Foi um conturbado início de ano, eu me lembro bem. Janeiro costuma ser um mês de transição, mas poucos janeiros foram tão movimentados quanto aquele de dez anos atrás.

O canto dos pássaros. No sul de minas, perdido em qualquer cidadezinha sem nome, o canto dos pássaros substitui a confusão de carros, buzinas e vozes sem donos dos moradores das metrópoles brasileiras. Eu já visitei todas. Naquela época já havia visitado todas, do Ayopoque ao Chuí.

O canto dos pássaros, sim, era tranquilizador para mim, um homem de cidade grande quase a vida toda, esse som tão natural e tranquilo. Sob a sombra de uma árvore distante da estrada eu repousava em silêncio, quase adormecido, nesse início de janeiro. A vegetação reluzia forte e viva por todos os lados. À minha frente estava um descampado que corria longo e cheio de ondulações até terminar abruptamente na estrada de terra que ia de uma cidadezinha à outra; às minhas costas, um dos poucos pedaços de Mata Atlântica com tamanho suficiente para cobrir dois ou três morros e aparecer em algum mapa.

Eu não tinha nada comigo senão a roupa do corpo. O carro estava largado na estrada, sob o sol, vidros fechados e portas destrancadas. Eu usava uma camisa polo branca e uma calça jeans azul, nos meus bolsos estavam a minha carteira e a chave do carro apenas. O dinheiro estava no veículo, perto da estrada. Meu tênis estava ao meu lado e, meus pés, descalços e livres para tocar a vegetação.

O ar do campo é diferente do ar da cidade porque o primeiro tem como sabor a liberdade. Eu enchia os pulmões com essa liberdade e expirava devagar, com calma. Me lembro de ter olhado para o céu azul quase sem nuvens e me perguntado como poderia um tempo tão bom carregar tantas tempestades e confusões mais embaixo, na terra. Não havia nada de errado com o sol, com o céu, com as nuvens brancas e pequenas flutuando ao acaso pela atmosfera, com a grama balançando, com os pássaros cantando e com o lento sussurrar das árvores agitadas bela brisa suave e gelada daquele meio de tarde. A natureza está em harmonia até mesmo em momentos de fúria, os homens estão sempre em fúria, não há harmonia.

Uma formiga passou por cima do meu pé e eu gastei longos minutos observando-a explorar meus dedos, meu tornozelo e, por fim, a palma do meu pé, antes de decidir que não havia nada lá digno de alguma exploração mais aprofundada e partir em direção à grama.

Dez anos atrás. Sim, tudo aconteceu dez anos atrás e ainda parece a mim hoje tão real que poderia ter acontecido agora.

Gritos, taças de champanhe e comemorações pontuadas por promessas de ano-novo, isso resume a virada de cada ciclo solar que nós, pequenos seres da Terra, comemoramos repetidamente. Roupas brancas, maquiagem em excesso, álcool, comida, regalias terrenas, regalias corporais, quem não gosta de sentir prazer? Beijos, sexo debaixo da escada para ninguém ver, quem não gosta de provocar prazer? Abraços, dinheiro nos bolsos, sorrisos nos rostos, mãos delicadas de quem nunca trabalhou de verdade na vida, quem não gosta de viver sem preocupação? Garçons saindo de um lado

para o outro com bandejas, entregando comida, bebida, até mesmo drogas, tenho certeza, a seus patrões, eu quero saber onde está o ano-novo cheio de prazeres sem preocupações deles. A festa segue quase inabalável noite adentro, sem questionar os resultados no dia seguinte, os prejuízos.

Nos dez segundos que antecedem o marco zero de um novo ano há, nos olhos ainda capazes de brilharem sãos, um pouco de inocência. Somos todos crianças na contagem regressiva de um novo ano, agitados e animados quanto ao que nos aguarda no próximo calendário, nos próximos dozes meses. Dez segundos depois do começo do ano e já somos todos os mesmos que esperavam do outro lado, em trinta e um de dezembro de qualquer ano, às vinte e três horas e quarenta e nove segundos. Todo ano temos apenas vinte segundos de inocência e felicidade.

Lançam foguetes aos céus como forma de acordar os deuses que escondemos no sótão e esquecemos lá. Amargor é veneno destilado forte, não cessa e não esquece, os deuses já não voltam para a humanidade mais. Nem deuses nem amor, somos obrigados a viver com o prazer momentâneo.

E sobre o prazer, muito ainda há a se dizer.

