Um ícone atemporal

Ontem (20/01/18) foi dia de conferir a turnê “Atento aos Sinais” do inigualável Ney Matogrosso. Aos 76 anos, ele subiu ao palco do Km de Vantagens Hall, no Rio de Janeiro, para uma única apresentação. A casa recebeu quase duas mil pessoas para assistir ao show, e mesmo não lotando, ninguém pode sair dali sem se sentir agraciado pela apresentação.

No palco, tínhamos 4 telões esguios em posição vertical e inúmeros spots de luz multicores, que não só serviram para iluminação direta como também de contra luz, direcionando as cores para o público. O único objeto cenográfico era uma espécie de trono espelhado, com um longo encosto.  Previsto para começar as 22h, o espetáculo começou com certa de 34 minutos de atrasado depois de alguns “aplausos” de ansiedade do público.

Ao som de “Rua da Passagem (Trânsito)”, Ney Matogrosso abre o show. E, como esperado, seu look era bem brilhante, embora fosse preto. O figurino era composto por uma bota preta, uma calça de vinil prata com uma meia-calça preta por cima, um cinto, um colete de penas pretas, uma regata transparente (estilo destroyed), seu típico capuz e muitas jóias, braceletes e pulseiras pratas. Ao começar o show com uma música super politizada, a segunda canção mantem o ritmo e temos a interpretação de “Incêndio”. Finalizando a primeira parte do show, ele segue com “Vida Louca Vida”, enquanto no telão temos a reprodução de várias imagens do próprio Ney, ao longo da carreira.

Ao terminar a cação, ele cumprimentou seu público e tirou o colete de penas, ficando somente com a regata. Então, seguiu a apresentação com “Roendo as Unhas” e com seu hips bem solto. Esse foi o primeiro momento que o público de fato começou a se alvoroçar. Quanto mais ele rebolava, mais o público gritava. Na sequencia veio “Noite Torta” e “A Ilusão da Casa”, dando assim um ar mais introspectivo à apresentação.

Ao terminar, após os aplausos dos espectadores ele faz com que o alvoroço retornasse. Ele senta-se em seu “trono” espelhado e começa a se despir enquanto sua banda fazia uma introdução musical. Ele retira o cinto, as botas pretas e o capuz. Depois calça uma bota prata, veste uma regata super cavada, cheia de paetês, e por fim, uma touca de longo caimento. Durante todo esse processo ele sensualizava e quanto mais feminino parecesse, mais o público gritava.

Na sequência veio “Freguês da Meia-Noite” e depois, com o palco todo iluminado de rosa, “Isso Não Vai Ficar Assim Meu Bem”. Nessa música ele se aproximou da beira do palco e desceu dois degraus de uma centralizada escada, onde se sentou. Uma das frases presente na música é “Por isso beije-me” e essa foi a hora do público aproveitar. Diversas pessoas levantaram e foram até ele, onde puderam dar-lhe beijos durante esse momento. Grande parte dos beijoqueiros eram, na verdade, beijoqueiras.

Depois desse momento íntimo, tivemos “Oração” e “Tupi Fusão” – uma das minhas preferidas da turnê – onde Ney fazia os mais diversos tipos de caras e bocas. Após a canção, inúmeras pessoas gritavam lindo, gostoso, maravilhoso e outros adjetivos para elogia-lo. Com muita classe, ele sorriu, ergueu um copo com água, desejou saúde à todos, o tomou e continuou o show com “Samba do Blackberry”.

É então que Ney fala “Nesse momento nós começamos a encerrar nossos trabalhos“. Como já era de se esperar o público disse “Não“, mas o Ney reafirmou “Sim” e isso se repetiu umas 3/4x. Antes de agradecer aos presente e se retirar do palco, foi a vez de “Todo Mundo o Tempo Todo”. Então, após a canção, são apresentados no telão o nome dos músicos que estavam lhe acompanhando no show.

Uma parte do público se levantou e aproximou do palco para o retorno de Ney Matogrosso e sua banda. A volta vem com a interpretação de “Amor”. A famosa canção do Secos e Molhados foi uma das mais entoadas em coro pelo público presente. Nessa parte, que podemos chamar de nostálgica,  teve em sua sequencia a entoada “Poema”. E finalizando, por estar no Rio, ele canta o samba “Ex-Amor”. Após sair do palco o público pede o bis, gritando “mais uma“. Ele volta, e com um sorriso no rosto disse “Só mais uma, mas é só mais uma mesmo!“. Assim ele fecha verdadeiramente o show, com um pouco mais de 1h10, com o “Beijos de Imã” e a sonoridade do funk carioca.

Com dois spots direcionais, Ney brilhou no palco, não só pela sua roupa, mas por suas canções e sua interpretação em cada uma. Com sua presença única, ele deixou sua excelente banda também brilhar junto a ele. Composta por Sacha Amback (direção musical e teclado), Marcos Suzano e Felipe Roseno (percussão), Dunga (baixo), André Valle (guitarra), Aquiles Moraes(trompete) e Everson Moraes (trombone), os sete músicos misturavam sons e referências.

Do bolero à salsa, do funk à melodias árabes, a turnê “Atento Aos Sinais” tem uma sonoridade contemporânea, de influência tropical. Nesse “pop urgente” – como foi intitulado -, de canções compostas por artistas consagrados, tivemos uma noite marcante que merece ser vista e revista. Ouvida, comentada e recomendada. Num país onde os afeminados são recriminados, violentados e assassinatos, ter uma figura icônica, atemporal e politizada presente na mídia faz toda diferença. Vida longa e muitos aplausos fervorosos ao Ney Matogrosso!

   

Acima, vocês podem conferir o álbum ao vivo, gravado para a turnê. Nele há pequenas mudanças em relação ao show apresentado, mas em essência se mantém o mesmo.

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