Quem gosta de moda certamente já foi impactado por algum desfile inovador da Comme des Garçons, a famosa grife japonesa que é conhecida por seus designs austeros e desconstruídos, sempre tendendo ao lado anti-fashion. O que poucos sabem, no entanto, é a trajetória da mente genial por trás da marca. A fundadora e head da Comme des Garçons é a japonesa Rei Kawakubo. Nascida em Tóquio, a estilista de 74 anos divide seu tempo entre os headquarters da marca, em Aoyama – o bairro fashion de Tóquio – e em Paris, na Place Vendôme. Frequentemente, ela é vista como a primeira a chegar e última a sair do escritório.

Toda essa dedicação resultou na construção de uma grife extremamente bem-sucedida e inovadora no mundo da moda. Não muito tempo após sua inauguração em 1973, Rei começou a declarar sua insatisfação com alguns de seus próprios designs da grife japonesa e, mais uma vez, repaginou todo o conceito da Comme des Garçons, afirmando que na moda é preciso fugir da influência do que já foi feito nas décadas de 20 e 30 e começar do zero. A estilista acredita que a moda deve ser criada de uma forma direcional e poderosa, com uma imagem forte.

O pensamento vanguardista de Kawakubo resultou no que os críticos de moda afirmam ser o divisor de águas no mundo fashion, com seu desfile entitulado “Body Meets Dress, Dress Meets Body”, em 1997, que provou que o “status quo” é algo que a grife caminhou na direção oposta. O show de primavera/verão da Comme des Garçons daquele ano foi lembrado como o desfile de “Lumps and Bumps” (caroços e inchaços), mostrando vestidos recheados com enchimentos e formas esculpidas, dando ao corpo humano uma nova forma, questionando a convenção. Esse novo diálogo da forma no mundo da moda quebrou regras e correu riscos, provando que é possível mudar o que a maioria acredita não poder.

Lendário desfile de 1997 da Comme des Garçons

O trabalho encantador e arriscado de Kawakubo garantiu à estilista uma homenagem no Met Gala desse ano. Desde 1983, quando o homenageado foi Yves Saint Laurent, o Costume Institute não exibia uma retrospectiva de algum designer vivo. (Para quem ainda não sabe o verdadeiro motivo do baile de gala do Metropolitan Museum of Art, confira a nossa coluna anterior aqui).

A exposição desse ano, Art of In-Between, fica em exibição até setembro e tem curadoria de Andrew Bolton. Cerca de 150 peças estão dispostas em um set criado por Rei, desenvolvido com as próprias mãos em um galpão em Tóquio. A exposição é dividida em sessões batizadas de Passado/Presente/Futuro, Modelo/Múltiplo, Ordem/Caos, Fashion/Antifashion e outros temas que já foram alvo de seu trabalho na moda.

A exposição é uma espécie de playground futurista e foi feita com extremo cuidado por apenas quatro mãos: as de Rei e de Bolton. Apesar de aceitar a curadoria dele, Rei, que dispensou o restante da equipe do Museu que é responsável pela criação do conceito e arquitetura, afirmou que foi uma batalha dividir seu trabalho com outro profissional. Um dos pontos mais delicados foi convencer a estilista de que a exibição deveria ter a forma de retrospectiva, algo que Kawakubo não queria. A japonesa preferia focar apenas em seus trabalhos recentes, por acreditar que profissionalmente não poderia avançar se continuasse olhando pra trás. Mas acabou por aceitar, entendendo a importância do olhar retrospectivo para uma exposição como essa, e os dois concordaram em abrir mão do aspecto clássico da cronologia.

Uma das galerias de outfits da Comme des Garçons no Costume Institute do Met

Rei Kawakubo afirma que seu trabalho é desenhar roupas para mulheres que não se deixam influenciar pelo que seus maridos pensam, por acreditar que a Comme des Garçons é uma grife individualista, e não criada para atrair o sexo oposto. Sua postura moderna e empoderada questiona os padrões de beleza estabelecidos no mundo e é claramente visível na forma como suas roupas são criadas e a maneira como são dispostas, intrinsecamente conectadas, indo muito além das passarelas e semanas de moda.

“Para algo ser belo, não precisa ser bonito.”

Rei Kawakubo