Mais bebidas em taças finas, mais bebidas em copos largos, mais bebida entornada diretamente nas bocas sedentas pela doce desculpa da embriaguez. Mais e mais eles sentem sede e não sabem do que, por isso compensam com álcool, se não os sacia, ao menos alivia a culpa que acomete cada um por saberem estar perdidos e terem a consciência de que jogaram fora os mapas. Mais comida nos estômagos cheios, mais e mais, doces, salgados, canapés, coxinhas, bolos e tortas, o que for posto na mesa será empurrado esôfago abaixo. Tudo isso é apenas artilharia para o vômito do dia seguinte ou da noite de ano-novo, isso depende da resistência de cada um. Se não for vômito, é merda, por um extremo ou pelo outro desperdiçamos um pouco. Mais sexo, agora no banheiro, apertados contra a cabine suja cheia de recados pornográficos ou frases de falsos pensamentos, mais prazer, mais marcas de arranhão nas costas, mais chupões nos pescoços, braços e peitos, mais gemidos baixos para que ninguém desconfie, mais sexo. Se tem algo de que ninguém abre mão é o sexo. Eles o farão antes da festa para chegarem contentes, farão durante a festa para que a adrenalina muito pouco acrescente ao gozo, farão depois da festa quando estiverem exaustos de tanto comemorar pelo pouco que tem a mostrar para o mundo.

Chega a manhã e estão todos cansados, caídos em suas camas ou na de terceiros, cheios de comida e bebida nas barrigas estufadas pela riqueza, as roupas caras desalinhadas e sujas, as maquiagens borradas. São cadáveres logo pela manhã que se recuperam dessa curta morte quando já é tarde, para lá de meio-dia, virando noite quase. Alinham-se outra vez, põem nos rostos sorrisos-máscaras, saem às ruas com uma gentileza emprestada de livros que nunca leram, e seguem suas vidas até os próximos anos-novos que os deuses que eles esqueceram os protejam de qualquer perigo no mundo caótico travestido de ordeiro.

Se até esse momento minha descrição de como vejo o mundo e os primeiros segundos de janeiro não te assustaram, saiba que as festas da minha família são três vezes piores. Mas, para recordar-me do que é, de fato, importante, precisarei pular, por hora, os detalhes de meu festim dias antes.

Voltemos ao campo, de volta ao campo verde e ondulado para o qual eu estava sentado de frente dez anos atrás.

Uma borboleta saiu do meio dos galhos cheios de folhas verdes da árvore na qual eu me encostava e pousou em uma flor branca próxima de mim. O inseto tinha as asas azuis e agitava-as devagar, abrindo e fechando, apoiado nas pétalas delicadas da pequena flor branca a uns dois metros de mim. Com minha perna esticada, eu mexi os dedos dos meus pés. Lembro-me da sensação, fazia cócegas encostar com a palma dos pés depois de tanto tempo confinado a meias, sapatos e pisos de madeira, linóleo ou azulejo.

A borboleta ficou um tempo sobre a flor, depois levantou voo e saiu batendo as asas para o meio do campo, longe dali, em direção à estrada. Eu a acompanhei com o olhar até perdê-la de vista nas baixas colinas verdes. Foi uma sensação ruim, quase uma sensação de morte, deixar de ver a borboleta azul. Suspirei desencantado. O pequeno encanto na forma de mini-asas azuis deixou para trás a memória de sua cor e nada mais. Eu me levantei devagar, mais engatinhei do que andei na verdade, e fui até a flor branca. Minha mão tocou o caule delicado e flexível da flor, estive prestes a arrancá-la dali para levá-la junto de mim até meu local de repouso sob a árvore às margens daquilo que notei, finalmente, ser um pasto.

Apertei minha mão ao redor do caule, os punhos cerrados, mas não arranquei a flor branca. Seria fácil levá-la comigo, mas como voltariam as borboletas se, por inveja, eu tirasse da terra aquilo que as atraía até ali e, consequentemente, me encantavam tanto? Dizer que não tive coragem seria um gesto de demérito com meu eu passado, pede-se mais coragem em negar uma atitude impensada do que realizá-la a qualquer hora.

Cheguei perto da flor e senti seu aroma. Levantei-me e voltei ao meu local de repouso. O dia estava quente e por isso arranquei a camisa, ficando com o peito nu às sombras da árvore. Era refrescante sentir bater ao peito a brisa da tarde. Respirar e sentir aquilo que se inspira, isso carrega mais sabedoria do que muitos podem imaginar. Segui com os olhos o fluxo do vento, desleixado demais para ter um caminho, marcado na vegetação que se dobra flexível às forças do ar.

