Três amigos, três atores, um espetáculo

por Daniel Gravelli

Essa semana decidimos mudar um pouco os ares de nossa coluna, produzindo uma entrevista totalmente diferente do que temos feito por aqui. Nós convidamos três jovens atores, colegas de trabalho, para um bate papo informal sobre carreira e a oportunidade que conquistaram para participar da montagem musical de uma das obras primas do teatro, escrita por Artur Azevedo e José Piza, “O Mambembe”.

Os atores Joaz Perez, Rodrigo Naice e Robson Lima, integram o elenco do espetáculo que foi adaptado por Alexandre Amorim e tem Rubens Lima Junior na direção. A montagem faz parte do projeto de pesquisa UniRio Teatro musicado iniciado por Rubens, que já produziu grandes sucessos como “The Book Of Mormon”, “Spamalot” e o “Jovem Frankestein”. Além do apoio da própria Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, a viabilização da produção só tornou-se possível em virtude ao patrocínio da Fundação Cesgranrio, do professor Carlos Alberto Serpa.

Joaz tem 30 anos e veio do interior do Rio Grande do Sul, de uma cidade chamada Quaraí. Possui formação técnica em diversos cursos de atuação, realizados tanto no Sul quanto no Rio de Janeiro, e participações nas peças homem de papel, de Plínio Marcos, e Cidade das Mariposas, na qual interpreta o protagonista da história.

Rodrigo nasceu em Manaus e, desde 2009, vem trabalhando como ator profissional, aperfeiçoando cada vez mais suas técnicas através de diferentes cursos e peças. Em seu currículo consta o musical “Spamalot”, uma temporada no Beto Carreiro World e, agora, é o protagonista de “O Mambembe”.

Robson, é o único nascido e criado no Rio de Janeiro. Estudou na Nova Escola de Teatro e hoje dedica-se por completo a essa arte por qual é apaixonado, estando presente em algumas montagens conhecidas como “Cinderela – O musical”.

O Mambembe - Créditos Bianca Oliveira (1)

Elenco: O Mambembe – Foto por Bianca Oliveira

“O Mambembe” tem previsão de estreia para abril desse ano. Sendo assim, A Pulp! resolveu conhecer um pouco mais sobre o elenco e o processo de montagem dessa peça que promete ser um sucesso.PULP! – Vocês já se conhecem há muito tempo? Como é a relação dentro e fora do trabalho?

JOAZ PEREZ –  Conheci Robson e Rodrigo durante as audições do musical. Nossa relação profissional e pessoal foi simbiótica, crescendo ao longo do trabalho. Como o processo é intenso, e passamos diversas horas juntos, de segunda a sábado, nada melhor que criarmos uma amistosidade. (risos)

RODRIGO NAICE – A relação entre nós 3, e também com todo o elenco, é de muita união pois convivemos de segunda a sábado e precisamos estar muito unidos e coesos para assimilar e executar todas as tarefas que nos são dadas.

ROBSON LIMA – São duas pessoas incríveis que eu tive o enorme prazer de me tornar amigo dentro e fora do palco. Nossa convivência é muito divertida!

P! – Cada um de vocês é de uma cidade diferente, o Robson é o único que é do Rio de Janeiro. Quando converso com algumas pessoas que não são do Rio, é normal ouvir que alguns produtores facilitam para quem é daqui. Sendo assim, pergunto ao Joaz e Rodrigo: Vocês chegaram a sofrer algum preconceito do tipo? Quais foram as dificuldades encontradas por vocês, ao vir disputar uma carreira tão difícil e concorrida? E, Robson, na sua opinião, uma vez que você convive de perto com seus amigos, você percebe alguma diferença de tratamento dentro do mercado?

JP – A qualificação e o mercado de trabalho está fundada nos dois grandes centros brasileiros, Rio e São Paulo. Quando saí do sul, para começar minha vida teatral na capital paulista, de imediato entendi que seria um longo caminho a percorrer. Nas audições e na prática do trabalho me deparava com atores experientes, atualizados e com uma formação muito mais abrangente. Com isso, percebia o quanto as pessoas investiam em suas carreiras, que ao longo dos meus estudos busquei me equiparar.

