Algumas tendências da moda às vezes parecem simplesmente inexplicáveis. Preços exorbitantes por produtos que à primeira vista parecem simples ou até mesmo feios sempre geram polêmica e nos fazem questionar sobre a função e o posicionamento da moda e da arte contemporâneas. Nos últimos anos, a marca que esteve no olho do furacão destas discussões foi a Balenciaga de Demna Gvasalia. Talvez você não conheça a marca pelo nome, mas com certeza já ouviu falar da grife que vendeu por 2.145 dólares uma bolsa da IKEA que normalmente é comercializada por menos de 1 dólar.

Essa polêmica, gerada em abril deste ano não é a única do estilista do leste europeu. Demna, também assina a Vetements, outra marca que tem causado um grande furor no mundo fashion nos últimos anos. Caso você também não lembre da Vetements é só lembrar da marca que tem como sua marca registrada mangas de camisa gigantes, bem maiores do que os braços de qualquer um. A Vetements de Demna também foi a responsável por levar a camiseta do uniforme da DHL (uma empresa de correios alemã) para as passarelas.

A última de Gvasalia foi o tênis “Triple S”, inspirado nos “dad shoes”, aqueles tênis declaradamente feios que unem tênis de basquete, corrida e trilha. O calçado inegavelmente feio estava à venda por nada menos que 850 dólares (cerca de 2.700 reais) e esgotou em dois dias.

A moda de Demna Gvasalia está tão bem-conceituada na crítica e no público que ele teve a ousadia de, na semana passada, trocar o logo da Balenciaga. A grife é muito anterior ao estilista, nasceu na Espanha em 1919 conhecida pelo seu perfeccionismo e corte preciso. Mas a marca, depois de ser incorporada ao grupo Gucci em 2001, passou por crises de identidade até conseguir se estabelecer com Demna, que apesar de se distanciar do projeto original da marca, fez da marca um novo hype. Fez não, está fazendo.

O novo logo diz que é possível que a marca continue no caminho em que está. Nada de referências artísticas complicadas ou de ideias rebuscadas. O estilista de escola russa se inspirou na praticidade de placas de trânsito para criar o novo logo da marca. Isso mesmo, uma marca renomada de alta-costura tem seu logo pensado a partir de placas de trânsito. Nada de inspirações artísticas ou referências intelectuais, apenas sapatos feios e imitações caras de produtos baratos. Será que a moda enlouqueceu?

A resposta é mais complexa do que parece. Demna Gvasalia não faz nada exatamente novo. Ele incorpora uma tendência artística de desconstrução das hierarquias artísticas que remete aos 60. Tornar o luxo popular e o popular luxo é o que Andy Warhol já fazia há muitos anos. Seu quadro das famosas sopas Campbell já incorporava elementos da cultura de massa na alta arte muito antes do designer da Vetements pensar em imitar a bolsa azul da IKEA. Muitos já ironizaram o consumo e a alta arte antes dele.

Dentro da moda, Demna também não é pioneiro em trazer a cultura de massa para as semanas de moda. Desde que tomou a liderança da Moschino em 2013, Jeremy Scott trouxe o McDonalds, a Barbie, cartões de crédito e até produtos de limpeza para as passarelas. Desde então muitas marcas adotando vários símbolos de consumo e de cultura pop em suas coleções. Mas o que Demna fez de diferente então?

Se Jeremy inova dentro da filosofia da italiana Moschino e incorpora a cultura pop para ironizar a sociedade do consumo, Demna segue outro caminho. As marcas incorporadas por ele são bem menos óbvias, supostamente bem menos cool. Ele também propõe elementos como camisetas de bandas e filmes que, apesar de quebrarem com a lógica tradicional da alta costura, não se configuram como símbolos da cultura pop como a Barbie de Jeremy ou a Marilyn de Andy.

Além disso, Demna não é nem americano nem de países europeus tradicionalmente representados na moda como Itália ou Inglaterra. Ele vem de Sukhumi, uma república dentro da Geórgia, um país da antiga União Soviética. Sua própria existência em um meio de estilistas quase que todos de países mais tradicionais dentro do mundo fashion já seria uma resistência. Mas em seu próprio trabalho fica explícita sua escola belga e russa, algo que foge ao circuito tradicional da moda, sobretudo dentro de uma grife espanhola. Os próprios modelos das peças trazem cortes e caimentos inovadores. Ainda que ele ignore até então algumas reivindicações – em seu primeiro desfile pela Balenciaga não havia nenhuma modelo não-branca – ele continua sendo uma presença diferente no meio da moda.

Talvez Demna Gvasalia seja mesmo louco e sua obra não faça sentido, mas o fato é que ele acaba sendo necessário.