Pensar a arte permite muitas possibilidades. Da música ao teatro, passando pelas danças e artes visuais… E, dentro de si, cada uma destas áreas trazem uma gama de possibilidades incrível. Passeando por este universo, uma vertente que ganha espaço é Performance. Esta, que pode estar ligada a algumas destas áreas faladas, tem como importante característica um forte apelo sociocultural.  E por isso, traz em si uma visceralidade ímpar.

Uma figura pioneira nesta arte é Iugoslava Marina Abramović, que iniciou sua carreira na década de 70 e explorou em seus processos artísticos a dor, o risco e a exaustão em trabalhos que fizeram dela uma figura lendária até para os não tão entendidos de arte.

Mas para falar de uma arte tão complexa e permissiva, nós da Woo! tivemos a honra de bater um papo com a Performer carioca Renata Sampaio. Formada em artes cênicas pela UNIRIO, Renata se apaixonou pelo universo da performance durante a graduação, quando matava aulas para assistir o trabalho dos veteranos nessa disciplina. Encantada com as possibilidades – apresentações não presas a um espaço cênico, que podem se basear em histórias pessoais ou não, com forte interferência do público no resultado final etc – a artista antecipou a disciplina em sua grade acadêmica e iniciou suas vivências performáticas com um trabalho chamado “Com que corpo eu vou?” Em uma clara crítica ao padrão de beleza feminino veiculado na mídia e a violência auto-infligida pelas mulheres para consegui-lo. Paralelamente, Renata iniciou sua vida profissional em espaços culturais, nos quais aprendeu muito sobre artes visuais e performance (pois teve a possibilidade de ver artistas renomados em ação).

Com essa bagagem que não para de crescer, a artista dividiu com a gente um pouco de sua paixão:

Lorena Freitas – O que é, na sua visão, ser performer? O que é performance? O que a define enquanto arte?

Renata Sampaio – É muito difícil definir a performance porque pode tudo, só não pode qualquer coisa! Ela é livre, indefinida, com fronteiras borradas com as diversas manifestações artísticas. Cada performer talvez a defina de um jeito diferente. Guilhermo Gomez Peña, um performeiro mexicano que eu gosto muito, num texto intitulado “Em defesa da arte da Performance” diz que “somos desertores da ortodoxia, embarcados na busca permanente de um sistema de pensamento político e uma praxis estética mais inclusivas.” A performance pra mim é uma ferramenta política de exposição de si para o outro em tempo real. Uma partitura elaborada para acontecer no contato com o outro. Um limite muito tênue entre arte e vida.

LF- Como você avalia o cenário hoje nesta área? Quem são os nomes que despontam? E onde você percebe que existe que existe mais incentivo (nível Brasil)?

RS – A Performance tem um potencial incrível, que em tempos sombrios e temerosos como os de hoje fica ainda mais evidente! Acho que mais do que te dar grandes nomes, devo dizer que temos muita gente denunciando os fascismos atuais performaticamente. É claro que a gente vai ter pessoas que tão na área a muito tempo, que foram precursoras e tão aí até hoje, mas sinceramente acho mais potente ver a horizontalidade fora do mainstrean. Em termos de incentivo eu sinceramente não sei. Tô saindo agora de São Paulo e sinto que as coisas acontecem mais por aqui, mas não necessariamente por conta de incentivo… A grande quantidade de equipamentos culturais pela cidade e o alto consumo de arte institucional (contrapondo com arte popular) ajuda. Mas a galera faz muito na marra mesmo, se organizando e se mantendo. O La Plataperformance, coletivo de São Paulo fez um mapeamento incrível da cena performática no pais e rola no Brasil todo, quase sempre na autogestão.

LF- Quais as tendências você observa hoje?

RS- As ditas “minorias” tão exigindo seu espaço na arte institucional! As mulheres sempre estiveram presentes na performance questionando o patriarcado, e continuam fazendo isso; mas agora tenho visto muitos negros, e principalmente, negras exigindo seu lugar de fala na arte. A galera da teoria queer também tá bombando!

LF- Nesse gancho, você observa uma relação da performance com empoderamento? E ativismo feminista e negro?