RN – Preconceito eu nunca senti, eu só vejo no mercado uma exigência em relação ao sotaque. Então geralmente quem não é nascido no eixo Rio e São Paulo pode encontrar problemas por não ter o sotaque de nenhuma dessas duas regiões. Mas como vim morar no rio muito pequeno, quando decidi ser ator, não tive problemas relacionados a isso.

 RL – Não vejo um diferença quando se trata das origens dos candidatos. Não excluo que isso possa sim acontecer, mas nunca vivenciei nem ouvi por parte de colegas. Por mais que Rio e São Paulo sejam grandes polos e que aqui exista uma variedade maior de oportunidades tanto de trabalho quanto para se especializar e estudar, não é uma prerrogativa de que quem nasceu aqui tem alguma vantagem de certa maneira. No mercado, a qualidade do seu trabalho e o que você pode apresentar é que contam. Então o que importa mesmo é estar preparado e sempre buscar se aprimorar, e não propriamente de onde você veio.

PULP! – Como surgiu o interesse de vocês pela carreira de ator?

JP – Na minha infância, uma professora levou a turma para assistir um grupo de palhaços e, durante a cena, eles elaboraram uma improvisação e convidaram uma das crianças da plateia para um jogo teatral. Logo quando eu subi no proscênio, e encarei a plateia, experimentei uma falta de ar prazerosa. O registro daquele instante ficou tão latente no sensorial, e também como imagem, que naquele momento algo tinha sido despertado. Na minha adolescência ingressei em pequenos grupos teatrais, e em seguida para uma formação profissional.

RN – Meu interesse pelo teatro surgiu em 2005, quando entrei no ensino médio e comecei a fazer aulas de teatro na própria escola. No primeiro ano, fazia as aulas obrigatórias e a partir do segundo ano comecei a procurar cursos fora e a cada dia me via mais interessado pela área. Até que em 2009, quando me formei no ensino médio, decidi entrar em um curso técnico profissionalizante de teatro. E em 2010 passei no vestibular de artes cênicas da Unirio.

RL – Desde jovem sempre gostei muito das artes, especialmente da música, canto desde pequeno. Trabalhava com o teatro de forma amadora em um grupo da minha igreja, mas não tinha uma perspectiva de que um dia isso seria minha profissão. Então, há alguns anos, participei de uma atração em um dos parques da Disney, em Orlando, onde tive que me apresentar ao vivo para o público de todos os parques da empresa, além da própria plateia presente. Quando cheguei à noite no hotel e parei para pensar na experiência e a sensação que senti, cheguei à conclusão que a emoção dos palcos e provocar emoções nas pessoas era o que eu queria para minha vida!

PULP! – Todos os três já tiveram experiências com teatro falado e musicado. Além do canto e da dança, claro, quais outras diferenças existe entre os dois e qual o maior aprendizado vocês trouxeram dos antigos trabalhos que fizeram?

JP –  No teatro musical, além de organizar todas as qualidades da dança, canto e interpretação, os atores devem se submeter a cuidados rigorosos de saúde para encarar sessões de três horas e temporadas longuíssimas. Beber uma cerveja depois do espetáculo para comemorar? Negativo. Nossa fonoaudióloga e parceira do projeto, Luisa Caitora, puxaria nossa orelha. Acredito que o musical funciona com muita disciplina e entrega, aprendizado que carregado comigo de outros trabalhos, visto que a montagem não fica apenas na mão do diretor, mas passa por uma equipe técnica numerosa. Então o elenco deve estar muito atento para fluir o progresso e encontrar a fórmula do espetáculo.

