Dorothea Lange foi uma das fotógrafas mais importantes da história mundial. Nasceu em Hoboken, Nova Jersey, em maio de 1895, e foi batizada como Dorothea Nutzhorn. Filha de imigrantes alemães, passou por dois incidentes em sua infância que mudariam sua vida: o primeiro, aos sete anos, foi o diagnóstico de poliomielite, que deixou sequelas de uma deficiência crônica em sua perna direita, que a fez mancar até o fim da vida; e aos doze anos, quando seus pais se divorciaram e seu pai abandonou a família.

Ambiciosa, porém extremamente sensível, Dorothea resolveu seguir adiante e deixar a raiva de sua família desajeitada para trás. O início de sua carreira foi incentivado por Arnold Genthe, que lhe apresentou a primeira câmera fotográfica. Depois disso ela se formou em fotografia pela Columbia University, em Nova York. Em 1918, mudou-se para São Francisco, onde usou suas habilidades recém-adquiridas em fotografia para montar um estúdio. Nessa época, casou-se com seu primeiro marido, o pintor Maynard Dixon, e teve dois filhos, Daniel e John.

A jovem já tinha escolhido usar o nome de solteira de sua mãe, e assinava seus trabalhos como Dorothea Lange. Pouco depois do nascimento de seu filho John, Lange aproveitou o momento que parecia perdido para grande parte dos americanos.

A crise de 1929, mundialmente conhecida como a Grande Depressão, levou a fotógrafa para fora de seu estúdio, capturando a situação nas ruas. Isso fez com que Lange tivesse a chance de tornar-se parte de uma equipe de fotógrafos do governo americano na década de 30, numa instituição chamada Farm Security Administration (FSA), criada com o objetivo de combater a pobreza nas zonas rurais. Junto com outros fotógrafos, Lange documentava a vida de agricultores duramente atingidos pelo colapso econômico do país. Esse universo garantiu o clique mais importante de Lange, “Migrant Mother” (foto em destaque acima). A mulher fotografada era a imigrante Florence Owens Thompson, que na foto aparece com três de seus sete filhos.

No período entre 1935 e 1939, o sofrimento, a miséria e as condições desumanas das famílias rurais e imigrantes foram tema das fotografias de Lange para a FSA. Para empoderar ainda mais o trabalho da instituição, as fotos eram distribuídas para os jornais do país inteiro de forma gratuita, o que tornou-as ainda mais representativas.

Lange descreveu essa foto como “menino de 11 anos trabalhando com sua mãe – foto tirada ao meio dia, temperatura de 41 graus”

Em 1941, a fotógrafa foi premiada com uma bolsa da Fundação Guggenheim para excelência em fotografia. No entanto, ela abandonou antes para registrar a evacuação forçada de americanos descendentes de japoneses e imigrantes, para campos de alojamento, após o ataque a Pearl Harbor. A série que Dorothea Lange registrou nesse período era tão crítica e poderosa que o governo americano confiscou todo o material. O registro mostrava crianças nipo-americanas jurando lealdade à bandeira antes de serem enviadas aos campos. Lange queria passar a mensagem de uma época assustadora, onde pessoas eram detidas sem cometerem crimes e existia um imenso descaso do governo que negligenciava os direitos delas. Atualmente, as fotos estão disponíveis no site do Arquivo Nacional dos Estados Unidos e também na Biblioteca Bancroft, na Universidade da Califórnia.

A dona de uma das fotos mais famosas do século 20 acreditava fortemente que era imprescindível viver uma “vida visual” ou, em outras palavras, permitir que sua lente desse voz à pessoas esquecidas por causa de suas condições sócio econômicas. Lange usava a fotografia como ferramenta para comunicar e documentar os momentos difíceis, porém repleto de beleza, que ela presenciou. Seu segundo marido, Paul Taylor, professor de economia, contribuiu bastante para torná-la ainda mais politizada.

Dorothea Lange e sua ferramenta mais valiosa: sua câmera.

Dorothea Lange acreditava que a câmera era um instrumento de democracia. Por conta de seu trabalho ferrenho documentando a miséria desses trabalhadores agrícolas da Califórnia, teve sua fotografia icônica exposta no mundo todo. Faleceu em 1965, aos 70 anos, em decorrência de um câncer. Em 2006, uma escola em Nipomo, na Califórnia, foi batizada como Dorothea Lange, em homenagem à fotógrafa. Mesmo anos após sua morte, sua filosofia pessoal continua a influenciar fotógrafos de todas as gerações e seu trabalho mostra a importância de enxergar o outro além do que se vê por fora: Ela sabia falar e ouvir com sua câmera.

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