Em meio às novas caras da nova MPB (que não param de nos encantar), surge na Zona Norte Carioca uma banda que traz consigo uma mensagem urgente, com canções escritas para chegar ao coração dos ouvintes sem medo, em uma pegada de “guerrilha urbana”. Composta por Maíra Garrido (intérprete), Ivan Britz (Violão e voz), Guilherme  Ashton (contrabaixo) e José Ricardo (eletrônica), a Banda “Reflexos” passeia em uma Música Popular que conversa com o rock e a música eletrônica. O grupo também trabalha com conceito de audiovisual, contando com reforço de iluminação de Anderson Ratto e de direção cênica da diretora Teatral Brunna Napoleão (a mesma que tocou o trabalho com o coletivo “As Minas”, lembram?).

A banda traz à cena um show autoral e potente. Com arranjos de qualidade, uma intérprete notável e músicas que cativam o público para além da beleza, o quarteto tijucano tem a força e a sensibilidade necessária para encantar a diversos públicos de muitas gerações. Nós da Woo! Magazine já tivemos a chance de conferir esse showzaço (e contamos tudo  aqui!), e agora que eles estão tirando do forno mais um clipe incrível, nós não perdemos a chance de conhecer um pouco mais desse trabalho que começa a ganhar força e corações.

Lorena Freitas – Como aconteceu o encontro de vocês enquanto conjunto? Como se estabeleceu a parceria?

Ivan – Acho que o Reflexos já nasce de uma relação de amor. A Maíra era namorada da minha melhor amiga da vida, ambas são cantoras e gostaram das minhas composições que eu fazia só pra liberar o peito. Uma certa vez, a Maíra me chamou para realizar um pequeno show em uma festa privada onde tocaríamos as minhas músicas. Mesmo sendo algo íntimo e informal, o impacto foi grande, até mesmo para nós e ali vimos que precisávamos fazer isso ‘acontecer’. Sabíamos que precisávamos de mais membros, mas estávamos fugindo do tradicional violão, voz e percussão, trio chavão da mpb reduzida. Pensamos em vários instrumentos e chegamos ao contrabaixo que pode bordar contracantos, fortalecer a harmonia e guiar o ritmo ao mesmo tempo. Quando decidimos o instrumento o nome do Ashton já estava engatilhado. Sempre foi muito nosso amigo e conhecíamos o nível do trabalho dele.  Chegamos a fazer algumas apresentações neste formato e a empolgação foi crescendo. Percebemos que para realmente preencher o espaço sonoro que queríamos precisávamos de mais uma pessoa. Pensamos em sopros solistas, bateristas e afins, mas, como queríamos muito uma sonoridade urbana decidimos arriscar com a música eletrônica. Os três tinham muito pouca experiência com ela, sendo assim, precisávamos de uma referência sólida. Acionamos professores colegas da Unirio que recomendaram o José Ricardo.

Ele chegou devagar sempre com mais perguntas que respostas, mas debaixo de toda esta humildade jaz uma sensibilidade musical muito grande que permitiu que ele montasse o ‘set’ dele de forma a perfeitamente encorpar nosso som mantendo sua identidade básica: canção.

Na outra ponta do convite, a visão de José Ricardo foi:

José Ricardo – Um belo dia recebi uma mensagem do Ashton me convidando para fazer uma experiência e quem sabe integrar o Reflexos. Eles se formaram na Unirio (onde atualmente trabalho como técnico de gravação e estudo Composição Musical) e buscaram uma indicação de alguém com meu perfil com meus grandes mestres Marcelo Carneiro e Paulo Dantas, com quem tive a sorte de estudar Música Eletroacústica e Música Experimental respectivamente. Então, fui convidado a assistir um show do Reflexos ainda em trio, numa escola de música, no dia 15/10/2016. Eu levei meu gravador de mão e meu par de microfones binaural e registrei um show bem bonito que escuto até hoje e acho incrível. Marcamos uma reunião e me perguntaram o que eu achei do show. Eu disse algo do tipo: “gente, o som de vocês é muito foda. Eu não entendo o porquê de vocês estarem convidando mais um integrante, mas se for isso que vocês querem acho que vai ser bastante divertido tocar com vocês”.

A intérprete complementa:

Maíra Garrido – (…) que reflexos surgiu pra mim de uma admiração profunda pelo trabalho dos meninos – Ivan e Ashton – e confiança eterna no bom gosto deles. O Ricardo: O que dizer sobre o Ricardo? Ele é absurdo. Ele é meu fechamento e meu mozão (risos). Falando sério agora, tadinho né? Ele foi jogado aos leões. E aos poucos fui aprendendo a admirá-lo e fui construindo essa confiança. Ele tem uma função muito determinante na sonoridade do grupo em geral porque todos os instrumentos passam pela mão dele e ele pode fazer simplesmente o que ele quiser. Então, eu sou grata pela confiança que ele teve em nós, e por ele ser um músico incrível e sensível que faz reflexos ser o que é.

Abraço

L.F – Mesmo vocês sendo um grupo (nesta formatação) recente, quem assiste sente uma sinergia incrível.  Como vocês explicam essa afinidade tão rápida e de tanta qualidade?

Ashton – Acho que duas coisas são fundamentais para essa sintonia: a vontade de fazer música e a similaridade de pensamento. Discordamos em vários assuntos, mas sempre em pequena escala. Acho que todo mundo na banda sente que música é uma coisa linda e que tem muita coisa errada acontecendo com as pessoas e com o mundo. Compor, cantar e tocar é uma maneira de colocar pra fora tudo o que incomoda e fazer quem ouve (e nós mesmos) refletir.