RN – A diferença “maior” seria, acredito eu, que no teatro musicado você precisa dividir a sua atenção para além da atuação. Você também precisa focar no canto e na dança, nas três coisas tecnicamente e simultaneamente. Você precisa dar a mesma atenção aos três pontos. Já no teatro falado você pode focar mais na atuação e na composição de personagem, apenas. Ambos apresentam suas dificuldades e/ou suas facilidades, mas independente de tudo é preciso entrega, muito estudo e dedicação. Teatro, sendo ele musical ou não, é teatro! E precisa ser feito por atores.

RL – A maior diferença que vejo é que no teatro musicado, justamente por ser algo que engloba tantos campos, exige também muitas coisas, principalmente um condicionamento físico, não só no sentido de estar em forma, mas no zelo com seu corpo, com a sua saúde. É uma preocupação constante que se deve ter no dia a dia, nos privando muitas vezes e até mesmo nos levando a fazer alguns sacrifícios. Tudo isso é necessário para que nosso maior instrumento, que é o nosso corpo, possa ter estruturas para aguentar a intensidade desse tipo de trabalho. O maior aprendizado que sempre trago comigo é a disciplina e foco para que meu trabalho e esforços sejam sempre otimizados.

PULP! – Como surgiu a oportunidade de integrar o elenco de “O Mambembe”?

JP –  O projeto Teatro Musicado é uma matéria do curso Atuação Cênica da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), na qual todos os alunos de universidades federais podem se candidatar. Logo que entrei na Unirio, assisti o aclamado “The Book Of Mormon” e fiquei impressionado com a força do trabalho dos colegas de faculdade. Alí pensei: “Quero isso pra mim!”, então participei das audições do trabalho seguinte: “O Jovem Frankenstein”, de Mel Brooks. Integrei o elenco, e já estava projetando ingressar na produção do ano seguinte:“O Mambembe”, pois estava ali a oportunidade de dar vida a um texto clássico brasileiro que narra a trajetória de uma trupe de atores do começo do século XX. O texto é tão próximo do contemporâneo, que vimos que não existe diferença dos problemas enfrentados pelos “mambembeiros” daquele século comparado com as nossas questões artísticas atuais.

RN – Eu tinha feito um trabalho com o Rubens em junho do ano passado e ele tinha comentado que em setembro rolariam as audições para o musical. A principio, eu não pretendia me candidatar, mas passados esses dois meses eu vi as divulgações das audições, da ideia do projeto, e me interessei. Me inscrevi e fui fazer as audições despretensiosamente. Passamos por audições de dança, de canto e de interpretação até a escolha do elenco oficial. Mesmo com o elenco selecionado nós não sabíamos que papel iríamos interpretar. Na primeira leitura fizemos uma configuração de elenco, na segunda leitura fizemos outra configuração. Até a direção escolher a escalação final.

RL – Passamos por uma criteriosa audição. Fomos testados no canto, na interpretação, na dança, comicidade, ao longo de uma semana. Tudo isso para que a equipe pudesse ver quem se encaixaria melhor dentro da peça e da rotina que o projeto necessita. Me inscrevi, participei da audição, e para minha felicidade recebi a mensagem que tinha passado.

PULP! – Rubens Lima Junior vem se destacando bastante, com ótimos trabalhos realizados nos últimos anos. Como está sendo trabalhar com um diretor tão elogiado?

JP –  Incrível. Tenho muito orgulho de trabalhar com um expert em musicais. O trabalho do Rubens dialoga com o mercado de trabalho, tanto que hoje, vários colegas estão no circuito profissional, oriundos do Projeto Teatro Musicado. Ele prima pela excelência e atribui um caráter profissional nos espetáculos da universidade.

RN – O Rubens é um diretor muito talentoso e também muito exigente, ele gosta de marcar cada fragmento da peça. É preciso muita atenção, muita dedicação e muito estudo, pois a cobrança em cima da gente, os protagonistas, vira o triplo em relação ao elenco. Mas está sendo um processo incrível de muito aprendizado e muita gratidão. Trabalhar com diretor que vem se destacando por seus espetáculos de muita qualidade é, sem sombra de dúvida, uma grande oportunidade. Esperamos atender as expectativas que estão sendo criadas em cima desse projeto, desse musical. E queremos, acima de tudo, aprender com toda a equipe que é muito talentosa.

