“(…) caim é o que matou o irmão, caim é o que nasceu para ver o inenarrável, caim é o que odeia deus.” [p.142]

Em 2009, saía um dos mais polêmicos livros de José Saramago. Autor português que já foi Nobel em Literatura e Prêmio Camões – o maior prêmio literário da língua portuguesa –, Saramago é reconhecido pelo mundo inteiro por sua escrita peculiar e sua falta de papas na língua. Um senhor simpático com ares de avô que sempre deixa biscoitos assando no forno esperando os netos chegarem.

A obra dessa quarta-feira é “Caim”, esse mesmo. O que matou o irmão por pura inveja. Bem… temos lá a nossa versão da história. Ou melhor… a versão desse senhor português, que escreveu e… escreveu sem medo de ser excomungado pela igreja.

Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Eva comeu do fruto proibido e Deus, muito fulo da vida, pôs a correr os dois que viviam no maior bem-bom. E é assim que começa nosso enredo. Deus, Eva e Adão sendo alvo do protagonismo dessas primeiras páginas.

É bem sabido que Adão e Eva tiveram três filhos. Caim, Abel e Set. Set, coitado… foi deixado de lado nessa história. Nosso autor, inclusive deixa isso bem claro. E nós, como somos literariamente influenciados também vamos deixar o moçoilo para lá.

Caim era agricultor, ao passo que Abel era dado à pecuária. Ou seja, dupla de sucesso infalível. Mas naquela época era comum que fossem feitas oferendas para Deus. E cada um na sua seara fazia o que podia para agradar ao Senhor. No entanto, as oferendas de Caim eram sempre rejeitadas, já as de Abel, eram recebidas com pompas no céu. Isso acabou gerando um tanto de insatisfação no nosso protagonista. E foi aí que ele achou que a solução era matar o irmão. E foi feita a sua vontade.

Após uma discussão com Deus, Caim assume a culpa pelo assassinato, mas também o culpa pelo acontecido. Deus, que não pôde deixar de concordar com os argumentos do homem, acabou dando-lhe um castigo bastante peculiar. Marcou-lhe a testa e garantiu que não o mataria. Caim agora estava entregue a própria sorte. E que sorte…

Saramago, genialmente, fez com que ele passasse por várias passagens do velho testamento. Sodoma e Gomorra, a Arca de Noé, Lilith (que não está bem na Bíblia)… vários personagens que já nos são conhecidos, tornaram-se também conhecidos de Caim, ainda que não tivessem vivido na mesma época. Caim, sem ele mesmo saber como, conseguia fazer viagens no tempo podendo visitar passado ou futuro.

Estruturalmente, encontramos a falta do hífen em algumas palavras, como por exemplo, “disseme”. E isso é apenas um dos muitos aspectos estilísticos de Saramago. O autor também é conhecido pelo uso de mesóclises e tem um sistema único – que só ele entende – de pontuação. Frases não começam com letras maiúsculas e ele não usa travessão para diálogos. Aliás, a identificação dos diálogos só é reconhecida, às vezes, porque o próprio autor sinaliza quem está falando.

Outra questão que nos chama bastante atenção é como Saramago coloca Deus como o grande vilão da história. Chega até mesmo usar de escárnio para se referir a um dos “personagens” mais ilustres da literatura mundial. Deus, é um homem cínico e irônico, capaz de fazer apostas com o próprio satã só para provar que é ele o todo poderoso.

Sem contar, que tanto a figura de Eva, quanto a de Lilith ensaiam uma revolução feminista, ainda que isso não ocorra de fato. Eva está sempre a lembrar que se ela fosse homem nada daquilo aconteceria. Já Lilith era senhora de sua terra. Fazia de seu marido um mero expectador de suas artimanhas. Foi Caim quem deu o filho que Lilith tanto queria.

A obra é narrada em terceira pessoa, apesar do espaço-tempo ser ainda no velho testamento, o autor traz traços de modernidade ao enredo. Ora com frases feitas, ora falando de elementos que n’aquela época ainda não havia sido inventados, Saramago conduz um enredo delicioso, direto e perturbador.

Para você que, curioso de plantão, essa é uma leitura um tanto aprazível. Mas é bom deixar claro que nada prega sob caráter religioso. É uma obra Literária, portanto, livre nas suas intepretações. E para que nós não matemos o leitor de curiosidade, fica abaixo uma das citações, quiçá, mais engraçadas – e polêmicas – de todo o conteúdo.

“O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando está com sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado os senhor à merda, mas não foi assim.” [p.79]