossa coluna que vocês conferem abaixo.

 
@opauloolivera: A formação da banda deu-se na favela da Maré, onde a Ruth ainda reside. Como foi o encontro de vocês e qual foi o “empurrão” para a criação da banda?
 
Magrão – Bom, eu já tinha uma vivência artística na Maré. Dei aulas de grafitti e pintura durante 6 anos e foi nesse período que surgiu minha primeira banda. Existem muitas bandas, coletivos, pessoas que vivem de arte e cultura na Maré. Em determinado momento eu tocava numa banda chamada Veneto. Foi quando o vocalista saiu e procuramos um novo vocalista até encontrarmos a Roberta. E logo depois saiu o Diogo, guitarrista, e veio outra procura até encontramos o Rodrigo. Roberta sugeriu o nome Canto Cego e pouco depois saiu o baterista. Nova procura procura começo e essa foi mais longa.
 
Ruth – Eu já tocava em uma banda do movimento Rock na Maré desde 2009. Quando a Canto estava em busca de batera lá. Em 2013 um amigo meu me indicou pro Magrão, fiz um teste e tô aí até hoje. Eles já até tinham considerado a possibilidade de me chamar, mas na época, eu com os meus 18/19 anos, era meio adolescente revoltada, aí me descartaram. (Risos).
 
Magrão – Eu digo que demos uma volta no Rio pra voltar e encontrar a Ruth no ponto de partida. Agora somos Canto Cego.
 
@opauloolivera: O nome “Canto Cego” veio da inspiração de uma insatisfação e as músicas de trabalho envolvem não só uma posição pessoal, mas social. Como é o processo de composição da banda e quais são as suas inspirações?
 
Roberta – Eu tenho hábito de escrever, e quando a gente decide abrir a temporada de composições, começamos a improvisar e testar alguns escritos por cima, às vezes falado, às vezes cantado. Desses experimentos vão surgindo as músicas. Mas também damos abertura pra um processo individual, às vezes eu chego com a melodia e letra completos e a banda vai montando o arranjo. Ou o Rodrigo chega com um arranjo, e vamos criando em cima. Desses primeiros esboços vamos refinando, procurando referências pra timbres e inspirações de todo tipo, desde mantras indianos ao som dos motores de carro, bandas de rock internacional e MPB.
 
@opauloolivera: Como vocês enxergam a cena do rock nacional hoje, no país e no Rio?
 
Rodrigo – O Rock no Brasil está passando por um processo de renovação. Apesar do mercado estar voltado para outros gêneros, alguns nomes como o Far From Alaska, Scalene e Supercombo estão se destacando à nível nacional e até internacional. Mesmo sem o apoio da mídia, parece que estamos voltando a ter bandas capazes de carregar um bom público para shows e isso é fundamental para que a coisa seja sustentável. Nisso tudo, o Rio de Janeiro tem se destacado como um polo de música independente feita com qualidade e verdade. Conhecemos bandas de outros estados que tem o Rio como referência da cena de independente. Agora é manter o foco, se entregar e se controlar para sempre estar colocando verdade naquilo que está sendo dito. Assim, o público vai chegar cada vez mais perto da cena e o mercado vai ter que aturar o Rock.
 
@opauloolivera: Valente foi um processo árduo, mas não tenho dúvidas de que foi apaixonante. A minha música preferida é “Mundo Voraz”, e a de vocês?

Roberta – A minha preferida é “Gigante”, apesar de gostar muito de “O Dono da Ordem”.
 
Rodrigo – Decidir uma música preferida é difícil pra caramba, mas acho que “Eu Não Sei Dizer” foi muito importante para a auto-estima da banda, uma reafirmação depois de um período em que tivemos algumas decepções.
 
Ruth – “Sublime”.
 