RL – Uma oportunidade única! Rubens entende muito do que faz, e isso fica bem claro durante o processo de montagem. Trabalhar ao lado de um profissional com um expertise para produções de sucesso é engrandecedor e nos traz um aprendizado muito valioso.

PULP! – Eu gostaria que vocês falassem um pouco sobre o processo de montagem da peça. Quais foram as maiores dificuldades impostas e aprendizados extraídos até agora?

JP –  Estamos no processo de montagem desde outubro de 2015. O projeto tem um prazo de um ano, e desde lá, estamos nos aprofundando na obra de Artur Azevedo, e também no gênero musical com aulas de Jazz, Ballet e preparação vocal.

É um working in progress. Diversos profissionais renomados no mercado de trabalho dividem sua arte com muita generosidade, já que eles compartilham suas ideias e projeções para caminharmos juntos na empreitada e, por isso, torna o aprendizado rico e constante. A dificuldade está na entrega total ao projeto. É um investimento dos 28 atores-estudantes para estar em cena, que dividem suas tarefas pessoais com as do projeto. Não é fácil… Mas eu vivencio constantemente uma evolução artística, que provavelmente gastaria uma boa grana para ter fora do âmbito acadêmico.

RN – O nosso “Mambembe” foi praticamente recriado do zero, nós mantivemos apenas o texto e, também, com adaptações. As músicas, coreografias e até mesmo a inserções de novos personagens foram feitas especialmente para esse elenco. Está sendo um processo maravilhoso, pois tudo que está sendo contado, mostrado e criado é para gente e pela gente.

É a primeira vez que interpreto um protagonista e sem sombra de dúvida a quantidade de texto, de música e de responsabilidade assusta um pouco. Mas estamos sendo preparados por uma equipe muito competente e com certeza daremos o nosso melhor para que essa montagem seja inesquecível.

RL – Gosto muito de pensar que o processo de montagem ganhou um significado especial e literalmente singular para todos. Por estarem sendo criadas, muitas vezes, coisas do zero, é possível ver um pouco de cada um; seja do elenco ou da equipe; na essência do espetáculo. É um trabalho que vem sendo lapidado para chegar a um bom produto, e que quando concluído será bem rico. Ver uma montagem dessa magnitude, que tem tantos atores e assim tantos processos acontecendo ao mesmo tempo, tem sido um grande aprendizado, com toda certeza. A maior dificuldade é aliar todos os outros compromissos e tarefas com o projeto.

PULP! – A peça é considerada um clássico do teatro, obtendo ao longo dos anos excelentes montagens e, porque não dizer, algumas bem desastrosas. O que podemos esperar do trabalho de vocês, o que veremos de diferente?

JP –O Mambembe” terá versão e músicas inéditas, de Alexandre Amorim. Nós colocaremos em cena uma pesquisa inteiramente original e reelaborada do texto, com a fidelidade do humor e crítica da realidade do teatro no começo do século XX, apontado por Artur Azevedo.

RN – Trata-se de artistas contando história sobre artistas, para artistas e não artistas. Nossas expectativas são as melhores possíveis, pois estamos nos dedicando e estudando muito. Compondo cada personagem com atenção e muito carinho. Esperamos que a nossa vontade, o brilho no olho e a nossa sede de aprendizado toque a plateia, e que essa mensagem chegue no coração de cada pessoa que for assistir e ela entenda um pouco sobre o que é ser artista no Brasil.

RL – Como disse anteriormente, o espetáculo passou a fazer parte de uma esfera muito pessoal de cada um. “O Mambembe” conta a nossa história, a história de tantos artistas que passam por tudo em prol dessa paixão. Esse trabalho é fruto de muito esforço e sentimento por parte de todos, e será possível notar isso em cada detalhe da montagem. Uma equipe de especialistas juntos para produzir o melhor que o espetáculo tem a oferecer para o público.

