Se tem uma época do ano que me provoca mais reflexão, esta é o inverno, mas digo o inverno daqueles com dias muito frios e com aquela chuvinha insistente e chata, mas não só porque nos obriga a ficar mais interiorizado e reservado, mas sim, porque é possível ver outras realidades…

Vejam só: era um dia de garoa fina e gelada, e um vento e temperatura insuportáveis de caminhar por muito tempo pelas ruas devido ao extremo frio, mas, no caminho do trabalho, um senhor simples, bem magrinho e com roupas esfarrapadas (que não eram de frio), passava de casa em casa com uma sacola contendo alguns mantimentos, e sim, ele estava a pedir, debaixo de chuva e frio, e quase ninguém saía do conforto de suas casas para atendê-lo.

Senti-me impotente por não poder ajudá-lo naquele momento, mas o mais interessante é que aquela cena não foi em vão e me trouxe uma grande reflexão:

Compadeci-me e lembrei-me dos tempos das “vacas magras”, não que o momento atual seja de “vacas gordas”, mas também já passei pela humilhante necessidade de pedir algo para comer e vestir, e, ao voltar ao passado e lembrar todas as mazelas já vividas, não tive olhar de revolta, mas sim, de agradecimento!

É muito bom rever o que vivemos ao longo de nossas vidas, os momentos bons e também os ruins, é o que nos torna mais humanos!

Humanos: é isto mesmo que devemos aprender a ser com nossas experiências, a perceber que o outro também é humano, e que além do frio e da fome, também sente medo, vergonha, dor e quando chega ao extremo de precisar estender a mão para pedir, não é por comodismo, sem vergonhice ou vagabundagem, mas sim, por que ali já perdeu toda a sua dignidade humana, e, ao pedir, já não esmola só sua necessidade material, mas sua honra de levantar a cabeça como ser humano que é.

Mas o que fazemos? Muitas vezes tratamos como se fosse qualquer outra coisa que não um ser humano.

E esta reflexão pode ir muito além, afinal de contas, quantas vezes nos deparamos com pessoas que fazem questão de afirmar que pagaram X ou Y em produtos de custo altíssimo, ou mesmo admirar celebridades que pagam o valor de uma casa em uma simples diária de hotel! Isto seria para se admirar e engrandecer quando se sabe que há tantos senhores no frio e na chuva mendigando o mínimo para a sua sobrevivência e a de sua família?

Aonde foi parar a nossa sensibilidade quando temos coragem de pagar um valor altíssimo em uma garrafa de uísque para nos aquecer do frio, mesmo sabendo que muitos morrem de frio jogados pelas ruas?

É, realmente é um pensamento um tanto quanto perturbador, mas necessário se queremos ter a honra e dignidade de sermos considerados humanos.

Muitas vezes queremos apenas desfrutar no frio de “um bom lugar pra ler um livro”, mas para termos a consciência em paz e a mente vazia para uma simples leitura é preciso nos perturbar, despertar nossa consciência para a realidade à nossa volta.

Aí eu me pergunto e jogo aqui a questão: será que se eu nunca tivesse passado por uma situação difícil, de necessidade, me comoveria com tal cena? Ou passaria despercebida e continuaria a ignorar o pedido de quem clama por ajuda?

Pois é, muitas vezes é preciso que passemos por momentos difíceis para experimentarmos nossa pobre condição humana, e assim, nos tornar mais humanos, e eu agradeço por tudo o que experienciei e aprendi, mas será que é possível ser mais humano sem passar por momentos difíceis assim?

Sim, é possível aquecer nossos corações sem atravessar o frio congelante do inverno, se for necessário passar por ele, que seja, mas não esperemos ele chegar e nos congelar para irmos atrás de o aquecer, vamos olhar ao nosso redor e perceber que a realidade é bem maior que o “mundinho” em que vivemos, e enquanto estivermos presos à ele, haverá sempre uma mão estendida à espera de nossa iniciativa de devolver a dignidade alheia, roubada por nós mesmos, pelo nosso egoísmo.

Que este finzinho de inverno seja mais que um tempo de reflexão, mas de mudança e conversão de nosso coração, que sejamos mais humanos para humanizar a quem perdeu sua dignidade!

E para quem não sabe por onde começar, lá vão algumas dicas de onde e como ajudar:

Exército da Salvação

Contato: (11) 4003-2299 – (11) 99941-1805
Serviços: retiradas de móveis, roupas e todo tipo de doações para distribuições aos necessitados.

Cruz Vermelha Brasileira

Contato: (21) 2507 33 92 / editoria@cvb.org.br
Serviços: retiradas de móveis, roupas e todo tipo de doações para distribuições aos necessitados.

Sociedade Sâo Vicente de Paulo

Contato: (11) 3120-5549 / 3259-6044 / atendimento@ssvpsp.org
Serviços: doação financeira ou de bens para ajuda aos necessitados.

Instituto Nacional de Câncer (INCA)

Contato: (21) 3207-4574 – e-mail: incavoluntario@inca.gov.br
Serviços: doação de bens, financeira e de serviços para familiares e pacientes em tratamento no INCA.