Meus braços caíam inertes ao lado do corpo, sem ter muito o que fazer, agradecidos por isso. Em meados da década de noventa, trabalhar em um escritório apertado digitando no teclado amarelado de um computador velho e cheio de ruídos, era o que muitas pessoas viam como o emprego do futuro. “Esqueçam as fábricas e os serviços informais, esqueçam os serviços junto ao já tombado governo militar, esqueçam tudo isso: estamos entrando na era da informática!”, ou foi o que nos disseram. Esqueceram de dizer, contudo, que isso mais se aplicava aos Estados Unidos com sua economia alinhada e tecnologia de ponta do que o Brasil sempre em crise e sem empresas nacionais apostando no desenvolvimento tecnológico individual. O trabalhador de escritório é o operário das fábricas têxteis da nova era. As lesões são menores, mas exige-se tanto quanto e com ainda menos liberdade.

Estava muito quente, tão quente que eu decidi tirar meu jeans e ficar apenas de cueca na grama. Não senti falsos pudores ao retirar a roupa, não haviam olhos mirando com julgamento que pudessem me ver tão misturado ao todo que era o pasto e o bosque atrás de mim. Coloquei a calça debaixo de minhas pernas para não ser muito importunado pelo mato e por outros insetos, pus minha camisa sobre meu tênis para não

entrar alguma aranha ou escorpião, e deixei de lado minhas preocupações enquanto olhava para o céu.

Devaneios são sonhos acordados e cheios de mensagens implícitas. Eles ocorrem quando menos esperamos e quando mais precisamos. Nosso subconsciente sabe exatamente o que precisamos descobrir, mas pelo esporte do aprendizado fornece poucas dicas até termos nossa epifania. Eu, naquela hora, ainda não devaneava de maneira completa, mas já tinha vislumbres do passado, e esse é o primeiro passo para ser carregado devagar para longe da realidade. Sobre meu passado no Rio de Janeiro, algumas coisas são marcantes.

Em meados da década de setenta, preso na loucura que foi o início da ditadura militar, meus pais viviam em um dos bairros mais tradicionais e tranquilos do Rio. Tínhamos uma casa grande com pomar nos fundos. Éramos eu, meus pais, e dois irmãos e duas irmãs mais velhas. Eu sou até hoje o caçula. Meu pai faleceu cinco anos atrás, na virada do milênio, quando fez exatamente seis anos que eu visitei o pasto verde e ondulado. Minha mãe ainda vive, agora em uma pensão no interior de Minas. Meu avô era de Belo Horizonte e minha avó de Petrópolis, eles tiveram sete filhos, entre eles meu pai, o terceiro a nascer. Minha mãe era filha única de uma família do Rio, donos de uma rede de farmácias.

O casamento de meus pais sempre foi confuso. Eles estavam casados no papel, mas nunca haviam se casado na igreja. Diziam que não queriam algo tão importante quanto o aval de Deus, pois poderiam querer se separar e não seriam capazes. Ou isso é o que diziam para ambas as famílias, a verdade, e eu só fui descobrir anos depois, é que ambos eram ateus e não tinham a menor vontade de casar no altar da igreja sendo autorizados por um padre qualquer a serem felizes como já eram antes. O casamento deles estava tranquilo até o nascimento do quarto filho, meu irmão mais velho Samuel, depois as coisas começaram a desandar. Eu nasci, e a situação não melhorou muito. Recebi todo o carinho e cuidado que possam imaginar, fui uma criança feliz, mas entre meus pais a relação não ruía por pura força de vontade dos dois, eles queriam manter um ambiente familiar tranquilo para todos nós.

Pouco a pouco meus irmãos foram saindo de casa, até que restavam apenas eu e Samuel. Ele é cinco anos mais velho do que eu, tem os cabelos cacheados e escuros, olhos castanhos e um rosto bonito, bronzeado, de surfista. Eu sou loiro, olhos azuis escuros, cabelos lisos que se não fossem cortados curtos seriam um emaranhado amarrado em um rabo-de-cavalo. Eu já usei rabo de cavalo, minha adolescência quase toda foi usando rabo-de-cavalo. Hoje o cabelo é curto, rente ao crânio, pela necessidade de ser ágil durante a semana, além do mais, meu emprego não permitiria que continuasse assim. Samuel era forte e atlético, sempre praticando esportes quando não estava em casa estudando. Com o passar dos anos ele saía cada vez mais e estudava cada vez menos, virou surfista aos vinte e três e viaja o Brasil seguindo o litoral desde então. Naquela época ele tinha quinze e eu tinha dez. Fui uma criança magra e desajeitada, com óculos grandes e redondos, sempre incomodado com algo, a expressão fechada e as roupas desalinhadas para o horror da minha avó materna que visitávamos vez ou outra no Botafogo.