PULP! – Quais as personagens de vocês e como vem sendo o processo de construção da mesma?

JP –  Interpreto Pantaleão Praxedes Gomes, um velho coronel do interior brasileiro que sonha ser reconhecido como dramaturgo. Através da companhia Frazão, ele atormentará a vida do trupeiro para colocar seu drama em cena, e de quebra, tentar conquistar a primeira-dama da cia, Laudelina. Para a composição desse personagem, busquei referências na Commedia Dell’arte, e dentro desse gênero encontrei arquétipo do Pantaleão, apresentado como o velho avarento, muito rico, detentor dos valores mais baixos. O aprimoramento do personagem continua, sistematicamente, em cada ensaio com a descoberta de novas possibilidades e no jogo cênico com o elenco.

RN – Eu interpreto o Frazão, que é um empresário, um ator consagrado e também o dono da companhia mambembe. É um desafio enorme, ele costura toda trama, ele leva as pessoas para todas as cidades e faz o mambembe “ficar de pé”, sempre correndo atrás de dinheiro, hospedagem e o melhor para os seus atores.

O maior desafio está sendo a maturidade que o personagem precisa ter, pois o Frazão tem e torno de 50 anos e eu tenho apenas 25, então eu preciso buscar e inventar uma maturidade que eu não tenho, mas ele precisa ter. Ele é um cara vivido, um cara experiente, então a maior dificuldade está sendo imprimir essa maturidade, essa experiência, essa fama e gloria que o personagem tem. Nossa preparação de elenco está sendo feita por três pessoas: O Rubens e seus dois assistentes, João Gofman e Julio Ângelo. Eles pegam pesado com a gente (risos) e nos passam muitos exercícios pra ajudar nossa composição. Mas entendemos que tudo é para o bem do espetáculo e adoramos isso.

RL – Interpreto o galã apaixonado que se chama Eduardo. Eduardo é um típico trabalhador de repartição, que sempre teve uma vida bem reta e regrada. Mas quando conhece Laudelina, se apaixona perdidamente por ela e toda essa rotina organizada e controlada sofre uma reviravolta. Ele parte junto do Mambembe do Frazão, indo atrás de Laudelina. E junto da sua amada e de toda a trupe eles passam pelas enrascadas e apertos que até hoje os artistas enfrentam pelo amor à arte. Tem sido um processo de construção bem prazeroso e proveitoso, aliando o que a direção nos apresenta de subsídio para criação, e o que nós mesmos apresentamos para trazer mais profundidade ao personagem. Tivemos um grande auxilio com palestras com especialistas da época da peça, especialistas do próprio “O Mambembe”, nos permitindo um estudo bem aprofundado e mais sólido.

PULP! – O teatro musical vem crescendo rapidamente no Brasil. Esse fato é tão grande que, inclusive, existem empresas de produção especializadas nesse tipo de realização, e recentemente uma nova empresa declarou o interesse de fazer do Rio e São Paulo uma nova Broadway. Entretanto, ainda existe uma barreira socioeconômica e cultural (devido ao alto custo do ingresso e a necessidade de uma demanda maior de público). Na opinião de vocês, o que deveria ser feito para o musical decolar de uma vez por todas por aqui?

JP –  O teatro musical não é uma novidade do nosso tempo. O Teatro de Revista, por exemplo, é um gênero do começo do século que já apresentava números musicais. A montagem do “O Mambembe” propõe uma aproximação do público com a historicidade da época. É evidente que o mercado ganhou muita força nos últimos anos com a importação dos musicais da Broadway. Grandes obras que assistiríamos caso fossemos à Nova Iorque ou Londres, estão próximas do grande público nacional, trazendo o que há de melhor em tecnologia aliada a arte. Obviamente, o custo desse trabalho é alto e o dinheiro arrecadado com a bilheteria não paga a temporada. Mas o preço do ingresso não deveria ser um problema para a falta de plateia, até por que as pessoas pagam valores astronômicos pra assistir uma luta de UFC, que jamais esteve vazia. Acredito que deve-se investir em valores sólidos na educação para que as pessoas apostem na cultura teatral como uma arte-educadora.

