Anteriormente, houve uma análise sobre o por que de não falarmos sobre “The Handmaid’s Tale”, já que é uma série que retrata uma distopia futurística que não parece ser tão surreal assim. Agora, sobre o que deveríamos falar sobre ela?

Mesmo que falado na outra matéria, há que se comentar sobre a perda da identidade humana discutida na série. Na sociedade retratada, uma pessoa só está viva se oferece algo a essa teocracia, não importando quem elas foram, e sim pra que servem. Offred, Ofglen e todas as outras Aias têm histórias importantes a contar. Elas são mulheres que perderam sua identidade.

Há algo gravíssimo no fato de não sabermos os nomes delas: isso apaga quem elas realmente são. E quando apagam a sua história e as forçam a serem apenas uma Aia, as diminuem como seres humanos, reduzindo-as a um produto, uma mercadoria, a algo que não tem importância suficiente para ter um nome próprio. O nome de uma pessoa não é apenas um título dado por qualquer um, é um direito recebido por todos: o direito de sermos indivíduos, de termos uma identidade própria.

Outro ponto importante é a perda latente e crucial dos direitos humanos que uma vez foram escritos e defendidos pela Constituição dos Estados Unidos. Antes, todo cidadão podia ser contrário aos ideais que um presidente, senador, deputado, governador, prefeito ou qualquer outro político dissesse ou tivesse. Suas opiniões eram garantidas por lei e estavam salvas pela democracia norte-americana.

Nessa distopia futurística, quem não servir e for temente ao governo não sobrevive. Não é uma luta pelos direitos ou por se encaixar na sociedade. Aqui não há uma conversa com o totalitarismo utópico, há uma discussão com algo extremamente real. As mulheres não têm direito algum, e isso independe se são Aias, empregadas, ou casadas com os senhores de cada casa.

Não é como se no final de uma batalha sangrenta elas pudessem virar heroínas. No final desta luta sanguinária, elas não vão a nenhum lado porque simplesmente não existe para onde ir, não há a quem recorrer dentro deste novo país. Quem se encaixa ou tem serventia está vivo, quem não se encaixa, está há sete palmos do chão. Não há um arranjo em castas pela vida que você tinha. Há uma divisão pela serventia que você têm e nada mais.

É também importante observar na produção a forma como eles, os personagens que representam o governo, organizam suas ideias e ideais, porque não é uma novidade. Há alguns séculos, para justificarem o trabalho escravo, os patrões usavam da Biblía, distorcendo-a, manipulando-a e até mesmo descrevendo-a corretamente. Em Handmaid’s Tale recorreram novamente ao livro sagrado cristão para explicarem seu fanatismo e suas próprias arrogâncias. Eles punem e leem a Bíblia, assim como justificam o estupro sofrido pelas Aias, as mortes de pessoas que são contra este sistema e qualquer outra coisa que precisem fazer, mas que não é ético, legal ou respeitoso. Tudo está correto, porque está no nome de Deus.

Se dentro do contexto da série, eles chegaram a este ponto para se defenderem do terrorismo cometido por totalitários islâmicos que conseguiram matar o presidente e diversos políticos e personalidades importantes, quão irônico é saber que para se protegerem e proteger seus cidadãos e país, estão, basicamente, fazendo a mesma coisa que eles: sendo totalitários também? E mais, nesta distopia futurista, a República de Gillead fecha suas fronteiras. Outros países estão proibidos de entrar e sua população está proibida de sair. Eles fecharam qualquer margem que os ligassem com o resto do mundo, construindo muros e bloqueando aeroportos. Em outras palavras, eles fizeram o que atualmente o presidente dos EUA está tentando fazer… Aos poucos.

Em certo momento, June (antes de ser Offred) diz que estava “dormindo” quando quase todas as coisas aconteceram. Mesmo quando derrubaram o congresso, queimaram a Constituição, impediram civis de exercerem seus direitos, ela continuava presa a sua própria vida, em um sono como o da Bela Adormecida. Isso basicamente descreve o que muitas pessoas no mundo vivem. Elas estão dormindo enquanto veem políticos e juízes brincarem com leis e deveres, escarnecendo do povo que os colocou lá. June é a representação da maioria das pessoas, da maioria da população de diversos países. Elas continuam dormindo, vendo sua malfadada democracia cair por terra, sem se posicionarem enquanto é tempo. É quem ela foi que não devem apagar, porque é um espelho do que muita gente é.

A série da Hulu não chegou ao Brasil e não há data prevista para chegar. Mas, você, caro leitor, deveria se esforçar por vê-la. Se conseguiu encontrar este texto, com um pouco mais de esforço consegue ver esta produção maravilhosa.