Nesse período meus pais brigavam quase todos os dias por motivos que pouco entendia. Eles discutiam durante a tarde pouco antes de jantarmos, eles discutiam pela manhã quando acordavam um do lado do outro (até papai ser mandado por dois meses para o sofá), eles brigavam à noite quando iam dormir de cara amarrada para

começarem outro dia. Todas as vezes em que brigavam, eu nunca encontrava Samuel. Foi também um período em que ele se mostrou distante e irritado, provavelmente por conta das brigas. Acho que por isso ele ficava tanto tempo fora de casa e voltava com os olhos vermelhos, ele chorava escondido. Pensava isso naquela época, mas hoje, com certa cautela, creio que não seja isso. Quando, no pasto, recordava desses anos no Rio, não me dei conta do real motivo para as saídas de Samuel, mas agora já tenho um pouco mais de certeza. Enfim, eu ficava, aos dez anos, sozinho em casa com pais que não se entendiam. Eles gritavam um com o outro, e quando gritavam um com o outro eu sentia as paredes pequenas demais para mim e para tanto ódio, por isso escapava para o pomar no terreno do fundo, e subia em uma goiabeira, apoiado nos ramos fortes próximos do tronco central. Ficava horas na goiabeira até darem pela minha falta e me chamarem. Eu ia. Ia quieto e sorrateiro, sem dizer palavra alguma quanto à onde estive. Derrubaram minha goiabeira quando fiz quatorze anos, mas isso é outra história.

Lembro que durante as férias de setenta e cinco eu ficava em casa sozinho. Não sozinho de fato, havia Madalena, a doméstica que cantarolava o dia todo. Ela era gorda e risonha, falava de modo engraçado e sempre me deixava comer um biscoito a mais depois do almoço. Meus pais trabalhavam muito e não ficavam em casa o tempo todo, por isso ela cuidava de mim. Era em dias assim, em que eu estava sozinho em casa lendo algo ou brincando com meu pião preto com listras vermelhas, que meu tio vinha me visitar.

Ele era dois anos mais novo do que meu pai. Tinha sempre um sorriso no rosto e uma piada para contar. Nas festas de família era o que menos bebia e o que mais falava. Ambas as coisas eram abundantes no resto, mas ele sempre as fazia com mais estilo. Se bebia, bebia whisky de um cantil de metal que levava no bolso, ou então bebia absinto e desaparecia a festa inteira, voltando apenas no final todo suado e descabelado, com as camisas de botões dele tortas. Se falava, falava bem e contava histórias dos amigos dele e as dele também. Viajou o mundo quase todo, faltavam apenas os “países vermelhos”, ele dizia com um sorriso cúmplice de quem sabia uma piada que ninguém mais sabia. Meu tio Joaquim, salvador de tarde monótonas nas férias e em finais de semana ridiculamente calmos na antiga capital do Brasil.

Foi no meio de minhas férias, em uma tarde chuvosa de Julho, que Joaquim me visitou. Ele usava naquele dia, disso eu consigo bem me lembrar, uma camisa azul com um dos botões faltando, uma bermuda cáqui até os joelhos e um sapato sem cadarços e todo sujo. Levava um chapéu em mãos que costumava usar para fazer truques e emprestar para os sobrinhos. Tio Joaquim era solteiro e ninguém sabia o porquê. Tinha olhos azuis claros, um rosto forte e com o maxilar marcante, um bigode loiro que ele deixava bem aparado, cabelos curtos e dentes brancos (era um dos poucos da família que não fumava).

Naquele dia ele apareceu e estava mais sério, menos piadista. Eu quis saber o porquê, mas não me arriscava a perguntar. Fui uma criança introspectiva e me tornei um adulto calado e pensativo. Não ganhei presentes naquele dia, não os presentes que sempre ganhava. Ao invés disso nos sentamos no chão da sala, Madalena levou biscoitos e café para nós, e ele me contou uma história.

É sobre a história de tio Joaquim que vou falar agora, porque tanto a memória desse momento quanto os devaneios de dez anos atrás falam sobre a mesma coisa.

Por: João Scaldini