Não podemos esquecer que o povo brasileiro é musical. E se esse mercado está em expansão, temos uma oportunidade de explorar uma identidade musical/brasileira, investindo na capacitação dos artistas e também, na formação de dramaturgos que explorem a gama folclórica, que percorre no sangue de quem faz e assiste, para num futuro próximo, exportarmos para o mundo um produto nacional. Pra mim, a montagem do “Gonzagão, A Lenda”, de João Falcão, é um belo exemplo de sucesso, que une o gênero musical com a cultura popular brasileira. O projeto Teatro Musicado recebe o apoio da Fundação CESGRANRIO, que visa integrar músicos, atores, técnicos, e prepará-los para o mercado de trabalho. O apoio de empresas privadas e públicas deve colaborar com a produção de novos espetáculos

RN – Eu acredito que a cultura, no geral, ainda é um pouco desvalorizada no Brasil. Temos poucos investidores que acreditam na arte como uma ferramenta de soma a população. Nosso projeto, por exemplo, tem o patrocínio da Fundação Cesgranrio, que é uma fundação que vem mostrando muito apoio a arte, dando suporte para espetáculos de teatro, musica, etc. E também os tornando mais acessíveis ao grande público. Precisamos que nossa população se conscientize sobre a verdadeira importância da arte na formação de um indivíduo e que as grandes produtoras também torne os espetáculos mais acessíveis.

RL – O universo de musicais muitas vezes é desconhecido pelo público e isso vai além de uma segregação socioeconômica. É importante que desde os primórdios da educação esse universo de musica, arte e dança seja apresentado como uma opção para os estudantes. Dessa maneira, eles vão crescer cientes de novos caminhos, e principalmente a valorizar a própria cultura. Somos carentes de produções nacionais e temos tanto a oferecer com a nossa cultura que é tão rica. No que tange a preço de ingressos, vejo como algo muito relativo. Existem diversos outros tipos de entretenimento que tem alto custo e da mesma maneira continuam sendo consumidos pelo público. O que é preciso é que o público tome conhecimento que o custo benefício é válido a partir do momento que se entende do que é preciso para que uma produção de musical aconteça. Hoje em dia, o investimento público e privado é muito importante para o acontecimento de muitos projetos.

PULP! – Para finalizar, quais outros planos e trabalhos vocês têm para esse ano que está apenas começando?

JP –  Primeiramente, projeto uma vida longa para esse novo musical brasileiro e, claro, continuarei minha formação acadêmica em Atuação Cênica na UNIRIO. E neste ano, também estarei na montagem “Aos Meus Pais” com Renato Farias e direção de Tonio Carvalho.

RN – Além do mambembe, eu também trabalho como cantor e ator na casa de Cultura Julieta de Serpa, faço parte dos espetáculos musicados de lá. Atualmente estou em cartaz com espetáculo “Cine atlântida” que homenageia o cinema brasileiro dos anos 50. Então, acredito que para o primeiro semestre os planos fiquem por isso. Mas temos certeza que o mambembe terá vida longa e a partir dele virão outros trabalhos. Que essa vitrine seja a porta para todo o elenco mostrar que também está preparado e apto ao mercado.

RL – Espero que “O Mambembe” ainda nos dê muitos frutos em 2016 e que possamos ir além com inúmeras oportunidades e possibilidades. Continuarei meus estudos de teatro nesse ano, e em relação à trabalhos futuros, ainda não tenho nada previsto além do projeto.

Depois dessa conversa especial, que nos fez conhecer um pouco sobre o espetáculo e o trabalho desse trio, só nos resta esperar ansiosos pela estréia da peça que acontecerá em abril.