Em maio deste ano, a cantora Solange Knowles apresentou no Museu Guggenheim, em Nova York, o espetáculo “Solange: An Ode To”. Junto de seus dançarinos, a artista caminhou meditativamente, cantou, gritou, lamentou e celebrou empoderando todos os negros presentes. A obra de arte de performance interdisciplinar, criada pela própria cantora, combinou músicas e temas de “A Seat at the Table”, seu celebrado álbum de 2016. Dentro do cenário também havia a participação do público, coreografias dramáticas e meditação. Todos os passos exploraram a arquitetura icônica do Museu Guggenheim de cima a baixo. O show parecia mais um domingo de manhã na igreja do que um concerto típico. Isto é, se a igreja fosse um santuário dedicado à música, com alma e feminilidade negra, liderada pela grande sacerdotisa Solange.Para ter acesso à apresentação, Knowles implantou um código de vestimenta: todo o público deveria trajar branco. Além do vestuário, não foi permitido levar celulares ou dispositivos eletrônicos para dentro. As roupas totalmente brancas deram sentimento ao público da maior parte possível do desempenho. Foi uma maneira de organizar visualmente um espaço vasto, lotado e potencialmente caótico. Também estava explorando outro tipo de brancura. Para preencher o museu com os sons de um álbum que celebra a feminilidade e a masculinidade negra. Cantada, tocada e encaminhada para o movimento dessas mulheres e homens. Foi sua própria objeção simbólica para as histórias de exclusão do mundo, da arte e da dança.

Nem todos estiveram de branco, Solange e sua banda usavam variações em suéteres retros em tons quentes como borgonha, laranja queimado e ocre. Os dançarinos usavam suéteres brancos simples, combinando com as paredes do Guggenheim e com o público. Todos os artistas estavam descalços. A falta de telefones também significou que o desempenho não foi documentado e difundido nas mídias sociais, como ocorre em muitos shows frequentemente. A performance confirmou o alcance da criatividade de Solange Knowles. Definida em termos para além de “irmãzinha da Beyoncé”, sua execução mostrou que ela está cruzando e combinando gêneros de uma forma que a maioria dos artistas não ousaria. O percurso para o desempenho credita Solange como coreógrafa, diretora musical e compositora do evento. E também descreve a mostra como movimento, instalação e experimentação com arranjo musical reconstruído, composto e conceitualizado por Solange.

Rompendo as estruturas formais, ela mostrou um lado mais espontâneo e absurdo de seu próprio gingado. “Ode” se tornou mais pessoal. A set list estabelecida da artista incluiu várias músicas de A Seat at the Table” , como “Cranes in the Sky”, “FUBU” e “Mad”. Mas ela também usou sua performance como uma forma de expandir suas canções gravadas. Em “FUBU” – For Us by Us – ela se dirigiu para a audiência e cantou diretamente para alguns escolhidos. Na versão final de “Rise”, ela atravessou o palco e se convulsionou no chão e também foi contra uma parede.Usou as suas coreografias como uma maneira de explorar a famosa rotunda do Guggenheim, se apropriando do formato aberto dos diferentes andares como parte de seu show. Ao longo da performance, ela e seus dançarinos e músicos desceram as rampas circulares que levaram aos quatro primeiros andares do museu.

Um dos momentos mais poderosos da performance foi quando Solange cantou “FUBU”, que significa “para nós, por nós”. Quando ela vocalizou, tornou a se direcionar para a multidão e entonou a penúltima frase da música – “isso é para nós” – aos membros do público negro, enquanto ajoelhava e dançava com eles. Após a apresentação, ela enfatizou a importância de escolher manter o show no Guggenheim. Reafirmou que pessoas de cor, e especialmente mulheres, pertencem a esses espaços.

“A inclusão não é suficiente. O subsídio não é suficiente. Nós pertencemos a isso aqui. Construímos essa mer-“

Depois da performance vespertina, vários espectadores permaneceram na parte de fora do Guggenheim por mais de uma hora. Eles tiraram fotos, trocaram pensamentos e opiniões. Isso deve ter continuado por um bom tempo nessa volta para casa. “Solange: An Ode To” vai claramente ecoar na vida dessas pessoas por muito tempo.