Em 1947, há 70 anos, o álbum “Jazz”, do artista francês Henri Matisse (1869-1954), foi apresentado ao mundo. Desde 25 de outubro, última quarta-feira, até 22 de dezembro, esse trabalho pode ser visto na exposição “Henri Matisse – Jazz”, na Galeria 1 da Caixa Cultural, no centro do Rio de Janeiro. De terça a domingo, entre 10h e 21h, o público tem passe livre para se familiarizar com obras de um dos maiores ícones da arte moderna ocidental no salão do primeiro piso da Caixa.

A mostra é composta por duas salas: uma principal, onde estão as obras, os textos da curadora, Anna Paola Baptista, e citações de Matisse; e uma secundária, na qual há uma linha do tempo da vida do artista e um espaço onde os visitantes posam para fotos com uma versão grande de “Ícaro”, uma das obras de “Jazz”. Na mesma sala é transmitido um vídeo da curadora da mostra explicando um pouco mais sobre a técnica de Matisse e sua relevância para o meio artístico.

A exposição é pequena em extensão, mas vale a visita pela beleza das cores e formas singulares, algo muito característico de Matisse. Também é interessante para conhecer de perto o trabalho de um dos artistas mais influentes do século XX,  integrante vital de uma vanguarda artística, sendo “Jazz” o auge do modernismo em sua carreira. A valorização do uso da cor sem as amarras do comprometimento com a realidade e de regras pré-definidas foi aspecto central na composição das obras exibidas, que cativam pela vivacidade das cores em seu estado puro, sem mistura de tons. A iluminação da sala nos faz mergulhar na intensidade transmitida por Matisse e inspira adentrar suas gravuras e  participar de cenas que parecem existir em uma realidade paralela de sonhos e sensações.  Todas as figuras criadas por ele, sejam elas humanas, animais ou inanimadas, aparentam estar sempre dançando ou fazendo gestos ritmados, o que aumenta o sentimento de imersão e envolvimento do espectador com a obra.

Matisse era um esteta, por isso parecia estar mais interessado na experiência do belo do que em qualquer outra coisa. Há arte que é para pensar, refletir, incomodar, perturbar, e há arte que se preocupa apenas em ser, em estar, em existir. Arte que é puramente bonita e feita para satisfazer os nossos anseios por uma estética agradável, a chamada “arte pela arte”. Uma vez explicando sua obra para uma revista, o pintor declarou: “Sonho com uma arte de equilíbrio, de pureza, de tranquilidade, sem temas inquietantes ou preocupantes, uma arte que seja, para qualquer trabalhador cerebral, quer o homem de negócios, quer o homem cultivado, um lenitivo, um calmante mental, algo como uma boa poltrona onde ele possa relaxar do cansaço físico“.

O álbum “Jazz” está ligado não apenas a aspectos da carreira do artista, mas também à sua vida pessoal. Em 1941, Matisse é diagnosticado com um câncer de intestino e submetido a cirurgias que o deixam em uma cadeira de rodas, o que dificultou que o artista utilizasse cavaletes para pintar. A partir do sofrimento, aos 71 anos, Matisse criou uma nova forma de manifestar sua arte: ele passa a trabalhar mais intensamente com papéis recortados, de mais fácil manuseio. Nesse contexto surge “Jazz”, considerado o livro mais bonito do século XX. Matisse já se encontrava na plena maturidade de sua trajetória artística e explorava sua liberdade expressiva nas 20 pranchas que compõe o livro, um resultado de toda a experimentação desenvolvida pelo esteta.

A técnica utilizada em Jazz consiste em recortar papéis previamente coloridos a tinta guache, o que cria um desenho direto na cor em vez de desenhar e posteriormente colorir dentro das linhas traçadas. Assim são formadas figuras abstratas de grande vivacidade, intercaladas no livro com textos manuscritos do artista, nos quais ele faz observações e traz pensamentos anotados ao longo de sua trajetória. Matisse sentiu necessidade de algo que separasse suas figuras, como ele mesmo disse: “Dessa vez gostaria de apresentar os meus guaches recortados em condições que lhes sejam mais favoráveis. Para isso devo separá-los por intervalos com um caráter diferente. Pareceu-me que o texto manuscrito se adequava melhor a esta utilização”. Ele concluiu que a excepcional dimensão da escrita era obrigatória para estabelecer uma relação decorativa com o caráter de suas colagens, por isso as páginas de pensamentos serviam apenas para acompanhar as suas cores.

