Na segunda temporada de “Love”, Judd Apatow, roteirista e diretor de “O virgem de 40 anos” (2005), continua a tratar o Amor sob o mesmo olhar e percebe novidade naquilo que outros banalizam. Sua atenção dá a ver os pequenos detalhes da dinâmica confusa de dois moradores de uma Califórnia não bronzeada. O bom humor retira qualquer sentimentalismo da cena.

Gus: Eu achei que seria uma noite só dos caras…

Chris: E é. E agora estamos falando com garotas…

Gus: Certo. É que… Sei lá. Você não acha isso estranho, às vezes…?

Chris: O quê?

Gus: Essa coisa que estamos fazendo, sabe? Já não passamos desta fase? Um grupo de caras saindo juntos tentando dar em cima de garotas, flertando…?

Chris: Não. Isso é maravilhoso.

Gus: É que eu olho ao redor e só vejo um bando de vaginas e pênis gigantes dançando uns em volta dos outros.

Chris: Sim. E isso é lindo, cara!

Gus: Tanto faz. Estou me divertindo…

Gus está apaixonado e só quer saber de Mickey. A busca pela alma gêmea é mais antiga do que o mito narrado por Aristófanes (em “O banquete”, de Platão): éramos um duplo e, agora partidos, procuramos nossa outra metade. Até encontrar, há processos bastante tóxicos… No entanto, se para Romeu “só ri das chagas quem jamais foi ferido”, “Love” faz acreditar no contrário.

Os personagens não glamourizados – preferem ser nerds a príncipes do baile – desconstroem o Amor para aprofundar suas raízes. Partilhamos o cotidiano das relações de amizade e trabalho em torno do encontro de Mickey e Gus, em seus trinta e poucos anos. Descomprometidos com enlaces familiares, podem experimentar o prolongamento da leveza da adolescência na idade adulta.

Mas, os feromônios precisam lidar com os limites burgueses e esse jogo – mesmo se delicado – promove situações divertidíssimas. Afinal, quando começa a diferença entre estar apaixonado e ser viciado no outro? Com trilha sonora tão indie quanto seus personagens que refazem temas de filmes, “Love” é uma espécie de “Friends” em que todo mundo parece um pouco com Phoebe Buffay.

Por Carmen Filgueiras