Ao contrário de seus antecessores, “Head Full of Snow” não começa com nosso já conhecido Sr. Ibis, mas com um episódio “em algum lugar da América”. Em sua cozinha no Queens, a Sra. Fadil prepara um almoço para sua família quando recebe uma visita de Anúbis (Chris Obi), o deus egípcio dos mortos.

Não demora para a senhora entender que acabara de passar para o outro lado. Guiado pela divindade e seu gato de estimação, Fadil atravessa todo o processo até o mundo dos mortos. O momento mais curioso da cena é quando a mulher indaga Anúbis do porque de sua presença. “Essa é uma casa muçulmana”, diz. Anúbis então responde que ela merecia aquele auxílio, pois ainda se lembrava das histórias que ouvira quando criança sobre o panteão divino egípcio.

Depois da sequência com Anúbis, voltamos nosso protagonista poucos minutos de receber sua sentença de morte de Czernobog. Shadow acorda no sofá da sala das Zoria. Ele sobe para o telhado e encontra a mais nova das três irmãs, Zoria Polunochnaya (Erika Kaar). A moça observa o céu com uma luneta, para impedir que um urso – A Ursa Maior – deixe o firmamento e provoque a destruição do nosso mundo.

Assim como suas irmãs, ela lê o futuro de Shadow, mas sua resposta é diferente. Como ele não acredita em nada, o futuro não lhe reserva nada. Sem explicar como, a moça também sabe sobre o trato com Czernobog. Em troca de um beijo, ela lhe oferece proteção: retira a lua do céu e a entrega para Shadow. Quando volta para dentro do apartamento, ele percebe que o presente é uma moeda.

Seja por inspiração divina ou não, Shadow propõe a Czernobog uma nova partida. O trato permanece o mesmo, sendo que a martelada anterior continua valendo. O deus aceita, e agora Shadow corre o risco de ser golpeado mais de uma vez.  Enquanto a partida se desenrola, Wednesday conversa com a mais velha das Zoria. Ela prevê a derrota do deus em sua empreitada, mas ele não se abala, e deixa claro que seu objetivo é guerra.

A nova partida termina com a vitória de Shadow. Czernobog aceita a derrota, mas não abre mão do direito de matar Shadow, assim que a missão terminar. Já pela manhã, Shadow com Wednesday anunciando que vão roubar um banco.

Então somos guiados para outra narrativa. “Em algum lugar na América”, o imigrante e vendedor Salim  (Omid Abtahi) tenta sem sucesso fazer negócios. Desiludido, entra num táxi onde o motorista (Mousa Kraish) fala sua língua natal.

Não demora para que Salim se dê conta que o taxista é um Jinn – o que no ocidente ficou conhecido pela figura do gênio da lâmpada. Ao contrário do que o senso comum ensina, Jinns não são necessariamente bons ou maus. E como o próprio Jinn comenta, não concedem desejos.

A divindade reclama dos clientes, e diz que alí, nos EUA, ninguém os conhece. Salim consola o outro de forma carinhosa e quando chegam em seu destino, o convida para subir ao seu quarto. Os dois fazem sexo, e na manhã seguinte, a divindade deixa seus documentos e o táxi de presente para Salim.

De volta para a trama principal, Shadow protesta de todas as formas possíveis contra o plano de Wednesday. O chefe não ouve, e arrasta o guarda-costas consigo. Primeiro, pegam cartelas de depósito no banco. Depois, vão a gráfica fazer cartões. Ao ver que Shadow continua tenso – e convenhamos, tem motivos pra isso – Wednesday sugere que ele ocupe seu pensamento com neve.

Sem escolha, Shadow segue o conselho.

É quando começa a nevar.

A atenção dos dois é desviada do plano com a chegada de Mad Sweeney. Em cenas exibidas antes, durante o episódio, vemos que o leprechaun ia para Wisconsin, quando um acidente grotesco na estrada o fez perceber que estava sem moeda da sorte. Shadow revela que jogou a moeda dentro do túmulo de Laura e Sweeney parte – não sem antes fazer um comentário chauvinista sobre a falecida.

Com a ajuda tempestade de neve, os cartões falsos – e do relutante Shadow – Wednesday executa seu plano. A dula cai na estrada novamente. “Head Full of Snow” termina com Sweeney abrindo o túmulo de Laura e o encontrando vazio, ao mesmo que tempo que Shadow dá de cara com a esposa em seu quarto de hotel.

O terceiro capítulo de “American Gods” é todo dedicado ao tema da crença, e os benefícios que os mortais ganham por tê-la. Não se trata, porém, de uma ideia engessada – e cristã – de fé, mas de uma noção a lá Joseph Campbell de um mundo que se abre para quem insere os deuses e os mitos no seu dia-a-dia.

Desde a Sra. Fadil, até Salim e Shadow – somos apresentados a uma cena típica das narrativas mitológicas : o herói que se depara com o mundo sobrenatural, e por respeitá-lo, recebe auxílio. Essa ajuda pode vir na forma de bens materiais, ou até mesmo misericórdia e afeto – como na cena de Salim e o Jinn, merecidamente elogiada e comentada.

Ao contrário dos outros humanos, Shadow ainda se recusa a acreditar plenamente no que tem vivenciado. É o típico herói relutante do monomito de Campbell. O diálogo entre ele e o Wednesday, ao fim do capítulo, deixa isso bem claro.

Shadow permanece em cima do muro, e sua sorte com os deuses tem sido instável. Mas como o herói dessa narrativa, ele vai precisar tomar uma postura e arcar com os resultados dessa escolha.

Se levarmos em conta o destino da Sra Fadil e Salim, podemos permanecer otimistas.


Para acessar os dois primeiros Recaps: Episódio 1 e Episódio 2