Parte 3

A sala era decorada com as mais diversas imagens de gatos de porcelana, cachorros de porcelana, anjos de porcelana, vasilhas de porcelana e todos os tipos de porcelanatos possíveis. Era tanta coisa que parecia estar a ponto de se quebrar que meu tio teve medo de pisar na sala e ver tudo desabar. A chuva do lado de fora sequer parecia atrapalhar a paz no local, balançando levemente com o vento e com a água que chegavam do lado de fora.

A senhora fez sinal para meu tio e ele enfim entrou, curioso e um pouco temeroso pela estranheza da situação. As roupas dele estavam molhadas, o corpo gelado e cansado, haviam várias cadeiras espalhadas pelo local e ele não deixava de se imaginar repousando em uma delas. A lareira de dentro da casa (por que motivos haveria uma lareira na casa de alguém no Rio de Janeiro?) tornava o ambiente agradável e morno, uma aura aconchegante preenchia a sala.

Um outro sorriso se abriu no rosto da senhora, ela indicou uma das poltronas vazias, próximas da lareira. Uma mesa ficava entr tio Joaquim e a mulher, era baixa, com vários copos e pratos usados. “Perdão ela bagunça”, ela disse calmamente, “por que você não vai ao banheiro trocar essa roupa molhada enquanto eu preparo algo? Tenho alguns roupões e roupas de baixo limpas de meu filho que você talvez possa usar” ela afirmou tranquila. Meu tio abriu a boca para agradecer, mas foi interrompido antes disso, “Vamos, vamos, você está molhando a casa inteira, se tremendo todo, agradeça depois. Siga pela primeira porta à esquerda no corredor”. Joaquim, se jeito para falar com a mulher, obedeceu-a sem pensar duas vezes. O corredor era mais longo do que parecia à primeira vista, haviam inúmeras portas de ambos os lados, todas fechadas. A porta que dava para o banheiro abriu-se diante do giro da maçaneta e revelou um espaço reduto, mas confortável, com assento sanitário, pia e chuveiro acoplado à uma banheira. Várias toalhas estavam espalhadas, o local cheirava bem e meu tio logo se despiu, secou-se e procurou por um roupão para usar. Encontrou também ceroulas e vestiu-as, eram do tamanho certo e estavam confortáveis. Ele vestiu uma camisa branca de algodão que encontrou, mas não achou calças, por isso amarrou bem o roupão, reuniu as roupas molhadas e voltou para a sala.

A senhora continuava em sua cadeira de balanço tricotando calmamente sem olhar para o que fazia. A bola de lã parecia não ter fim e rolava e rolava enquanto seus fios se esticavam naquilo que parecia ser uma longa trama cheia de padrões intricados em desenhos formando rostos e pessoas. Na mesinha diante deles, contudo, os pratos e talheres sujos foram substituídos por pratos novos e comida. Pedaços de bolos e tortas expunham-se com seus cheios preenchendo a sala de porcelana e fomentando o desejo de Joaquim por comida. Ele estava cansado e aquilo tudo parecia um sonho, talvez estivesse de fato sonhando e na realidade o corpo dele estivesse caído em uma vala suja de lama esperando para despertar. “Sente-se, sente-se, por favor, coma alguma coisa, o chá está quase pronto”, disse a velha com uma voz simpática, mas ainda sim matronal, era difícil não ouvir o que ela falava, “Eu não esperava outro convidado hoje, como pode ver tive visitas agora pouco, mas elas ficaram com medo da chuva e se foram. Bem, o que espanta alguns atrai outros, não é mesmo?”.

Um trovão ressoou distante, a mulher olhou pela janela e sorriu levemente.

“Quem é você?”, quis saber tio Joaquim enquanto se ajeitava na poltrona de frente para a senhora.

“Pode me chamar de Pandora, tia Pandora, caso prefira algo mais informal e familiar”, respondeu a senhora sem parar de tricotar. “Eu vivo por aqui e sempre deixo minha porta aberta para qualquer um que se aventure na mata e acabe se perdendo”, ela olhou pela janela outra vez e pareceu congelar, sem mover um músculo sequer, “Algumas pessoas precisam parar aqui, outras, como você, caem por sorte diante de minha porta, procurando por algo. No seu caso, era conforto o que procurava, e conforto é o que não falta aqui”. Pandora sorriu e meu tio não ficou mais tranquilo, havia algo de errado com ela, ele dizia, mas não sabia o que era.

‘Ela tinha uma aparência de ser muito mais velha do que realmente era, não em anos, mas em séculos, quase. E não tinha essa aparência por conta de rugas ou pelo corpo, na verdade, ela parecia muito saudável e bem conservada, mas o modo como falava era devagar, firme, como se soubesse ter tempo para dizer tudo o que precisava’. Eu me lembro que essas foram as palavras exatas de meu tio naquele dia enquanto nos sentávamos no chão da sala lá de casa.

“Você mora sozinha aqui?”, quis saber Joaquim. Ele, inconscientemente, esticou a mão para pegar uma torta, mas reteve-se cauteloso ao pensar que o alimento poderia estar envenenado.