Em 1947 foram impressos 250 exemplares de “Jazz”, em Paris, assinados por Matisse com as imagens au pochoir (uma variação da serigrafia). O que está na Caixa Cultural é o de número 196, pertencente ao acervo dos Museus Castro Maya. Apesar de ser chamado de álbum, “Jazz” é um livro ilustrado, nomeado assim por ser um livro de arte, mas suas folhas não são coladas ou costuradas, e sim pranchas individuais que podem ser penduradas.

Matisse abordou, nessa composição, assuntos ligados ao circo, contos populares e viagens, e o ritmo das imagens conversa com os sons de uma orquestra de jazz. Antes de receber o nome atual, Matisse pensou em chamar a obra de “O Circo”, uma vez que nela são reconhecíveis personagens como o atirador de facas, o engolidor de espadas e o palhaço. “Porém o livro acabou recebendo o título ‘Jazz’ que o referenciava à cultura norte-americana, emergente e menos compromissada com a tradição e, por isso, naquela época fortemente associada aos valores do moderno”, explica a curadora da exposição, Anna Paola Baptista, em um dos textos que estão apresentados nas paredes. O título condiz com o caráter transgressor das obras de Matisse, que quebravam as convenções da época. As imagens produzidas pelo artista nesse livro personificam a própria linguagem da modernidade, segundo a curadora, por serem vibrantes e reprodutíveis, baseadas no ritmo e na improvisação. “O repertório de cores vivas e curvas vertiginosas a serviço da emoção e do movimento – essência do moderno – fazem dele um dos ícones da arte do século XX”, escreve Anna Paola.

Apesar de pensar que sua arte era apenas contemplativa, Matisse causou grande incomodo no público da época (primeiros anos de 1900), mesmo no início de sua carreira, por seu radicalismo ao usar cores na essência, ou seja, mais fortes e vibrantes, e pelos traços expressivos que fazia. O artista e os demais que compartilhavam de suas técnicas foram chamados por um crítico de “fauves” (bestas selvagens) e deram origem ao movimento Fauvismo. O estilo começou em 1901, mas foi reconhecido como movimento apenas em 1905, no Salão de Outono, uma exposição de arte organizada por artistas não alinhados com a Academia de Belas Artes e realizada anualmente em Paris. Ela dava espaço a jovens artistas e divulgava o impressionismo.

O Fauvismo buscava uma arte de sensações primárias, uma que seguisse os impulsos do instinto, então os traços deveriam nascer instintivamente e impulsivamente, sem racionalização ou preocupação com a técnica, e a pincelada era espontânea e definitiva. A experimentação também era uma prática essencial e as cores eram usadas puras, como saiam da bisnaga, sem misturas que tirassem seu aspecto vibrante. Um dos pensamentos de Matisse compartilhado em “Jazz” nos explica o modo com o artista via o mundo e sua arte: “Prisioneiro? Um artista nunca deve ser um prisioneiro de si mesmo, prisioneiro do estilo, prisioneiro da reputação, prisioneiro do sucesso etc…”.

O aspecto central na carreira de Matisse é a harmonização da linha e cor, e essa questão é resolvida em “Jazz”, onde a harmonia é encontrada ao artista desenhar diretamente na cor, através de recortes. Assim, o álbum é como uma resolução de toda a sua carreira. “O papel recortado me permite desenhar na cor. Trata-se para mim de uma simplificação. Em vez de desenhar contorno e aplicar a cor – um modificando o outro-, desenho diretamente na cor, que é mais justa na medida em que não é transposta. Essa simplificação garante exatidão ao unir os dois meios, tornando-os apenas um”, declarou Matisse anos atrás.

Cores, formas e sensações marcam a obra desse artista, que nos convida a mergulharmos em seu universo único de beleza e movimento.

Dica: Aqueles que quiserem uma experiência ainda mais imersiva, levem fones de ouvido e coloquem um pouco de Jazz para tocar enquanto observam as obras. Testem o que o pintor pretendia passar e desafiem sua imaginação a sentir os movimentos das gravuras.