Em benefício de nossa própria paz: perdoar é uma dádiva

“Perdoar não é esquecer: isso é amnésia. Perdoar é se lembrar sem se ferir e sem sofrer: isso é cura. Por isso é uma decisão, não um sentimento”. Essa frase – de um autor desconhecido – é o fio condutor de uma reflexão bastante interessante sobre o ato de perdoar.

Afinal, quando devemos perdoar? Quem merece nosso perdão? O que é, realmente, perdoar?

Quando alguma situação chateante nos pega de surpresa e causa os sentimentos mais negativos que podem existir, a primeira reação que temos é a raiva. A tristeza. O rancor. Lembrar daquilo que nos causou mal é capaz de despertar as piores sensações e, muitas vezes, só traz sofrimento.

Perdoar quem nos causou todas essas reações negativas é, de fato, um ato muito desafiador.

Devemos perdoar por quê? Para quê? Sendo que, muitas vezes, o causador de tudo isso nem se dá conta do mal que nos fez, ou, em outras situações, se até sabe, mas não tem intenções  de pedir desculpas.

Devemos perdoar sem um pedido de desculpas?

Voltando a frase inicial desse texto, temos aquilo que, acreditamos, seja a melhor forma de entender o que é perdoar: trata-se de uma decisão.

Sim, porque esquecer o que nos fizeram nada mais é do que amnésia. É como se nunca tivéssemos passado por aquela situação e, para nossa evolução, isso não é bom.

Passar pelas fases ruins da vida, de desapontamentos, decepções; entre outros é um grande impulso para nos levar adiante em nossa vida. Para amadurecer com aquilo, compreender aquilo como um aprendizado. Algo que não é legal. Que você não deve mais aceitar para si e muito menos repetir com outros. Porque sabe que machuca, faz calo e demora a passar.

Então não esquecer é o ideal. Mas lembrar a todo o momento e sofrer o mesmo a todo o momento também não faz parte do que queremos para nossa vida.

Perdoar é uma decisão. Decisão de encarar aquilo de frente. Um processo de rasgar-se e remendar-se. Ir ao fundo do poço e voltar de lá mais forte do que nunca. Escancarar todas as feridas para depois curá-las. Ousar remover todos os curativos para então ventilá-los.

Quem concede o perdão beneficia a si mesmo. Pois ao se livrar de lembranças dolorosas, mágoas rasgadas e ressentimentos embolorados, percebe que se curou.

Ninguém esquece daquilo que lhe feriu, que doeu, que dilacerou. Mas a gente pode superar. Pode enxergar o que rasgou sem se machucar. Pode entender o que morreu sem se enlutar. Pode conviver com o que restou sem se magoar. Isso é perdoar. Isso é permitir que a história siga seu curso trazendo uma lembrança que não pesa mais.

Quem perdoa tira o benefício do outro de controlar as nossas emoções. Afinal, quando ainda carregamos a mágoa e o rancor, relembramos daquela situação chata com raiva, o que permite, automaticamente, que o outro ainda esteja sob controle dos nossos sentimentos. E isso sim, é péssimo.

Por isso, e cada vez mais, é importante que nos libertemos de nossos monstros interiores. Todos um dia nos magoaremos com algo, em maior ou menor escala. O que fazemos com tudo isso é o que importa. Para nós mesmos. Para nossa saúde e bem-estar.

Perdoar é um ato de coragem. De comandar a própria vida. De pensar no que te fez mal e não sofrer mais. Não precisamos esperar um pedido de perdão para perdoar. Nos livrar de situações que nos  causam mal deve partir de nós mesmos. De lembrar que a sua vida segue em paz, que o mal não partiu de você. E que ele não precisa ficar com você.

Segue a roda da vida, e ela continua girando. Nossa paz íntima depende exclusivamente de nós.