Magrão – Amo todas. Tem umas que eu realmente fico bem feliz como, as duas que fizemos com Marcelo. Foi uma verdadeira aula. “Zé do Caroço” é umas das mais fortes e é uma pressão absurda. Costumo dizer que Lecy fez essa pra gente (Risos). Agora, “Mundo Voraz” é uma lindeza!
 
@opauloolivera: Com um álbum recém lançado, quais são os planos da banda?
 
Roberta – Agora estamos preparando um videoclipe, e diversas surpresinhas para as redes sociais. Mas o plano é circular mais, fazer mais shows em outros estados. Agora que temos um disco tão sonhado para apresentar, acreditamos que vamos conseguir chegar mais perto do nosso público, e fazer com que mais pessoas conheçam o nosso som.
 
@opauloolivera: O que vocês, hoje, diriam para vocês mesmos quando começaram a 6 anos atrás?
Foto: Daniel Seabra.

Foto: Daniel Seabra.

Roberta – Eu diria pra compor mais, escrever mais, porque cada momento da nossa vida é único e a gente também tira criações únicas de cada fase. E também pra ter cópias de tudo guardado (risos), eu perdi muita coisa que escrevi por não ter feito cópias.
 
Rodrigo – Canto Cego de 6 anos atrás: O caminho é árduo mesmo, sem ganhar cachê, tocando em alguns lugares esquisitos e sem nenhuma contrapartida, mas vai valer a pena. Vão continuar passando perrengue, mas no futuro será com um disco lançado.
 
Ruth – Seis anos atrás eu não estava na banda ainda, mas se eu pudesse dizer algo pra mim assim que eu entrei, eu diria pra comer menos porque faz muita diferença na hora de tocar.
 
Magrão – Eu diria pra continuar. Não para cara!!! Se permita!!! Vale a pena!!!! Vai, Voa!!!
 
@opauloolivera: Agora é a hora de fazer um MixTape. Escolham músicas que vocês gostem, que os influencie, e justifiquem brevemente essa escolha.

Roberta – Pra mim, “Nostalgia” da Concha Buika. Ela é uma paixão de voz e sentimento pra mim, uma grande inspiração. E pela banda “Palhaço do Circo sem Futuro” do Cordel do Fogo Encantado que é influencia de performance de palco e sonoridades, acho um dos grupos mais originais que existiu.

Rodrigo – “Da Lama ao Caos” do Nação Zumbi é uma das minhas músicas preferidas, por ter o peso das guitarras do Lúcio Maia, aliada à percussão feroz, com levadas do Maracatu, e letra sensacional do mestre Chico Science. Outra música que me inspira é “Mistério do Planeta” dos Novos Baianos, por sua construção sensacional.

Ruth – Eu definitivamente ouço de tudo. De Safadão a Djavan, do rock ao clássico. Não me recordo de nenhuma influência individual, mas tem duas músicas que eu sempre ouço e me inspiram na vida. “Price Tag” da Jessie J e “Love is a losing game” da Amy Whinehouse.

Magrão – Passei minha adolescência toda ouvindo Rage Against the Machine, Ramones e Pearl Jam. Destas acho que ouvi tudo o que pude. Hoje ouço muita coisa nacional. Lenine, Nação Zumbi, Pessoal da Nasa. Ouço bastante “Amigos e Fantasmas” do Pessoal da Nasa e “Bogotá” do Criolo. Ah Deftones.

Depois desse MixTape maravilhoso, só me resta agradecer à banda por ter cedido seu tempo para responder as perguntas e desejar suce$$o e voos altos para vocês. Então piada interna: “Voa Valente, Voa!”. 

Lembrando que você pode conhecer mais o trabalho deles e ficar por dentro de tudo pelo site oficial e/ou pelas redes sociais (FacebookTwitterInstagramYouTubeSoundcloud). Vou ficando por aqui e na próxima semana vamos estar “Na Cama Com Madonna”, porque aqui é 08 ou 80.

Um cheiro, abraços apertados e uns beijos molhados. Até!