A moda sem gênero, isto é, roupas que são pensadas tanto para vestir homens quanto para vestir mulheres está cada vez mais em voga. Estamos repensando o que é o gênero e desconstruindo nossa forma de nos vestir. A Balenciaga anunciou que não vai mais dividir seus desfiles por gênero e ela é só uma das grifes internacionais que está seguindo esta onda. Chanel já tem modelos homens para fazer campanhas de peças que seriam femininas e a Gucci o mesmo.

Mas e quanto a moda infantil? Não é na infância que começamos a ter ideias de gênero e de formas de se vestir? Uma das marcas que tem se destacado por levar roupas sem gênero para crianças é a mini.mi. Nós conversamos com a estilista da marca, Adriana Farias e falamos sobre como se faz uma roupa neutra para crianças e qual a importância delas para as mães e para os filhos.

Por que você decidiu seguir o caminho da moda sem gênero?

Para ocupar um “gap” que existia no mercado de trazer roupas básicas para crianças. Ele é um pouco minimalista. Ele é divertido, mas ele tem um conceito básico. Eu acho que o básico atende a duas histórias: atende tanto o menino quanto a menina, sem essa preocupação. Então, a gente tem um guarda-roupa completo!

Eu sou mãe de menina e mãe de menino. Então, eu sei que é muito mais fácil de encontrar roupas para meninas hoje, há uma diversidade maior do que para meninos. Existe uma dificuldade muito grande em se encontrar uma coisa que é neutra. A gente pode até falar que a mini.mi, além de ser sem gênero a gente neutraliza essa questão, né?  E faz facilitar a vida de uma mãe, principalmente de uma mãe recente. “O que eu vou comprar? O que é essencial comprar? Por onde eu começo?”, o mercado oferece muito essa confusão. Principalmente para quem está tendo o primeiro filho.

A gente não. A gente consegue atender o que é básico, o que é essencial e que tudo se coordene, em relação a cor, em relação a modelo, em relação a estampa. Então, eu acho que isso facilita muito o mercado. Acaba trazendo uma consciência comercial mais restrita, mais pensada. Nossa marca também tem essa preocupação com custo, com o ciclo de vida do produto. Nos preocupamos também com a qualidade do tecido para o que é uma roupa que a gente sabe que vai durar. Hoje,  ainda tem essa reciclagem de filho para filho, que a gente acaba guardando para quem planeja um, dois, três filhos, enfim. Temos essa preocupação, de ser uma roupa durável que  consigamos usar com consciência e comprar com consciência, sem ter esse exagero nesse consumo.

Ultimamente muitas marcas do grande circuito fashion estão aderindo ao desfile único. Qual a importância que você vê nisso?

Eu acho que é exatamente isso. É você quebrar esse paradigma de que tem que ter uma definição de sexo para poder vestir alguém confortavelmente ou em roupas que são essenciais para o guarda-roupa. Eu acho que a escolha é livre. A gente não impõe nenhum conceito que seja obrigatório. Oferecemos um guarda-roupa que é simples. Que é atemporal, isso também é uma preocupação que tivemos, porque também é uma necessidade que vimos de mercado.  Não temos essa coisa primavera-verão- outono-inverno. Não vamos esperar fazer frio para a gente ter casacos, nem vamos esperar o calor para a gente fazer shorts. E por ele ser único é importante para você ter, para você atender o consumidor num momento qualquer, né?

E você acha que a moda sem gênero está sendo bem recebida no mercado ou ainda é tabu?

Quando a gente criou o conceito da marca, a gente ainda não sabia que isso ia virar um hype. A marca existe há dois anos e há dois anos a gente criou o conceito em cima dessas necessidades do conforto e depois de dois anos a gente viu que isso virou uma tendência. Desde que iniciou a marca a gente não teve problema nenhum.

É obvio, a primeira coisa que os consumidores perguntam, é: “tem alguma coisa pra menina?”, “que que você tem pra menino?”. Porque nasce uma menina e nasce um menino, na verdade. E acho que esse conceito está sendo explorado agora e sendo mais exemplificado. Nesse sentido que talvez não seja tão importante para o funcionamento do crescimento e do acompanhamento de uma criança para vestir. E a gente faz roupas para bebês, a gente tem roupas para crianças de zero até três anos. Então, são crianças mesmo, elas precisam ter conforto. Você falar de conforto em uma roupa que sirva tanto para mulher quanto para homem, ela tem que ser uma roupa mais limpa, né, mais bem modelada, que vista bem. Que tenha a preocupação em um insumo e que te dê mobilidade.

Estamos falando de criança, isso é muito importante, é uma coisa que a gente se preocupa mesmo. A criança que vai engatinhar, que vai começar a andar. Tanto que é coleção atemporal até por isso. Tentamos trabalhar com os melhores insumos. A gente tem tecido cem por cento algodão, que tem elasticidade, que dê liberdade de você usar sem ter que se preocupar que aquilo você vai usar uma vez só. Então eles, a moda sem gênero e o conforto, são dois conceitos que estão extremamente interligados. E a gente conseguiu dar uma graça nesse conceito trazendo essa história de estamparia exclusiva. Para a coisa não ficar monótona a gente tem preocupação com uma cartela de cor primária, moderna, que se coordene sempre. E a gente trouxe a ideia do divertido para a marca. Trouxemos o divertido dentro do assunto food, comida, e junkie food, né. Então, a gente tem estampa de hot dog, a gente tem estampa de biscoito oreo, biscoito recheado…

E você acha que tem alguma importância para a criação das crianças hoje em dia as mães compreenderem a ideia do sem gênero?

Nós achamos que sim. Criança é criança. A gente enxerga isso como uma fase muito importante de desenvolvimento e a gente tem que deixar isso bem entendido, né? Elas precisam ter conforto, elas precisam ter liberdade, elas precisam ter mobilidade, elas precisam brincar de verdade. Então assim, como que você veste uma criança hoje toda enfeitada para ela viver num ambiente que seja saudável para ela?

CLOSE
CLOSE