De uns anos para cá, a literatura tem dado um giro gigantesco, acompanhando um pouco a mudança que as gerações dos anos 90 e 2000 vêm passando. Mudar é bom, afinal, o mundo não pára quando fechamos os olhos.

Há alguns dias, estreou no Netflix uma série baseada no livro “Os 13 Porquês”, de Jay Asher, e isso acabou colocando a obra escrita em evidência, como sempre acontece quando algo assim vira filme ou série.

A obra trata de um tema muito comum hoje em dia: a depressão. Se antigamente, doenças psicológicas e/ou psiquiátricas eram vergonhosas e escondidas por todos, hoje elas estão escancaradas e prontas para se ter uma nova visão sobre elas. E “Thirteen Reasons Why” está aí pra provar essa máxima.

A protagonista do livro, Hannah, sofre de uma severa depressão, que é agravada pelo momento difícil que está vivendo. Com poucos amigos, ela vê vários deles a decepcionarem quando ela mais precisava e deixá-la de lado, ignorá-la ou fazê-la sentir-se menos do que é. Hannah acaba se matando, mas antes ela grava uma série de fitas em que conta as 13 razões, ou os 13 porquês, de ter se matado.

O co-protagonista, Clay Jensen, o interesse amoroso de Hannah, é quem está ouvindo as fitas, depois delas terem passado por algumas pessoas. Clay vai descobrindo o que a levou para depressão e como a ação ou falta de ação de várias pessoas culminaram em sua morte. Hannah vai detalhando cada motivo, cada razão do que levou ela ao fundo do poço.

Sem dúvidas nenhuma, sem parenteses, sem explicações ou justificativas, Os 13 Porquês é um livro necessário para o debate, para a abertura, para as pessoas enxergarem a depressão como algo palpável e não apenas como recheio de livros de auto-ajuda ou pacientes de psicólogos, e até mesmo para reconhecerem o sintomas, que muitas vezes apenas são tidos como uma tristeza que dura. Uma pessoa que está passando por ou tem depressão – ou outras doenças e enfermidades psicológicas – não precisa ouvir que deveria tentar se animar, sair mais ou esquecer a tristeza.

O livro é sobre a vida miserável que Hannah leva e a que foi exposta por conta do que pessoas vêm falando incansavelmente sobre ela, e de como isso pode causar um trauma muito grande. É aquela velha e conhecida, mas nem sempre respeitada premissa: a palavra tem poder. Pode não ter para quem a falou, mas tem para quem a recebeu. Hannah é, sem dúvidas, a maior vítima do que foi dito e não há questionamentos sobre isso.

Mas, Hannah também tem depressão e isso é perigoso e complicado. Passar pelo bullying é difícil para qualquer pessoa, para alguém que desenvolveu depressão é quase impossível de lidar. Sem poder aguentar, ela se mata e faz com que as pessoas que a levaram até aquela situação saibam que foram responsáveis por sua derrocada, até mesmo por seu suicídio. Ao gravar as fitas, ela tem sua revanche, finalmente.

Hannah não teve tempo de saber que muitas vezes o mundo vai ser cruel, mas ele pode ser bonito. Ela não teve tempo de experimentar outras partes da vida, fora a escola. Não teve tempo, também, de ver que algumas coisas que foram ditas em um certo momento da vida perde o poder de machucar ou por serem falsas, ou por não nos ofenderem mais ou porque simplesmente é um fato pelo qual teremos que conviver com ele. O Ensino Médio, período pelo qual ela estava passando, pode ser desumano sem sombra de dúvidas, mas pode também tornar as pessoas fortes e focadas.

A personagem não teve a segunda chance que Charlie, de “As Vantagens de Ser Invisível”, teve. Em uma próxima coluna falaremos sobre ele, aqui apenas será dito que ambos não tiveram o mesmo destino. Hannah não teve tempo de perceber que do mesmo jeito que tudo que passou teve uma causa e efeito para ela, teve na vida de outras pessoas também. Hannah prolongou para outras pessoas sua morte, sem saber se ela não poderia afetar negativamente os seus porquês. Hannah teve sua revanche, mas foi descuidada na mensagem que poderia passar.

Ela não irá aprender que decepções sempre existirão, que estarão presentes em nossas vidas e que elas serão causadas por outros, mas principalmente por nós mesmos. E não irá aprender a levantar a cabeça e pedir ajuda. Obviamente, o ponto positivo de “Thirteen Reasons Why” foi escancarar para as pessoas que a depressão não é apenas uma tristezinha sem fim, e sim algo muito mais profundo, feio e sem precedentes, fazendo com que as pessoas reconheçam e busquem ajuda.

Mas, houve um ponto negativo: colocar como revanche é algo que não está certo. Sim, todos tem seus “porquês”, mas fazer uma “vingança” contra eles, gravar para que eles se sintam responsáveis, é um tiro no escuro. Os “porquês” de Hannah se sentiram absolutamente tristes, mas nem todos se sentirão responsáveis e se ela tivesse esperado, saberia disso. E quem ler o livro (ou ver a série) também tem que estar atento a isso.

No fim das contas, como foi dito no Facebook, em um tópico de discussão sobre o assunto: não é algo que passa totalmente idôneo, mas “Os 13 Porquês” já é um ótimo ponto de partida para discussões e uma outra interpretação futura de muitos maus que acometem a sociedade.