Como nós já dissemos aqui, a LAB trouxe definitivamente o hip-hop para as passarelas brasileiras. Junto com o hip-hop a grife dos irmãos Emicida e Evandro Fióti trouxe a representatividade negra para a São Paulo Fashion Week. E isso não foi de repente, já faz alguns anos que a estética negra e africana vêm alcançando espaço no mundo da moda.

Não era para menos: somos uma geração que cresceu ouvindo e se espelhando em cantoras como Beyoncé, Rihanna e Alicia Keys. Tirar a representatividade negra da pauta é no mínimo incoerente. A moda por anos tentou esconder os cabelos crespos, as tranças e os turbantes, mas felizmente não deu mais para ignorar que a estética negra ganhava cada vez mais espaço.

A mídia tradicional podia não contemplar os ícones da cultura negra, mas nas redes sociais a moda feita por mulheres e homens negros para mulheres e homens negros cresciam muito tanto no Brasil quanto no mundo inteiro. Blogueiras negras e ativistas como Magá Moura (@magavilhas) ou Luiza Brasil (@mequetrefismos) aos poucos tornavam-se tão influentes quanto as blogueiras brancas que apareciam mais nas capas de revista. Marcas que apostam na representatividade como a Dresscoração, Maria Chantal, ou Okan conseguiram mais espaço através da expansão dos e-commerces.

Magá Moura é uma das it-girls da nova geração

Os próprios rappers contribuíram e muito para que a estética negra virasse hype principalmente de 2015, quando Kanye West desfilou sua coleção pela primeira vez no NYFW, até hoje. Hoje é possível achar produtos para cabelos e pele negra em um número muito maior de lojas do que em 2014, por exemplo. Grandes marcas como Avon ou a Quem Disse Berenice? apostaram em campanhas com estrelas negras para bombar. E conseguiram. Mas ainda existem problemas.

Karol Conka é garota propaganda da linha Mark. da Avon

O primeiro e o mais claro é o da apropriação cultural. Ao tentar homenagear a cultura negra sem parar para pensar no que os negros achariam disso, a Vogue em 2016 decidiu fazer da África o tema de seu baile de carnaval. O problema disso? A maioria dos convidados era branca. Além de desconsiderarem que a África é um continente plural, algumas artistas brancas se apropriaram de estampas étnicas africanas, turbantes e houve até mesmo quem foi vestido de símbolos religiosos africanos. Isso para não falar das convidadas que escolheram ir vestidas de tribais africanas, repetindo o mais velho dos esteriótipos.

O look de Sabrina Satto no Baile da Vogue de 2016 foi no mínimo mal pensado

Mas a apropriação cultural não é o único problema enfrentado nesse novo hype da cultura negra. Há também a falsa representatividade, que ficou mais do que explícita na São Paulo Fashion Week da semana passada. Este ano já era esperado que empoderamento fosse a palavra da vez. A LAB prometia mais uma coleção impactante e o encerramento estava por conta da Cemfreio, uma marca igualmente questionadora.

Tudo começou bem. Á la Garçonne quebrou padrões abrindo a SPFW no Teatro Municipal antes mesmo de sua abertura, usando o funk e a cultura jovem para lembrar que a moda não precisa ser elitizada. A seguir houveram algumas coleções interessantes, como o da Two Denim e outras mais mornas como de João Pimenta que neste ano não surpreendeu muito. Mas de forma geral, tudo ia bem.

Á la Garçonne incorpora a cultura jovem de massa em seu desfile

No dia 29 chegou talvez o desfile mais esperado: o da LAB. Tudo teria sido perfeito se não fosse um detalhe: o próprio estilista da marca Evandro Fióti foi barrado na entrada de seu próprio desfile. Fióti estava com a pulseira que lhe garantia a entrada, mas por ser um homem negro tentando entrar em um evento que apesar dos avanços segue sendo elitista, ele foi barrado pela segurança. O organizador do evento, Paulo Borges chegou a gravar um vídeo ao lado do rapper repudiando o acontecido. Mas já era tarde. O racismo da semana de moda de São Paulo já havia sido exposto para quem quiser ver.

“Ser preto é ser barrado pelo segurança do evento até mesmo quando é da sua marca e com pulseira…” escreveu o rapper em seu Facebook

O desfile em si foi emocionante, a temática era a liberdade. Looks misturavam o estilo rapper com patches e peças oversized com tons mais claros e tecidos mais leves. Pássaros, penas e manuscritos formavam as estampas. A modelo mais aplaudida tinha baixa estatura, peso bem acima do normal para modelos e era negra: Mc Karol foi ovacionada pelo público. No fim, música! Um desfile incrível que infelizmente foi marcado pelo racismo que o precedeu.

Como se este episódio não bastasse a máscara da falsa aceitação dos negros caiu novamente no dia 31. A Coven da estilista Liliane Rebehy foi inspirada na África. Esteticamente a coleção é maravilhosa, texturas de linho, caimento afastado e acessórios elegantes. A estamparia e os modelos conseguiram sair dos clichês, mas nem de longe conseguiram trazer a representatividade negra para as passarelas: isso porque apenas 4 modelos que desfilaram para a grife eram negras. Liliane disse que não conseguiu montar um casting majoritariamente negro pela falta de modelos.

Coven apostou na África, mas teve negros como minoria na passarela

Essa desculpa já vem sendo usada há alguns anos e já não cola mais. Bem como não cola mais esse racismo vedado nas semanas de moda. Os tempos são outros e a moda também deve ser.