Desde o dia primeiro deste mês o Teatro Cacilda Becker está sendo invadido por uma riquíssima programação cultural que conta com oficinas, espetáculos, debates, exposição e muito mais visando a valorização e difusão da cultura tradicional brasileira de matriz afro-ameríndia.

Idealizado por Laura de Castro, a ocupação propõe dar espaço a problematizações quanto ao lugar desta arte na sociedade contemporânea, e ao lugar de fala que ocupam esses artistas. Apesar da riqueza cultural existente em nosso país, a influência europeia de nossos colonizadores ainda pesa sobre nossas escolhas e quereres, e acabam por nos afastar ou mesmo desconhecer as nossas próprias origens. As tradições do bumba-meu-boi, das danças de umbigada, do cacuriá, do tambor de crioula, as danças afro-brasileiras entre tantas outras originárias em solo brasileiro pedem passagem para retomar seus espaços de direito e nessa retomada trazem muita diversão, debate e resistência em um momento tão crucialmente importante para o nosso momento político conturbado e desfavorável às artes de um modo geral.

Conforme a página da Ocupação Diálogos, o que se pretende é valorizar e fortalecer a memória, a diversidade e os novos caminhos da cultura brasileira, problematizar temas relevantes da sociedade contemporânea, dar espaço a novas produções culturais e a novas formas de fazer arte pensando na tradição como algo vivo e em constante movimento e transformação. Objetiva ainda ressaltar o potente trabalho dos brincantes, dos bailarinos e professores que aprenderam a dançar, cantar e tocar sem uma formação acadêmica, mas sim com uma formação do cotidiano, do fazer abrindo dessa forma mais uma frente de diálogos entre “academia” e “rua”, entre a tradição e o contemporâneo.

A programação se estenderá por 4 semanas e finaliza no dia 26 de Novembro e contará com participações importantes no cenário cultural do Rio de Janeiro como da Cia. Bamboyá, G’leu Cambria, Juliana Manhães, Tião Carvalho, Pamela Carvalho, Grupo Cupuaçu, Coletivo Assalta, Diomar Nascimento, Clara Anastácia, Foli Griô Orquestra, Pedro Pessanha, entre outros.

Grade de Programação da Ocupação Diálogos no Teatro Cacilda Becker

Talvez, você já tenha ouvido falar desses nomes, talvez não, mas são pessoas e coletivos ativamente atuantes artisticamente, que estão pensando, discutindo e fazendo arte de forma engajada, resistente e trabalhando incansavelmente para manter e/ou ganhar seu espaço e reconhecimento e merecem a nossa atenção. Todas as vivências, debates, oficinas e shows estão sendo preparados com muito amor, qualidade artística e respeito vida e à diversidade.

“A proposta inicial era estudar e promover outras formas de pensar, outras narrativas que não a eurocêntrica a qual estamos submetidos dentro da universidade. No entanto, o grupo de estudos se tornou um coletivo: além disso, desejamos gerar novas movimentações em torno dos espaços “não designados” a negros: o que seriam estes corpos suspeitos dentro das instituições de ensino superior a partir das cotas? Para isso, promovemos eventos dentro da academia que discutam o racismo; escrevemos nossos trabalhos pensando nas relações possíveis entre os autores ditos clássicos e a arte feita por negros; trazemos materiais para estudos feitos por intelectuais negrxs; enfim, questiona-se o sistema que diz que os alunos negrxs estão abaixo da média.”, diz o Coletivo Assalta, formado por alunxs da Unirio, que estará no evento nos dias 17, 18 e 19 com uma programação intensa.

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Destacamos ainda na proposta a roda de conversa “Diálogos com a(s) Negritude(s)” que traz um olhar sobre o conceito de negritude de maneira ampliada, indo desde o fato de existir como indivíduo negro ao sentido mais político do termo, mas dentro de uma atmosfera de diálogo a partir das tradições de matrizes africanas no campo das artes.

“Numa sociedade racista é fácil se manter alheio aos dilemas e ao racismo estrutural que atravessam os corpos negros, assim como é fácil se render a lógica colonial de reprodução de estereótipos e preconceitos, porém o Brasil conta com mais da metade de sua população composta por individualidades negras, que tem potências, limites, subjetividades e que podem se encontrar em coletividades ou não. Vivemos em um território negro. Mais do que um debate, a roda se propõe a ser uma provocação, uma faísca, uma pergunta:
Como você se relaciona com a(s) negritude(s)?”

Está sendo um mês de muita arte, troca, militância, expansão de consciência e de conhecimentos, e você não pode deixar de participar. E aí, bora ocupar?