Nascido na cidade de São Paulo, o diretor Gustavo Rosa de Moura formou-se primeiro em arquitetura pela FAU-USP antes de se aventurar no mundo do cinema. Foi somente em 2003 que começou a trabalhar no mercado do audiovisual, e isso aconteceu em outro polo, na cidade do Rio de Janeiro. Desde de então trabalhou em diferentes tipos de produções, a começar por vídeos elaborados exclusivamente para grandes museus. Algumas das produções em que esteve envolvido nesse nicho implicam projetos desenvolvidos para a Bienal de São de Paulo, o CCBB e a Expo Xangai.

Quando começou a aprofundar em propostas mais voltadas para o cinema, o diretor trabalhou com os filmes experimentais “Casco” e “Iluminai os Terreiros”, além dos elogiados curtas-metragens “Avaca”, “Capela” e “Acho que chovia”. Todavia, o destaque com o seu nome começou a aparecer mesmo depois que Gustavo encarou uma leva de documentários que abordavam desde curiosos temas como piadas à determinadas biografias. Entre esses, podem ser destacados “Cildo”, “Consideração do Poema” e “Piadeiros”.

Após provar a qualidade inquestionável de seu trabalho, algumas portas começaram a abrir para o diretor que teve a oportunidade de se envolver e participar na criação de diversos outros produtos para televisão e cinema, incluindo as séries “O Papel da Vida”, “Cada Canto”, e o sitcom “Quero ter um milhão de amigos”.

Recentemente lançou nos cinemas o ótimo “Canção da volta” que traz a atriz e apresentadora Marina Person de uma forma que você nunca viu. Interpretando um papel denso e, verdadeiramente, tocante.

Através de sua produtora, a Mira Filmes, Gustavo vem se envolvendo cada vez mais dentro de projetos autorais que prometem ganhar as salas de cinema e canais de tv nos próximos anos. Como estávamos interessados em conhecer mais sobre o artista e suas obras, fizemos uma entrevista muito bacana com ele. Confira abaixo:Pulp!: Daniel Gravelli – Sua experiência, em maior parte, surge a partir de documentários como “Cildo” (Sobre o artista plástico Cildo Meireles) e o original “Piadeiros”, o qual você percorreu diversos lugares em busca de pessoas desconhecidas que soubessem contar anedotas. Como foi que surgiu a ideia de se arriscar em um projeto ficcional (Canção da Volta), com uma temática tão séria e silenciosa, como a depressão que atinge boa parte da sociedade?

Gustavo Rosa de Moura – Na verdade, a ideia do Canção da Volta é anterior aos meus documentários. É algo que venho amadurecendo há muitos anos, de forma bem gradual. Escrevi um pouco sobre isso nesse texto aqui.

A verdade é que não me considero um documentarista que fez uma ficção, nem o contrário. Eu me interesso por cinema de uma maneira geral, e pretendo navegar bastante ainda por esses dois “gêneros”. Estou agora rodando um filme chamado Cora que joga muito com as fronteiras entre doc e ficção. É um filme 100% ficcional, mas que se apresenta como um documentário e é feito, em grande medida, como um documentário.

Pulp!: Daniel Gravelli – Fale um pouco sobre o processo de preparação dessa produção e quais foram as dificuldades que você encontrou em comparação a uma produção de documentário?

GRM – O Canção da Volta não tem nada de documentário. É o oposto! Todo o processo de feitura do filme se deu no território da ficção, da encenação, de um universo totalmente construído. Nesse sentido, acho que a dificuldade maior em relação a um processo mais comum de documentário é a questão do roteiro, da atuação e da mise-en-scène. Tirar o máximo possível do roteiro, escolher o elenco, preparar esse elenco, colocar tudo em cena e dar vida aquela realidade 100% nova que você criou. Fazer tudo parecer natural, verdadeiro e, ao mesmo tempo, interessante, especial, cativante. Enfim, cada filme tem seu processo, independentemente de ser ficção ou não ficção. Cada filme acontece de um jeito. A produção do Canção da Volta foi ótima, deu quase tudo certo. Pensando agora, acho que as coisas que mais exigiram dedicação e atenção foram os atores e a arte.Pulp!: Daniel Gravelli – Embora Marina Person venha se mostrando uma ótima diretora de cinema, poucas são as pessoas que conhecem o seu trabalho como atriz. Inclusive a dúvida em torno do filme, quando começaram as divulgações, giravam a partir de sua escolha para que ela vivesse uma personagem tão densa. Como foi o processo de seleção do elenco e preparação desse que conseguiu realizar uma excelente performance (com destaque para própria Person que verdadeiramente encarnou o papel)?

GRM – Queria trabalhar com bons atores e com pessoas próximas, com quem eu pudesse estabelecer relações de parceria, troca e entrega. Queria pessoas cujos “demônios” me interessassem, me instigassem, e que topassem o jogo intenso que o filme pedia. Eu nunca tinha trabalhado com o João, mas sempre gostei muito do trabalho dele. Desde o início imaginei que ele poderia dar uma espessura interessante para o Eduardo. Ele é um ator muito intenso e eu queria isso. Mandei o roteiro para ele e fomos conversando, trocando ideias. Desde o início tivemos um processo muito rico de colaboração. Ele trouxe muitas coisas legais não só para o Eduardo mas para o filme como um todo.

Com a Marina eu já tinha feito um curta-metragem (Acho que Chovia) e a experiência tinha sido ótima. Desde então comecei a pensar nela encarnando a Julia, dando vida a essa personagem tão opaca e difícil de fazer. E ela curtiu a ideia e logo topou o desafio. A partir daí, ajudou muito também na construção da personagem e do filme.

