Nos idos de 2007, um senhor muito simpático, Paraibano de voz rouca e cabelos ralos e brancos, falava para uma plateia embebida em suas palavras.

O local: EMERJ – A Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.

Na plateia: A Malu Madder.. (e eu atrás dela…)

No palco: Ariano Suassuna.

O evento, na verdade, era um ciclo de palestras, leituras dramatizadas e uma aula do próprio Suassuna para comemorar os seus 80 anos (na época).

Simpático e com uma sinergia incrível com todos a sua volta, Suassuna nos mostrava em sua simplicidade o que é ser “o cara”. Com aquele estilo avô que espera os netos com biscoitos recém-saídos do forno, mas com a sagacidade daqueles comediantes de stand up, tivemos uma senhora aula sobre a nossa dica do dia.

O Auto da Compadecida foi encenada pela primeira vez em 1957 em Recife. Logo depois era publicada pela editora AGIR, sendo traduzida em dezenas e dezenas de idiomas. Era o sertão da Paraíba ganhando o mundo. Além de ter três versões cinematográficas e uma série na TV.

A obra é narrada por um palhaço. E tem como cenário original o picadeiro de um circo. É baseada nos romances e história populares do Nordeste. Era o cordel entrando em campo e mostrando o quão rica é essa cultura. O enredo gira ao redor de Chicó e João Grilo. E tudo começa porque eles querem benzer o cachorrinho de sua patroa (a mulher do padeiro).

O livro é dividido entre as falas dos personagens e a narração do palhaço. E é incrível, porque ao lermos, vamos criando na nossa cabeça a fala de cada um. O jeito de cada um… o espaço de cada um. E justo por ser uma peça teatral, a cadência da leitura é diferente. É quase uma canção.

Você passa rindo quase o tempo todo. E consegue ler tudo em menos de um dia.

O tal cachorro que seria benzido pelo padre morre, e nossos personagens falam que ele tem um testamento. E a partir daí temos de tudo: morte, falsa morte, traição, inferno, céu, Deus e o Diabo; e claro, a nossa Compadecida.

É uma obra para você que está precisando relaxar…

 

“Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!

A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer.

A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé.

Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escalér.

Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher.

Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!”

(p.144)

            E eu poderia aqui falar e falar. É um livro gostoso que só. Mas achei uma entrevista do próprio Suassuna falando sobre essa obra fantástica. Então, hoje, vocês ficam com ele. Em ótima companhia…