“Pode pegar, eu mesma vou comer agora”, disse Pandora enquanto deixava seu tricô de lado, dobrava a manta cheia de desenhos que fazia, e esticava a mão para um dos pratos de comida. “Eu aconselho a comer a torta de frango com palmito primeiro, está deliciosa, saiu do forno agora pouco”, ela pegou uma das tortas e escolheu um pequeno garfo brilhante, que parecia ser de prata. “Não, eu não moro sozinha aqui”, disse a senhora, toda tranquila. Meu tio olhou para os lados procurando por sinais de outra pessoa, mas não viu ninguém por perto. Talvez as roupas fossem dessa pessoa que morava com ela, seria impossível uma mulher daquela idade viver em meio à mata sozinha, sem precisar de ajuda. “Você vai conhecê-lo daqui a pouco, ele está terminando de fazer o chá. É também um pouco tímido e demora a aparecer para as visitas”. Meu tio não entendeu muito bem o que ela dizia, mas a fome dele falou mais alto e deixou aquele assunto de lado por um momento para comer.

Ele escolheu uma das tortas como a de Pandora, frango com palmito. A comida fumegava e cheirava muito bem, ele pegou uma colher para comer e partiu um pedaço pequeno para si, comendo em pequenas porções, salivando pelo cheiro e pela expectativa a cada garfada. ‘A comida era excelente, sem sombra de dúvidas excelente, eu não poderia ter sonhado com aquilo, te garanto isso’, disse-me meu tio ao contar a história. O recheio era bem equilibrado e o palmito de excelente qualidade, o frango estava bem temperado e no ponto certo.

“A torta está muito boa”, ele elogiou.

Pandora sorriu agradecida. “A receita é minha, mas hoje não fui eu quem fiz”, ela respondeu depois de terminar de mastigar vagarosamente.

“E por que você vive aqui no meio do mato? Não é um local de fácil acesso, certo?”, Joaquim puxou assunto enquanto comia. A cada garfada ele se sentia mais relaxado e notava o quanto sentia falta de coisas como aquela, da comida quente e saborosa, de um local confortável para deitar, de roupas confortáveis, de uma sala quente e fechada.

“Eu nunca gostei muito de cidades grandes, rapaz, nem de movimentação. Você perde duas coisas quando vive no meio das pessoas, a luz das estrelas no céu noturno e o lento sussurrar das árvores em dias de brisa fraca”, Pandora respondeu depois de terminar seu pedaço de torta e deixar o prato sobre a mesa. Ela pegou a manta e voltou a tricotar calmamente, olhando para meu tio de maneira curiosa. “Você parece pensar assim também, não é verdade? Está um pouco longe de casa”, ela observou com os olhos castanho-escuros (quase negros) brilhando de maneira amigável.

“Às vezes parece que estou no meio de um turbilhão de informações e não consigo prestar atenção no que é importante. Esses meses eu passei muito estressado, então decidi que precisava de descanso de tudo um pouco, eu acho”, meu tio respondeu.

‘Eu não sei porque falei aquilo para ela, mas parecia tão fácil entregar meus dilemas e problemas àquela senhora simpática que as palavras simplesmente saíam sem minha permissão’, disse-me Joaquim ao contar a história.

“Entendo, entendo. Muito peso para carregar, não é mesmo? Muita responsabilidade… às vezes precisamos deixar as coisas um pouco de lado para recuperarmos nossa força”, Pandora tricotava devagar, mas as mãos dela acompanham o ritmo das palavras que pronunciava em um sotaque desconhecido. Um relógio tiquetaqueava baixo em algum lugar da casa, mas meu tio não era capaz de identificar onde estava o relógio em meio a tantos objetos de porcelana, que balançavam devagar por conta da chuva ainda sacudindo o chalé no meio da mata.

Eles ficaram um tempo em silêncio enquanto meu tio terminava de comer sua torta e tentava não falar mais nada. As palavras se acumulavam na garganta dele quase como vômito precisando ser liberado, ele esteve por tanto tempo sob pressão que, ali, relaxado e sem preocupações, parecia fácil falar o que sofria. Uma parte dele sabia que aquilo não era o certo, e por isso ele ficou em silêncio, usando da comida como uma desculpa para não responder. A torta, ele notou, estava sempre morna, nunca muito quente, e também não parecia esfriar.

“Você parece não querer falar desse assunto ainda, eu entendo meu rapaz, eu entendo”, Pandora suspirou e continuou tricotando. Ela não pareceu ficar desapontada com o silêncio de meu tio, na verdade, era como se ela esperasse por aquilo. “Bem, se meus ouvidos não se enganam eu posso imaginar que a água esteja fervendo. O chá logo deve vir”. E era verdade, depois que a senhora falou, tio Joaquim pôde ouvir o assobio de uma chaleira esquentando. Ele se sentava de costas para o corredor onde estava o banheiro e as outras portas fechadas, por isso, apenas ouviu o que deveria ser a porta da cozinha se abrindo e saindo alguém lá de dentro.