RS – Completamente! Eu mesma descobri meu lugar de fala enquanto artista negra através da performance. No final da minha graduação fui convidada a integrar um espetáculo performático chamado “Por que você é pobre?” que discutia a pobreza na arte e na vida. O elenco já estava completo mas precisavam de alguém para ser a empregada de um dos núcleos de espectadores e que questionasse isso de alguma forma em uma performance ao final de sua participação. Construindo esse trabalho fiz uma retrospectiva da minha carreira acadêmica e me dei conta que todos os personagens que tinha feito nas montagens universitárias eram serviçais. Eu venho de uma família onde todas as gerações de mulheres antes da minha trabalharam como empregadas domésticas, eu fui a primeira da minha família a entrar na universidade pública, mas mesmo assim é como se estigma se repetisse sabe?! Foi aí que eu entendi que o racismo institucional existe também na arte! Fiz então a “Performance da invisibilidade ou o estereótipo da negra nas artes cênicas” no qual deixava esse meu percurso explicito: ou eu era uma serviçal, como ocorreu na tal peça; ou era a sensual, a prostituta, a adolescente grávida, a menina fácil. Esse trabalho me fez assumir as rédeas da minha vida e da minha carreira, hoje meu trabalho passa necessariamente por gênero e cor. Tenho visto muitas mulheres negras num caminho parecido, utilizando a performance pra acabar com estereótipos, enaltecer nossa beleza e cultura, denunciar a violência com os nossos! Artistas incríveis como Michele Mattiuzzi, Renata Felinto, Priscila Rezende, Juliana dos Santos, Olyvia Bynun, Val Souza, Janaina Barros, Millena Lizzia, Senzy Garcez, Danielle Anatólio, Alohá de La Queiroz, Ana Musidora, Silvana Rodrigues, Monica Santana.

 

LF – Você falou um pouco de alguns projetos com forte caráter político. Conta um pouco de suas experiências mais marcantes.

RS- Tenho sido muito atravessada pelas formas de alcance da performance para além dela mesma, seja por vídeo ou a própria fala. Algumas das minhas experiências mais marcantes se deram nesse contexto.

Esse ano fui educadora da exposição “Todo poder ao povo: Emory Douglas e os Panteras Negras“, e uma das atividades que fiz foi exibir performances em vídeos de muitas das mulheres citadas na resposta anterior, e foi riquíssimo perceber como o trabalho delas toca quem os assiste. Uma honra mediar esse panorama das questões da mulher negra hoje no Brasil através das obras delas.

No passado eu ano participei com a uma fala sobre a “Performance da invisibilidade ou o estereotipo da negra nas artes cênicas” no Diálogos Ausentes, um projeto do Itaú Cultural que busca dar um panorama do negro na arte. E foi muito interessante a experiência de ter o retorno de um trabalho tão visceral a partir da fala dele. Essa fala tá no youtube do Itaú e é muito louco vê-lo reverberando até hoje…

Em 2015 meu vídeo “Periférico” participou da “Pequena videoteca de performance sobre paisagens brasileiras” num festival em Portugal chamado “Materias Diversos“, e até hoje me pergunto como deve ter sido a recepção de um trabalho que falava dos deslocamentos dos periféricos cariocas num festival de teatro europeu…

Eu agora to dirigindo uma peça chamada “Vendo memórias”, que foi criada através de uma performance. Eu e o André Valim, ator da peça, colocamos cartazes convidando as pessoas a nos venderem suas memórias, e 20 pessoas nos encontraram e venderam! O texto da peça é a junção dessas memórias. E pra mim é um desafio enorme transformar performance em teatro, mantendo a liberdade, a intimidade e o frescor da primeira; tanto que é uma peça que a gente nunca sabe como termina… Acho que tem dado certo!

Enfim, a potência da performance está para além dela mesma e me encanta criar dispositivos que permitam sua manutenção e novos encontros, como por exemplo esse texto e os leitores que ele encontrará.

 

Por aqui fica muito claro o poder empoderador dessa vertente artística. Além de um efeito prático na vida dos que estão apresentando ou sendo assistidos (quando há esse limite), é um caminho que endossa um coro de vozes que se faz ser ouvido através da arte. E neste momento, a arte cumpre seu papel mais nobre!