Há uns 10 anos o filme “O Diabo Veste Prada” estreou no cinema, se popularizando rapidamente. A obra protagonizada por Anne Hathaway e Meryl Streep atingiu com grande êxito seu propósito, fazendo boa parte do público se inspirar e se divertir.

O filme conta a história de uma jornalista recém-formada que não consegue, de jeito nenhum, uma posição no mercado de trabalho, mesmo que na faculdade ela tenha tido um grande destaque e até mesmo uns artigos publicados em bons jornais. Em todas as suas entrevistas de emprego Andy, a personagem de Hathaway, sempre ouvia a mesma coisa: que ela era inexperiente demais para o cargo ao qual estava se voluntariando.

Com a grana cada vez mais curta, dependendo do namorado cozinheiro, ela decide ir a uma entrevista que não tem nada a ver com o que ela quer, mas talvez a ajude a fazer bons contatos: a editora-chefe de uma importante revista de moda está precisando de uma nova secretária e ela acaba “caindo” na vaga. Miranda Priestly (Streep) é quase a própria personificação do diabo em pessoa. Arrogante, difícil de lidar e exigente, ela demonstra que todo o tempo acordou do lado errado da cama. Sua palavra é lei e ela é capaz de decidir se uma coleção funciona ou não funciona, se algo está na moda ou não. Na verdade, ela é capaz de tomar decisões por todos a sua volta, sem se importar com nada ou ninguém.

Andy tem suas próprias ideias sobre o que é moda e inicialmente não se encaixa no meio no qual trabalha, nem cria uma empatia com sua chefe ou seus colegas. Ela crê que as pessoas ali são mesquinhas demais, fazendo piadas com sua turma, mas ao mesmo tempo acaba cada vez mais se infiltrando no meio. Talvez não por decisão própria, mas ela acaba deixando as coisas que lhe parecem importantes para se encaixar no que Miranda precisa. E é nesse momento que o filme cria duas interpretações possíveis sobre sua história.

Quando a personagem principal se rende ao mundo da moda, todo seu senso crítico ganha novos contornos. O que antes era importante pra ela, como seus amigos, seu namoro, seu próprio senso de ética, acabam sendo dobrados para servir a Miranda. Veja bem, Andy trabalha, às vezes, mais de 10 horas por dia. Ela é responsável por levar o café da manhã, almoço e, algumas vezes, até mesmo o jantar de Miranda. Algumas de suas obrigações também envolvem buscar a roupa da chefe na lavanderia, arrumar um jatinho no meio de uma tempestade tropical para que ela não perca uma apresentação das filhas na escola e arranjar para as meninas uma cópia de Harry Potter que ainda não foi lançada, sob a ameaça de ser demitida caso não consiga. E toda essa pressão nem sequer é recompensada, afinal, vemos o pai de Andy entregando um pouco de dinheiro para que ela consiga pagar o aluguel do mês.

Ao mesmo tempo, podemos dizer que o que ela está fazendo é tentando entrar em seu mercado de trabalho. E não tem sido muito recompensada por isso. Seu namorado acaba tornando as coisas ainda piores ao não entender e apoiar como deveria, dando ultimatos e sendo mesquinho. Quando Andy fura com ele em seu aniversário, priorizando outra vez Miranda, ele acaba rompendo com ela.

Quando o filme foi lançado, era apenas visto como uma boa comédia romântica sobre uma garota tentando encontrar seu próprio lugar no mundo e uma chefe durona, que fazia miséria com todos a sua volta. Hoje, alguns anos depois, com mulheres sendo cada vez mais donas de seus próprios narizes, a história ganhou outros contornos e o namorado de Andy se tornou um verdadeiro “embuste” (na linguagem da internet, embuste é um homem machista e mesquinho). Mesmo que Miranda tenha sido horrível, o fato de Nate cobrar a namorada não caiu nada bem, e ele acabou entrando para a lista malfadada de homens que não valem a pena do cinema. A gente até perdoa que Andy tenha quebrado seu próprio senso de ética e estivesse virando uma cópia de tudo que odiava em Miranda, mas não Nate porque ele foi patético.

Opiniões e interpretações à parte, “O Diabo Veste Prada” é um ótimo filme, divertido e leve, com uma história crível – e baseada em fatos – que entretêm. Além de que o elenco, que também conta com Emily Blunt e até Giselle Bündchen, diverte muito. Uma ótima sugestão de filme, mesmo que já tenham se passado mais de uma década de sua estréia.