 L.F –  Falem um pouco sobre os prêmios, a criação da música ganhadora “Capitão da Canção”, e quais os horizontes que essa oportunidade abriu.

Ivan – O prêmio de melhor canção por júri popular foi completamente inesperado. Entramos no festival com a intenção de divulgar nosso trabalho e participar de uma comunidade de compositores contemporâneos. Quando acabamos de tocar eu já sabia que a Maíra estaria concorrendo a intérprete, mas quando chegamos na premiação e começamos a receber as comendas foi muito surpreendente e emocionante. Receber o prêmio nos confirmou que o trabalho está na direção certa e que temos que investir em sua qualidade cada vez mais. Já a remuneração financeira do festival nos deu uma margem de manobra para divulgação e necessidades da banda. Além disso, deter dinheiro público por causa da sua arte é uma grande responsabilidade e levamos isso muito a sério. No geral, o prêmio foi uma chicotada: – vamos galera que o mundo é grande e temos trabalho a fazer. A música capitão da canção foi composta por mim nos jardins da Unirio onde aprendi quase tanta coisa com meus colegas músicos quanto nas salas de aula. É significativo que tenha sido lá porque eu refletia muito sobre o que nossa geração estava fazendo da canção e muitas vezes sinto um saudosismo melancólico com o lirismo perdido a partir da bossa nova. Enquanto escrevia pensava no Gonzaguinha, no Gonzagão, no Milton e em todos aqueles que carregaram uma responsabilidade nas costas de cantar a vida do brasileiro que é tão rica e tão sofrida. O capitão da canção é um chamado pra todos os cancioneiros e cancioneiras não desistirem. Eu acredito que esta é a forma de expressão que mais representa a alma brasileira, mesmo no mundo contemporâneo.

L.F – Vocês foram convidados para abrir as apresentações de Março (Mês das mulheres) no Centro da Música Carioca. Qual a importância, na opinião de vocês,  desse convite para a Banda, e para o evento? (No sentido de ter uma super intérprete mulher abrindo os trabalhos desse mês. Como acreditam que isso se relaciona com esse processo de valorização da mulher na música e nas artes?).

Maíra Garrido – Não sei se posso falar da importância pra banda em si, mas posso falar em como isso bateu pra mim. Quando recebi o convite do Rubens ele comentou que a minha participação no Festival do Zimba havia mudado a referência de intérprete vocal feminina que ele tinha na atualidade, claro. E essa é uma luta minha. Eu tenho questões com quem não se dá por inteiro. É isso, eu me sinto muito honrada por poder levantar essa bandeira da força da mulher brasileira, ou até ouso dizer da força da intérprete vocal brasileira, com o respaldo das musas eternas Maysa, Elis, Bethania e todas as mulheres que transformaram sua vida em arte e sua arte em missão.

– E os parceiros não escondem o orgulho de trabalhar com Maíra:

José Ricardo – Vivemos um momento importante de empoderamento da mulher. A Maíra representa essa voz. A mulher empoderada, que luta, que abre os olhos, que se escuta e se deixa sentir, que enfrenta, que dá representatividade a tantas outras vozes. As pessoas se identificam. A presença dela é muito forte, muito intensa.  E quando mostro nosso som pra alguém a pergunta que surge logo depois da primeira palavra geralmente é: “quem é essa mulher?”. A gente fica muito feliz em fazer parte disso, de deixar ela sempre à vontade pra se expressar de forma tão linda e sincera.

Ashton – Ter uma intérprete tão forte e apaixonada como a Maíra é simplesmente fantástico né? A força do trabalho é elevada um milhão de vezes e a atitude dela por si só já ajuda a passar uma das mensagens que queremos. A arte é a mesma para todos. Não importa gênero, religião, cor da pele. Somos todos ouvintes e apreciadores. Somos todos importantes e merecedores da arte e está mais do que na hora de acabarmos com essa estória de discriminação, machismo, racismo, enfim Ódio. Já deu. E a Maíra chama, com suas atitudes no palco, o ouvinte a pensar e redefinir seus conceitos sobre a mulher na arte e no mundo, mostrando que não tem “lugar da mulher” o “lugar da mulher” é onde ela quiser e como quiser.

Show

Foto: Gabriela Isaías

 

Ivan –  A Maíra representa pra mim essa luta corporificada com todas as suas conquistas, questionamentos, lições, fragilidades e sentimentos. Quando eu escrevo músicas escrevo a partir do ponto de vista de um homem e quando ela canta ela reflete de volta pra mim o que significa ver como uma mulher. Poder acompanhar a Maíra e ainda dar munição pra ela num contexto de espaço artístico para mulheres é uma honra.

L.F – Quais são os planos futuros para o grupo? E quais as novidades saindo do forno?

Maíra Garrido – Os planos pra esse ano são finalizar o nosso primeiro EP que já está sendo gravado desde fevereiro e fazer o show em outras cidades e estados do Brasil. Mês que vem lançaremos o clipe da música “Tamborim” num show previsto pro dia 20/06 no vizinha 123.

Para conhecer um pouco mais do trabalho da banda, dá uma conferida no clipe da música vencedora dos prêmios Festival de Música do Zimba.

Também se apaixonou? Então siga a banda no canal e (em breve) no Spotify.