É importante lembrar que eu e Marina somos casados, o que é sempre uma faca de dois gumes. Mas acho que a gente conseguiu usar nossa intimidade a nosso favor e com isso criar um ambiente seguro para a criação dos personagens e das cenas, um ambiente de muita liberdade e confiança.

Tivemos uma preparação bem longa, de quase dois meses, que envolveu não só ensaios e leituras mas muitas conversas, sessões de filmes, exercícios corporais e reescritas de roteiro.

Estudamos, ensaiamos e reescrevemos todas as cenas juntos (com a participação de Leonardo Levis, co-roteirista), o que foi decisivo para o filme encontrar sua forma. Todo o processo de preparação foi muito importante também para dar confiança a mim e aos atores na hora da filmagem em si, que é sempre muito corrida, intensa e cheia de imprevistos. O Victor Mendes, um ator muito talentoso e querido, ajudou bastante a Marina com exercícios corporais e vocais.

No set, a relação com os atores foi sempre muito boa. Eles confiaram muito em mim e eu neles. Acho que tínhamos um filme na cabeça, no corpo. Estávamos todos no mesmo jogo, no mesmo barco, na beira do mesmo precipício. Vendo o filme hoje, essa sintonia me parece bem clara.

Pulp!: Daniel Gravelli – “Canção da volta” ficou pouco tempo em cartaz, aliás quase todos os filmes brasileiros não passam de duas semanas, a não ser algumas comédias que se apoiam na mesma fórmula de sempre. O que você acha desse “menosprezo” dos próprios brasileiros quanto a determinadas produções que mereciam ser vistas? Esse seria um erro do público que continua optando por produtos importados ou dos produtores de cinema no Brasil?

GRM – Essa é uma questão muito complicada. Mas acho que passa muito por duas ideias básicas: formação de público e criação de circuitos alternativos, não comerciais. A boa notícia (no meio de uma realidade tão dura para o cinema autoral braslieiro) é que a SPCine está fazendo as duas coisas em São Paulo ao criar o circuito de salas de periferia nos Ceus. Hoje há muitos filmes entrando em cartaz e muito poucas salas de cinema no Brasil. Especialmente salas mais baratas, com programação alternativa. Mas acho também que temos que estar mais abertos às novas janelas e tecnologias, com os novos modos de acesso ao audiovisual.

Eu, pessoalmente, considero o cinema hoje apenas uma primeira vitrine, não mais a janela principal. Eu adoraria que todos vissem o Canção no cinema, mas sei que isso não irá acontecer. Sei que muita gente vai ver no VOD, na internet. Muito mais do que nos cinemas, por um prazo muito mais longo, indeterminado. E isso é legal também. O filme entrou no VOD (NET Now e iTunes) no dia 6 de Dezembro, um mês depois de ter entrado em cartaz nos cinemas. Isso é importante para aproveitar a mídia e o boca-a-boca que o cinema traz.Pulp!: Daniel Gravelli – Pegando o gancho na pergunta anterior, como você enxerga o mercado para os próximos anos? Na sua opinião quais seriam as opções do nosso cinema para ganharmos mais espaço nesse que está cada vez mais tomado por produções blockbusters?

GRM – Como eu disse acima, acho que precisamos investir em formação de público e salas alternativas, criar cada vez mais circuitos que não sigam a lógica comercial dos cinemas convencionais. E apostar nas várias formas de vídeo sob demanda também.

Pulp!: Daniel Gravelli – Você é um dos criadores da série “#QT1MA” (Quero ter um milhão de amigos), uma comédia despretensiosa, ao melhor estilo “The Big Bang Theory”, que abraça a cultura pop como referência para se fazer comédia. Embora o Brasil tenha suas sitcom’s, “#QT1MA” apareceu como uma novidade, visando o mundo nerd/geek, e agradou muita gente. Como nasceu o projeto e o envolvimento da Warner no mesmo? Teremos outras temporadas daqui para frente?

GRM – Essa é uma série que nasceu aqui dentro da Mira Filmes e que a gente fez de maneira independente, com apoio do Fundo Setorial do Audiovisual. A Warner só licenciou os episódios, não teve relação criativa com o projeto. A primeira temporada deve estrear na TV aberta em breve. Queremos muito fazer a segunda temporada, mas ainda não temos nada confirmado.

Pulp!: Daniel Gravelli – Você vem trabalhando em um novo projeto, intitulado “Cora”, ao lado de Matias Mariani, para 2017. Seria possível adiantar um pouco sobre a produção

GRM – Cora é uma adaptação do livro “Antonio”, da Beatriz Bracher.  É uma ficção que se apresenta como um documentário inacabado feito em 2016, encontrado por uma Norueguesa em 2064. É um projeto radical, com várias coisas experimentais, do qual gosto muito. Já começamos as filmagem, que irão até janeiro de 2017. Estamos bem animados!

Para mais informações sobre o filme, acesse o site da Mira Filmes.

Pulp!: Daniel Gravelli – Além desse, quais outros projetos você está envolvido?

GRM – Estou preparando um outro filme chamado “Antes Tarde do que Nunca”. É uma comédia, um filme totalmente diferente do Canção da Volta. Devemos filmar no primeiro semestre de 2017.

Pulp!: Daniel Gravelli – Quais conselhos você daria para os jovens que pretendem tirar os seus projetos do papel e coloca-los no mercado?

GRM – Façam algo que seja possível de ser realizado com poucos recursos. É muito melhor começar fazendo coisas pequenas, onde se pode errar com mais tranquilidade. É muito importante saber lidar com os erros, aprender com eles. Errar é inevitável e fundamental em qualquer processo criativo. E numa produção muito cara, isso se torna muitíssimo mais complicado.

Confira abaixo algumas fotos do filme “Canção da Volta”.

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