O mercado da moda abraça vestuário feito para pessoas
independente do gênero

O gênero foi criado para separar as pessoas do sexo feminino das pessoas do sexo masculino. Desde então, tudo se tornou ferramenta para fazer essa distinção ser uma realidade. Existe “brinquedo de menino” e “brinquedo de menina”, comportamentos feminino e masculino. Os próprios conceitos de masculinidade e feminilidade, e também a moda. As mulheres precisam estar sempre fofas e arrumadinhas, com roupas em tons claros. Os homens não podem ser arrumados senão são chamados de gays ou pelo termo que inventaram para héteros que se arrumam – “metrossexual”.

A moda é uma ferramenta forte para expressar o que chamam de gênero. Mas demonstrar esse gênero de um jeito ou de outro vai mudá-lo? Se uma pessoa que se identifica como homem quiser colocar uma saia, ela será menos homem? Não. Porque roupa não tem gênero e nem poder de mudar seu gênero. E seguindo essa linha de pensamento, marcas de roupas começam a pensar cada vez mais em uma moda agênero, reconhecendo que vestimentas podem ser usadas por qualquer pessoa.

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A marca brasileira de moda infantil, PUC, lançou uma coleção de peças básicas em parceria com o estilista Alexandre Herchcovitch. Mostrando que não existe complexidade em colocar essa ideia em prática. Em entrevista para a revista Elle, o estilista declarou: “A moda infantil sem gênero sempre existiu. Quando você pensa em moda básica é na maioria sem gênero. Para a faixa etária que a coleção foi concebida, os corpos de meninos e meninas ainda são muito parecidos, as modelagens são básicas.”

Na infância, a roupa precisa ser confortável, flexível e estimular a brincadeira, a fantasia e o aprendizado independente de gênero. Não é roupa para menino ou para menina, é roupa para criança. Na primeira Guerra Mundial os tons pastéis passaram a ser usados em bebês, já antes disso era comum usar branco, independente do gênero. E também naquela época o rosa era a cor dos meninos, por ser considerada “mais decidida e forte” e as meninas usavam azul, por ser visto como um tom “mais delicado e amável”. Em 2017, nota-se que a sociedade inverteu as cores, mas ainda mantemos um padrão de moda infantil. Felizmente, uma nova geração de crianças questionadoras faz a indústria repensar seus produtos.

Personalidades que influenciaram a revolução na moda

A tendência veio para ficar. A moda agênero é um conceito fashion que nasce do entendimento que a roupa veste a pessoa e não o contrário. É a personalidade do consumidor que decide o que cai bem e não a cultura de que os clientes são cabides esperando para serem vestidos. Cada pessoa deve se vestir com o que bem entender sem ter que se encaixar em formatos de masculino e feminino. Por isso, a moda trabalha para que não seja necessário se apropriar de peças de um destes dois guarda-roupas para encontrar o que lhe agrade. Para isso, as marcas devem criar coleções com estilo, corte, história e qualidade que não levem em consideração a orientação, mas sim a personalidade do consumidor final.

Jaden Smith foi rosto da coleção feminina da Louis Vuitton vestindo uma saia. O artista já tem essa personalidade independente do seu trabalho para a marca. Por isso, a loja o escolheu para representar a geração que assimila os códigos da verdadeira liberdade. Jaden diz que usar saia vem tão naturalmente para ele como seria para uma mulher. Em entrevista para a revista GQ, jaden declarou: “Estou apenas expressando como me sinto no interior, o que realmente não é um jeito particular, porque todos os dias muda o que sinto sobre o mundo e eu mesmo. ”

Vivemos em um momento de empoderamento. O corpo é resistência e cada um pode escolher a identidade de gênero. As peças de roupa devem ser para quem quer que seja, o gênero não importa. O ser humano é único e cada um procura se adequar àquilo que acredita e se expressar à sua maneira. Vale lembrar que a moda unissex é diferente da moda sem gênero. O unissex define que certas peças de roupas são voltadas para homens e mulheres. O agênero quebra o padrão, e não define para quem são as roupas. Uma coleção com o gênero livre deve fazer a fusão entre os guarda-roupas feminino e masculino.

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O aclamado e histórico David Bowie também era conhecido por ter múltiplas personalidades associadas a diferentes estilos de roupas e maquiagem. O cantor influenciou a moda com looks questionadores. Eles transcendiam a questão de gênero de maneira direta e provocadora. A cada novo álbum era criado um personagem tão vanguardista quanto o anterior. Bowie quebrou barreiras com seu estilo, variando desde o jovem sério e engomado até personagens como Ziggy Stardust, sua personalidade andrógina, e Aladdin Sane. Com roupas extravagantes, o cantor fez da liberdade de se vestir a sua bandeira. Na moda e na música David Bowie sempre soube se reinventar sem ficar preso a padrões.

Reconhecer que a moda não precisa mais perpetuar essa ideia de gênero e que as pessoas vestem o que elas bem entendem é um passo muito importante. Porém, ainda há muito mais a ser feito. Não adianta lançar uma linha de roupas sem gênero e continuar tendo seções separadas. E roupas livres de gênero não significam roupas cinzas e sem corte. Saias, blusas, roupas curtas, justas, camisetões, estampas, todas essas roupas não têm gênero. A moda agênero nada mais é do que afirmar isso. As roupas são para todos e não existe “roupa de homem” e “roupa de mulher”.