O Metropolitan Museum of Art e a curadoria responsável pela parte dedicada à exposições sobre moda e figurino do museu já divulgaram o tema do MET Gala do próximo ano: Moda e igreja, ou mais especificamente “Corpos Angelicais: Moda e a Imaginação Católica”.

A escolha do tema surpreendeu muitos fashionistas. Nos dois anos anteriores, em que os temas foram a estilista Rei Kawakubo e moda nos tempos da tecnologia, o assunto era a inovação e o experimentalismo. Agora, o museu e sua festa propuseram aos estilistas e às suas musas pensarem no mais tradicional e mais ousado – pensar religião quase sempre traz polêmicas. A exposição contará até com uma veste papal, um empréstimo da Capela Sistina.

Especula-se que a o tema da relação entre moda e igreja católica tenha vindo da ideia editora da Vogue e rainha do Met Gala, Anna Wintour, de fazer um tapete vermelho com looks mais carregados, intensos e até mais divertidos, sem vestidos básicos. Contudo, Anna não inventou esse tema sem nenhum motivo. A iconografia cristã está fortemente presente na cultura ocidental – e em parte da cultura oriental – desde a Idade Média. Nossa representação de dor ou de sofrimento em diversas formas artísticas, por exemplo, quase sempre remetem à dor de Cristo ou outras representações de dor presentes na Bíblia. Na moda não é diferente.

Vários estilistas já se inspiraram na arte católica e nos próprios dogmas do catolicismo para desenhar suas coleções, seja como uma forma de homenagem ou de provocação. Desde peças de grifes que se inspiram na religião mais claramente como Dolce & Gabbana e Versace até peças menos lembradas como o vestido de noiva da Chanel inspirada nos trajes de Primeira Comunhão ou como a coleção da Valentino inspirada nas túnicas franciscanas pintadas por Francisco di Zurbarán, o acervo da exposição contará com 150 peças inspiradas na igreja católica além de 50 vestes eclesiais.

Outra novidade desta edição é que pela primeira vez a exposição não será apenas na sala de indumentária do museu. Será dividida em três localidades: no Anna Wintour Costume Center, nas salas medievais do Metropolitan Museum of Art e no Cloisters, um ramo do museu dedicado à arte e arquitetura da Europa na Idade Média, que fica fora do prédio principal.

Além disso, na semana passada, o MET divulgou o nome dos anfitriões da festa de abertura da exposição: Rihanna, que frequenta a festa desde 2007 e que tem se destacado muito no mundo da moda, Amal Clooney, que estreou no tapete vermelho do MET em 2015 e é conhecida por ser uma grande advogada e tem se tornado um ícone de estilo, e Donatella Versace, herdeira do império da moda que sempre causou ao misturar religião e moda.

A exposição que tem tudo para ser bastante polêmica vem em um contexto muito delicado. Além das discussões sobre a censura de obras de arte e de exposições de que tanto se fala aqui no Brasil, a igreja passa por um momento polarizado, e os dois lados podem ser contra. De um lado, os mais progressistas da igreja, os aliados do Papa Francisco, desprezam todo o luxo e os trajes suntuosos dos clérigos que estarão expostos. De outro, os mais conservadores consideram uma afronta uma outra leitura da iconografia cristã e a as coleções mais provocativas.

O curador da exposição, Andrew Bolton, disse que fez contato com o Vaticano em 2015, e a Igreja Católica teria gostado da ideia de trabalhar com o museu. Ele diz que consultou vários grupos católicos, inclusive o arcebispo de Nova York, o Cardeal Timothy M. Dolan, para saber se alguma parte da exposição seria mais problemática, mas ele afirma que não removeu nenhuma peça que pudesse ser mais escandalosa. O curador, que é católico, tem noção de toda a repercussão que a exposição pode gerar, mas declarou que: “todos os ‘shows’ no MET tem potencial para serem escândalos. Mas o foco é em uma hipótese coletiva sobre o que chamamos de imaginário católico e como isso inspirou artistas e designers, como moldou sua abordagem criativa em contrapartida de qualquer sociologia ou teologia. A beleza muitas vezes foi uma ponte entre os que creem e os que não creem.”