Passos curtos e leves, quase sem nenhum ruído, meio arrastados como se não se desprendessem completamente do chão, saíram de trás de tio Joaquim até que o responsável pelos chás, o companheiro de Pandora naquele chalé no meio do nada, surgiu do lado direito de meu tio, assustando-o. A pessoa que levava a bandeja com o chá não era de longe uma pessoa. Era uma criatura baixa, com a altura de uma criança, um rosto largo e quase chato, com pelos ao redor da cabeça como uma borda felpuda, olhos grandes e saltados, uma boca larga esticada em um sorriso constante, braços compridos e finos; a criatura usava um macacão jeans e uma camisa branca por baixo do conjunto. O que deveria ser a pele no rosto era levemente amarelado e lembrava muito a textura de papel velho.

Tio Joaquim, naquele momento, teve a certeza de que estava desmaiado em algum lugar no meio da mata, depois de ter tropeçado enquanto corria para fugir da chuva.

“Esse é o sr. Girassol. Ele é meu funcionário nas horas vagas e amigo em boa parte do tempo”, disse Pandora, calmamente, como se aquela fosse uma situação normal. “Ele parece diferente, mas tem um coração como todos nós”.

‘Eu me lembro de ter olhado para aquela criatura inúmeras vezes, piscando o tempo todo e tentando acordar, mas nada funcionava. O tal sr. Girassol continuava ali me olhando calmamente enquanto eu arregalava os olhos e beliscava meus braços’, foi o que meu tio me contou. Ao falar aquilo ele alisava o bigode, pensativo. Me lembro que eu comia meus biscoitos pensativo e imaginava Madalena como esse sr. Girassol, era uma imagem engraçada na época, não sei hoje o porquê.

A estranha criatura serviu chá primeiro para Pandora, depois encheu dois copos, deixou um sobre a mesa, pegou o segundo e foi embora.

“Ele ficou um pouco ofendido por sua reação”, disse a mulher entre pequenos goles no chá quente e fumegante, que soltava um cheiro de menta pela sala. “Acho que deveria pedir desculpas quando ele voltar para pegar mais chá, o Girassol adora chá”, contou a mulher.

Meu tio pegou a xícara que era dele e bebeu devagar. Estava forte e pouco adoçado, à maneira como ele gostava do café, ainda assim o gosto não o atraiu muito.

“Está bom, mas eu prefiro café”, ele contou, baixo, um pouco sem graça por falar aquilo de maneira tão direta. Ele bebeu tudo, todavia, e pegou mais um pedaço de torta. Não havia notado, mas estava faminto.

“Basta pedir para que o Girassol faça café depois, ele vai adorar lhe ser útil. O pobre coitado passa tempo demais comigo e poucas visitas lhe dão atenção”, Pandora contou. Ao falar aquilo ela pareceu assumir um ar parcialmente maternal, como uma mãe que reconhece os problemas do filho, mas sabe que não pode ajudar. Ela sorriu para tio Joaquim outra vez, como se a situação fosse de fato normal. Outro trovão, dessa vez mais próximo, fez o chalé balançar mais, como se tivesse sido atingido por algo.

Eles beberam chá e comeram mais um pouco. Pandora comeu uma torta de morango e bebeu duas xícaras de chá, tio Joaquim comeu três tortas de frango, uma de morango e bebeu duas xícaras de chá. O tempo passou e o relógio bateu algumas vezes, meu tio não se lembrava quantas. Ele parecia estar lá havia muito tempo, mas o relógio tiquetaqueava devagar e as horas se arrastavam ali dentro. Sr. Girassol voltou para a sala e meu tio agradeceu pelo chá, a criatura abriu ainda mais o sorriso no rosto largo e planificado para depois fazer uma mesura formal dobrando as pernas. Joaquim pediu por café e o Girassol fez que sim com a cabeça, meneando-a devagar. Ele recolheu os pratos sujos e saiu da sala. Se a situação era anormal meu tio parecia não se importar mais, para ele ou aquilo tudo era um sonho ou a visão dele estava falhando pelo cansaço.

“Bem, acho que agora que está alimentado, podemos esperar que alguém saia de alguma das portas daqui de casa para nos acompanhar e contar uma história até que a chuva passe”, disse Pandora, anunciando mais uma loucura naquele chalé.

“Como assim? Achei que morasse sozinha e estivéssemos no meio da mata”, disse tio Joaquim assustado. As coisas pareciam oscilar tremendamente entre a agradabilíssima normalidade e a mais estranha loucura naquela sala cheia de objetos de porcelana.

“E estávamos, mas uma mente confusa exige tempo para se adequar e histórias para entender pelo que passa, por isso logo baterão à porta procurando por você e teremos mais alguém à mesa”, disse Pandora e ela sorriu. O sr. Girassol sentou-se em uma das outras poltronas livres e ficou parado, parecendo um assustador boneco de pano que vez ou outra piscava os grandes olhos sem muita expressão.

No meio da tempestade, alguém bateu à porta do chalé escondido na mata.

“Parece que nosso primeiro convidado chegou para contar sua história. Pode entrar”, disse Pandora sorrindo.

Daquele momento em diante meu tio disse que não sabia no que mais pensar.

Por João Scaldini