Durante muito tempo – aproximadamente 50 anos – a televisão brasileira foi referência mundial na produção de telenovelas, chegando a ter algumas delas transmitidas em diversos países. Mas, não é de hoje que há uma tendência a programas do tipo conquistarem baixos índices de audiência, o que é péssimo para a publicidade, principal atrativo das emissoras.
Foi-se o tempo em que as novelas atingiam 47 pontos no horário nobre, como em Páginas da Vida; 43 de Paraíso Tropical ou 40 como em A Favorita. Atualmente a novela da faixa das 21 horas da TV Globo, A Lei do Amor, atingiu 28 pontos na primeira semana e, em 20 dias no ar, conquistou na última semana apenas 25 pontos.
Mas, quem é o responsável pela mudança tão drástica deste cenário?
Com a adesão cada vez maior das TVs fechadas e a ascensão da Netflix, ambos com mensalidades acessíveis, um novo leque de opções foi posto a serviço dos telespectadores. O brasileiro continua sendo fã de tramas envolvendo personagens variados, romance, ação e suspense, mas, agora, com um toque diferenciado. As novelas só tinham o poder de prender a atenção quando a internet, a TV fechada e a Netflix não eram tão populares.

Flora (Patricia Pillar) e Donatela (Claudia Raia) em A Favorita, uma das novelas que ainda rendeu um bom índice de audiência, em 2008. (Foto: Divulgação/Rede Globo)

Primeiro pela variedade que eles encontram nesses outros canais somado as superproduções dignas de Hollywood. Na TV fechada, séries como Game Of Thrones, por exemplo, tem atraído cada vez mais fãs que se contorcem de ansiedade nas pre-estreias de cada nova temporada.
O mesmo acontece com a Netflix. Além do catálogo de séries e filmes ser bastante extenso, onde é possível encontrar clássicos do cinema a enredos pouco conhecidas, a plataforma tem produções originais que são atualizadas constantemente e sempre inovadoras. Um exemplo de sucesso é Stranger Things, que deixou uma legião de fãs alucinados com sua primeira temporada.
Outro benefício de quem assina a Netflix é a possibilidade do usuário acompanhar a série favorita a hora que quiser, de onde parou. As novelas, por outro lado, são geralmente longas – em média nove meses de duração – e, se você perde um episódio, já pode se atrapalhar com todo o enredo.

Stranger Things, série original da Netflix de grande sucesso (Foto: Divulgação/Netflix)

Stranger Things, série original da Netflix de grande sucesso (Foto: Divulgação/Netflix)

E não para por aí não. O fato do público ter mudado consideravelmente nos últimos anos também conta muito na demanda a novas plataformas. Com acesso a tanta tecnologia, mais modernos e antenados, a impressão que se tem é que as pessoas cansaram do “mais do mesmo”.
O caso é que a maioria das novelas ainda persistem com seus enredos engessados, em que se espera geralmente um núcleo rico, um pobre, o casal de mocinhos do bem e os vilões que tentam atrapalhar a vida deles. Enquanto isso, as séries procuram lidar com o fantástico, apontam os erros da sociedade, zombam da vida feliz da família do comercial de margarina, brincam com a nossa psiquê.
Outro ponto é a dramatização exagerada na vida dos atores das telenovelas. As pessoas já têm seus dramas pessoais vividos em casa e não estão afim de acompanhar o choramingo da mocinha que brigou com o namorado ou a senhora que se revolta porque teve a bolsa roubada pelo ladrão. E, pior, quando as emissoras tentam atualizar e colocar assuntos considerados tabus, morrem no moralismo folclórico. Tratam temas que deveriam ser naturais com uma espetacularização exagerada. Tudo isso, ao invés de ajudar, acabam reforçando esteriótipos e, consequentemente, preconceitos.
O que não se pode dizer, entretanto, é que as emissoras não tiveram sensibilidade suficiente para perceber essa mudança. A Rede Globo, por exemplo, tem investido em novas produções com um caráter mais voltado para série. Exemplo disso foi Justiça, a minissérie de Manuela Dias com direção de José Luiz Villamarim, que rendeu grande sucesso ao contar a história de quatro pessoas diferentes que eram presas e, com o passar dos dias, as tramas se entrelaçavam. Outra aposta parecida é Supermax, mas, diferente de sua antecessora, não tem trazido grande retorno do público.

Fátima (Adriana Esteves) em Justiça, minissérie da Globo (Foto: Divulgação/GShow)

Fátima (Adriana Esteves) em Justiça, minissérie da Globo (Foto: Divulgação/GShow)

É imprescindível que as emissoras, na intenção de garantir a audiência do horário nobre, invista cada vez mais em produções que fujam daquilo que já é de conhecimento de todos. Porque, do jeito que está, a tendência é que cada vez mais as pessoas se voltem para séries super produzidas e abandonem as novelas com o mesmo enredo batido de sempre.
Mas, quer saber: um beijo para quem criou a Netflix, não poderia ter criado nada melhor! <3