Texto produzido em outubro de 2016, na ocasião de uma visita ao ateliê do artista Renato Bezerra de Mello, que apresenta exposição individual no Paço Imperial, Rio de Janeiro. Com curadoria de Marcelo Campos.

Diligência.

Visitar ateliê de artista, na minha opinião, é desempenhar a empreitada de participar diretamente do universo das suas inquietações experienciando forças que o levam a arquitetar um ou outro projeto. Vivenciar a esfera em que o artista nos permite acompanhar suas garantias e conflitos, abrindo brechas ao mesmo tempo, para elaboração e desconstrução de narrativas que permeiam os trabalhos.

A sala estruturada da última vez cedeu lugar as caixas vazias que aguardam o encerramento da exposição individual em curso no Paço Imperial. No segundo cômodo a mapoteca está com a  gaveta aberta mas o artista aponta para uma pilha de papéis finos com incontáveis bolinhas vermelhas desenhadas. A cada folha, uma bolinha deformada, muitas apenas para os  olhos de Renato Bezerra de Mello. Essa coleção de erros foi revisitada, será encadernada junto de outros blocos encontrados no fundo da gaveta durante este período de metódica arrumação em que aguarda a sofrida reorganização.  

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É neste espaço que Renato fica imerso num processo solitário promovendo operações reprisadas muitas e muitas vezes como o corte de pequenos confetes em carbono feitos por furadores de papel, as resmas contendo séries de bolinhas e quadrados ora desenhados, ora furados deixando que camadas e transparências dos diversos papéis usados possam formar uma pista de seu significado simbólico.

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Sua ligação com a numerosa família pernambucana é forte e segue refletindo diretamente em alguns trabalhos como as cartas trocadas entre seu pai e avô, durante a década de 1940, e reproduzidas em carbono, copiadas cinco vezes como lembrança a cada uma de suas irmãs. Ou a toalha de mesa e os guardanapos em linho ofertados por sua mãe quando veio de mudança para o Rio.

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A perenidade dos papéis, a tinta ressecada da caneta, a fragilidade do tecido, a fotografia desmemoriada e a linha solta do bordado são acontecimentos determinados pela imprevisibilidade do tempo. A produção de Renato parece um aviso de que tudo tende a desaparecer. É preciso se atar ao outro para nos reconhecermos e salvarmos os fragmentos da memória. No silêncio daquele oitavo andar Renato Bezerra de Mello aprende a inventar intervalos de tempo.

Serviço

Local: Paço Imperial – Praça XV – Centro
Temporada: Até 20 nov 2016
Dias e Horários: domingo, terça, quarta, quinta, sexta e sábado de  11:00 até 19:00
Preço: Grátis

Por Michaela Blanc