O ano era 1936. Jogos Olímpicos de Berlim, na Alemanha. No auge do Nazismo, um jovem negro entrou para a história ao vencer no salto em distância e nas provas de velocidade do atletismo, deixando um estádio ao extremo do nervosismo. Mas quem era essa pessoa que foi capaz de calar um país inteiro em meio a um conflito civil? Oitenta e um ano depois, o nome do americano Jesse Owens ainda é contemplado como um dos maiores feitos da história do esporte. Para entender o que representou Owens, é necessário voltar ao passado.

Infância

Mais novo entre 10 filhos, Owens desde cedo teve que conviver com os problemas do racismo nos EUA. Aos nove anos, sua família mudou-se para Ohio para buscar melhores condições de vida, em meio a migração de negros para fora do eixo sul do país, por conta da segregação que havia. Durante a infância pobre trabalhou como frentista, entregador, repositor de vagões e até como reparador de calçados. Nos caminhos da vida, acabou descobrindo a paixão pela corrida. Com ótimos desempenhos no atletismo durante o ensino médio, Jesse acabou recebendo uma bolsa para estudar na Universidade do Estado de Ohio. Só aceitou depois que a instituição deu garantias que seu pai teria um emprego para sustentar a família. O ótimo desempenho nos competições nacionais deram a Jesse Owens a oportunidade de disputar os Jogos de Berlin.

Jogos Olímpicos de Berlim e a conquista

A edição dos Jogos de Berlim é a mais polêmica entre todas que já houveram. E o principal motivo para isso foi o contexto do qual estava inserido. Adolf Hitler, líder da Alemanha Nazista, queria aproveitar a oportunidade da realização dos Jogos para mostrar ao mundo a “superioridade” da raça ariana pela qual tanto defendia. O cenário para este momento era perfeito. Estádio Olímpico de Berlim lotado para acompanhar Lutz Long e a equipe alemã na conquista dos ouros nas provas de velocidade e de salto em distância. Contudo, eles não contavam com um imprevisto chamado Jesse Owens.

Athlete Jesse Owens (1913 - 1980) flies through the air during the long jump event at the Olympic Games in Berlin. He won 4 gold medals and Hitler left the stadium to avoid having to congratulate a black competitor.

Junho de 1936: Jesse Owens/ Foto: Central Press/Getty Images – Divulgação

Apesar de ser negro e norte-americano, Owens já era um superstar, principalmente pelos feitos realizados em competições anteriores. Mesmo com toda propaganda nazista para exaltar o atletas nacionais, o povo alemão já havia se rendido ao atleta. E a comprovação dessa euforia veio quando as disputas começaram. No dia 3 de agosto, a primeira conquista. Com o tempo de 10,3 segundos, Owens vencia os 100 metros rasos. Era o primeiro ouro do super atleta.

No dia seguinte, mais uma conquista. A vitória dessa vez ocorreu na disputa do salto em distância com a marca de 8, 05 metros, graças aos conselhos do rival alemão Lutz Long. Marca superada quase 25 anos depois nos Jogos de Roma.

No dia 5, venceu os 200 metros rasos. Terceiro ouro. No dia 9, a consagração final. Ouro no revesamento 4 x 100 metros. Quatro medalhas de ouro em apenas uma edição, algo inédito para época, para delírio do mundo e desespero dos nazistas.

Hitler, então, desceu as escadas da tribuna de honra do estádio e entregou pelas próprias mãos a quarta medalha de ouro. Até sua morte, Owens sempre afirmou que os alemãs foram muito cordiais com ele, e que Hitler não havia proferido nenhuma palavra de ódio ou maus tratos ao atleta. A dor que mais machucou o atleta veio do próprio povo. Em sua biografia, ele afirma que o então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, não o convidou para cerimônia em que os atletas eram recebidos na Casa Brasa, nem foi capaz de mandar uma carta parabenizando-o. Mesmo recebendo honrarias pelos feitos em Berlim, Owens teve que usar os elevadores de carga para recebê-los. Apenas mais uma mostra o forte segregamento racial que vivia os Estados Unidos naquela época.

Morte e leilão das medalhas 

Em 1980, aos 66 anos, Owens faleceu vítima de câncer de pulmão, adquirido por conta de um maço de cigarro fumado por dia durante 35 anos. Como último pedido, o atleta queria que o Presidente Jimmy Carter não confirmasse o boicote do país aos Jogos de Moscou, mas não adiantou. Em agosto deste ano, duas medalhas conquistadas nos Jogos de Berlim vão ser leiloadas.